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Setembro de 2013

A efervescência do Teatro Passense

Nos últimos dois anos, Passos vem registrando o que se pode chamar de uma efervescência do teatro. Vários grupos têm lotado a agenda do Teatro Rotary, com peças não só para o público adulto, mas também para o infanto-juvenil. Essa “agitação cultural” coincidiu com a reinauguração do Teatro Rotary, em outubro de 2011, após mais de três anos de casa interditada por não oferecer condições adequadas à montagem de peças.

Conforme Taciana, até o fim do ano não há mais datas vagas na agenda do Teatro Rotary.
Conforme Taciana, até o fim do ano não há mais datas vagas na agenda do Teatro Rotary.

A ebulição dos grupos teatrais tem feito com que o Departamento de Cultura da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secel) da Prefeitura de Passos trabalhe com agendamento de datas de forma bastante antecipada. Segundo a diretora do Departamento de Cultura, Taciana Lopes Baptista, desde a reinauguração do Teatro Rotary até meados de agosto deste ano, aquela casa recebeu 53 peças, as quais atraíram um público de aproximadamente 35 mil pessoas. Somente este ano, foram exibidas 11 peças (infantil e adulto), para um público estimado em 4.500 pessoas.

Para Taciana, a efervescência não ocorre só no teatro, mas também na dança, na música, nas artes plásticas e na literatura. No caso específico do teatro, ela avalia que o segmento passa “por um momento positivo de resposta do público aos artistas, pois as peças estão sendo trabalhadas e desenvolvidas com muita qualidade, criatividade, compromisso e dedicação de quem as apresenta”.

Grupo Coliseum tem como base a família Silva: Roberto e Mirinha (pais) e PC, Edu e Pedrinho (filhos)
Grupo Coliseum tem como base a família Silva: Roberto e Mirinha (pais) e PC, Edu e Pedrinho (filhos)

A diretora de Cultura informa que até o fim do ano todos os finais de semana já estão agendados para espetáculos teatrais. “Esta procura e demanda pelo teatro por parte dos grupos é um termômetro de que estamos passando por um momento muito bom, e que não podemos deixar isso acabar”, frisa Taciana Lopes, eleita recentemente como delegada regional para representar Passos e região na Conferência Estadual de Cultura.

Uma segunda casa?

Para algumas lideranças do segmento teatral, a cidade já comporta uma segunda casa. Entretanto, segundo Taciana, a Prefeitura Municipal vem trabalhando é para estruturar bem o Teatro Rotary – que pertence ao Rotary Clube de Passos, mas está sob a administração da municipalidade. “É melhor que tenhamos um teatro bem estruturado e em melhores condições para atender aos artistas e ao público do que ter dois e não conseguir arcar com as despesas nem poder dar o suporte necessário a quem precisar usá-lo”, afirma. Taciana diz que o município tem buscado sanar os problemas surgidos, mas faz um apelo para que todos – frequentadores e artistas – ajudem a conservar bem a casa.

Na peça “Auto da Compadecida”, Roberto (de terno branco) contracenou com os três filhos
Na peça “Auto da Compadecida”, Roberto (de terno branco) contracenou com os três filhos

Ela adianta que a Prefeitura de Passos está em processo de implantação de um Sistema Municipal de Cultura, fruto de um termo firmado em dezembro de 2012 com o Ministério da Cultura que prevê a inclusão do município ao Sistema Nacional de Cultura. “Isso será um ganho e avanço para a nossa cidade, já que representará a descentralização da cultura”, pontua.

“Na verdade, o suporte não está faltando somente para os grupos de teatro, mas em todas as áreas culturais que possuímos, porque falta uma política cultural que realmente dê oportunidade a todas as pessoas, tanto as envolvidas na propagação da arte quanto para aquelas que querem participar e aprender alguma forma de arte (pintar, dançar, cantar, fazer teatro etc.)”, frisa a diretora de Cultura de Passos, adiantando que “com isso serão oferecidas atividades culturais contínuas e não somente eventos temporários”.

Sem interrupção

Entre os grupos teatrais da cidade, um tem mantido uma constância de quinze anos, com pelo menos duas ou três peças ao ano. É o Grupo Coliseum de Teatro, fundado em maio de 1998, que em 2007 transformou-se na empresa Coliseum Produções Artísticas. O grupo tem como base a família conhecida em toda a cidade como “os Silva”. São os pais Carlos Roberto e Mirinha Silva e os filhos Paulo César (PC), Edu e Pedrinho Silva. “Nesses 15 anos de existência, não deixamos de montar peças nenhum ano sequer”, gaba-se Roberto, que conheceu a esposa Mirinha há 35 anos, no teatro. Entre outros, ele cita Gustavo José Lemos como seu professor de teatro. A primeira peça do Coliseum foi “A louca história dos vampiros”, escrita por Edu e PC Silva. O sucesso foi tanto que, daí por diante, o grupo não parou mais. Sempre com casa lotada o grupo continua com forte tendência para a comédia, gênero escolhido pela família.

Maurílio Romão abraça os troféus recebidos no Festival de Teatro de Conselheiro Lafaiete
Maurílio Romão abraça os troféus recebidos no Festival de Teatro de Conselheiro Lafaiete

Em 15 anos, o grupo já participou de vários festivais, como Parati, Contagem, Conselheiro Lafaiete, Patos de Minas e Passos. Também levou seus espetáculos a diversas cidades da região e, no ano passado, passou 14 dias em Portugal, onde apresentou duas peças. Prêmios também foram muitos nesse período, conforme relata Edu, que é o “roteirista” do grupo e escreveu 14 das 19 peças encenadas pelo Coliseum desde 1998. O “Auto da Compadecida”, baseado na obra de Ariano Suassuna, foi um dos espetáculos encenado pelo grupo este ano, tendo levado um grande público ao teatro em duas temporadas.

Roberto Silva diz que após a reabertura do Teatro Rotary, em 2011, surgiram quatro ou cinco grupos teatrais, “que acabaram sendo beneficiados com a formação de público que sempre levamos ao teatro todos os anos. Além de não deixar de apresentar espetáculos mesmo quando o Teatro Rotary esteve fechado por quatro anos (o grupo usava espaços alternativos), sempre divulgamos nosso trabalho nas escolas. O fruto é um público ávido por peças de teatro”.

“O Gato Malhado e a Andorinha Sinháâ€Â conquistou seis dos dez prêmios do Festival de Conselheiro Lafaiete de 2013
“O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” conquistou seis dos dez prêmios do Festival de Conselheiro Lafaiete de 2013

Seu filho, Edu Silva, complementa, dizendo que “a cidade é interessada por teatro sim, não precisamos sair de Passos pra mostrar nossa arte. Muitos deixam a cidade pra tentar algo maior lá fora, o que é importante, mas acho que se todos os artistas forem embora para os grandes centros sobram poucos artistas no interior”. No seu ponto de vista, é preciso acreditar na cidade. “Nós acreditamos e aqui permanecemos. Se outros atores e diretores tivessem ficado, a efervescência teria ocorrido há muito mais tempo. Que bom que estão voltando. Quanto mais gente for ao teatro, melhor. Temos de criar esse hábito nas pessoas”, defende o ator e autor teatral.

No entendimento de Roberto, se a agenda do Teatro Rotary for bem administrada, não será preciso construir outra casa. Para ele, eventos que duram apenas um dia poderiam ser agendados para o início da semana, mas nunca para o período de quinta a domingo, “porque isso mata a semana para uma peça de teatro, pois temos de montar cenários, ensaiar, fazer marcação, som e luz etc.”, observa. O diretor da Coliseum Produções defende a inserção do teatro na grade das escolas. “Já existe nas particulares, mas as públicas deveriam inserir também, pois além de melhorar a dicção, melhora também a expressão corporal e facial, a mente e abre novos horizontes aos alunos. Temos que trabalhar o lúdico”, conclui.

Vinda de profissionais

Para o diretor e encenador Maurílio Romão, da Trupe Ventania, “a vinda de profissionais impulsionou as produções locais, ditando um novo ritmo e outra perspectiva acerca do teatro”. No seu ponto de vista, essa perspectiva somada à vocação passense para as artes, o teatro em especial, possibilitou essa efervescência. Para ele, que entre outros trabalhos dirigiu “A Paixão de Cristo”, novos talentos têm surgido na cidade e “têm sede de crescimento e conhecimento”.

Parceria de Babe (de pé), Chiquinho e Urias já dura 16 anos
Parceria de Babe (de pé), Chiquinho e Urias já dura 16 anos

Maurílio chama a atenção, no entanto, para a importância da profissionalização dos grupos teatrais. “Os grupos não têm se preocupado com profissionalização, não reciclam conhecimentos e estão bem ‘contentes’ com o que produzem”, diz o diretor, que dá a receita: “A verdade é que não há cursos por aqui, mas quem quer vai atrás. Eu fui estudar Artes Cênicas em Ouro Preto, fui pra São Paulo, onde trabalhei, estudei e já estou projetando o meu mestrado e preparando meus atores para fazerem oficinas fora, como fizeram no Festival de Teatro de Conselheiro Lafaiete”. 

Com 20 anos de ribalta, Maurílio diz que almeja um trabalho que permita ao seu grupo se apresentar em qualquer lugar, com diversos parâmetros, “como estamos fazendo com ‘O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá’. Não podemos deixar nossas produções acomodadas somente dentro da cidade”. Para ele, a “espetacularidade” melhorou à custa de parâmetros, “o que ainda não vi progresso foi nas encenações, no bojo, no conceito. Não consigo identificar a necessidade de comunicação, de criação, inquietação e desmedimento artístico”.

Parceria de Babe (de pé), Chiquinho e Urias já dura 16 anos
Parceria de Babe (de pé), Chiquinho e Urias já dura 16 anos
Urias e Chiquinho numa das cenas da peça “Aula Número Dois”, em 2006, no Teatro Rotary
Urias e Chiquinho numa das cenas da peça “Aula Número Dois”, em 2006, no Teatro Rotary

“O Gato Malhado...” é um exemplo da qualidade dos espetáculos do grupo. Em julho deste ano, a montagem recebeu seis dos dez prêmios do Festival Nacional de Conselheiro Lafaiete, concorrendo com 68 peças montadas por 50 grupos de diversos Estados brasileiros. A montagem venceu os seguintes prêmios: Melhor Maquiagem, Melhor Figurino, Melhor Cenário, Melhor Ator, Melhor Direção e Melhor Espetáculo. “Regressamos com o espírito de mais e de, verdadeiramente, termos a certeza de que a confecção deste espetáculo se deu em solo passense e que nosso espírito de criação ainda é muito forte. Parâmetro nacional”, frisa Maurílio.   

O diretor é de opinião que o Teatro Rotary é suficiente para atender à grande demanda. “O grande problema do teatro é que, nas condições em que se encontra, não consegue atender às produções. Seu estado de conservação é precário e vem de muitas e muitas ausências de políticas culturais”. Mas, Maurílio defende a exploração de outros espaços, como a Estação Cultura, ruas, praças, casas abandonadas e campos. “Nós estamos em processo em dois espaços alternativos da cidade”, adianta. Outro projeto da Trupe Ventania é promover, em outubro deste ano, o 1º Festival da Criança no Teatro.

Fim do monopólio

Diretor de teatro há 18 anos, Babe Grilo faz uma avaliação positiva do momento porque passa o teatro em Passos. “Precisamos demais disso e a resposta de público confirma”, diz ele, acrescentando: “a efervescência se deve ao óbvio: o fim do monopólio das artes, que (estranhamente) era mantido pelo poder público, que continua devendo uma política cultural para todas as áreas artísticas”. Nos últimos 16 anos, Babe tem montado várias peças em parceria com Chiquinho Negrão e Urias Garcia – dois atores com mais de 30 anos de palco. Para Babe, a qualidade dos espetáculos montados em Passos tem melhorado “escancaradamente, principalmente na pluralidade, em todos os sentidos”. Somado a isso, tem surgido muitos talentos na área teatral. “Parece uma fonte de luz. Os bairros estão abarrotados de jovens ansiosos por oportunidades. Enquanto elas não vêm, eles vão descobrindo outras seduções... drogas, armas, impunidade”. Para ele, a cidade “tem bons diretores para ministrar bons cursos”.

No entendimento do diretor, o Teatro Rotary não é suficiente para a demanda dos grupos teatrais da cidade. “Pra coisa toda acontecer como se prenuncia, precisamos de pelo menos mais dois espaços e estrutura mínima de som e luz porque está de lascar...”, opina Babe. Ele cita a Mostra de Teatro da Superintendência Regional de Ensino de Passos como “o melhor projeto de política pública que tivemos” para estimular o surgimento de novos talentos e conclui afirmando que para ter mais arte de mais qualidade “precisamos de mais patrocinadores”.

José dos Reis Santos

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