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Setembro de 2013

Qual a influência do HIPERTEXTO na LEITURA TRADICIONAL?

Na opinião de Vanilce Rezende, hipertexto oferece mais informações aos alunos.
Na opinião de Vanilce Rezende, hipertexto oferece mais informações aos alunos.

Até pouco tempo atrás, muitos alunos de escolas públicas tinham contato com textos literários apenas em livros e apostilas. Assim, praticavam a chamada leitura tradicional ou linear. Entretanto, com a popularização da Internet, os alunos passaram a ter mais contato com outro formato de texto – o hipertexto. Esse formato abre “links” para diversos assuntos relacionados ao texto que é lido, ampliando muito as informações sobre determinado tema.

Se para alguns, o hipertexto exige uma maior concentração para manter o foco no tema do que está sendo lido, para outros é o texto tradicional que obriga o leitor a se concentrar na leitura “para não perder o fio da meada”. Sem dúvida, o leitor que quiser aproveitar bem a leitura do hipertexto precisa ter a chamada “leitura seletiva”, caso contrário se perderá no meio de tantas informações, não conseguindo transformá-las em conhecimento para o seu cotidiano.

Mas, até que ponto a leitura da Internet (o hipertexto) influencia a leitura tradicional (linear)? Quem foi acostumado com a leitura linear consegue manter mais o foco do que aqueles que têm maior contato com o hipertexto? A Internet está fazendo os alunos lerem mais ou não?

Influência do hipertexto

Professora há 17 anos, Vanilce Rezende Silva Chahhoud é graduada em Letras, com pós-graduação em Redação. Desde que começou sua vida profissional, leciona Língua Portuguesa, Redação e Literatura na rede pública estadual; atualmente, trabalha na E.E. Dulce Ferreira de Souza (Polivalente) e no Colégio São Francisco. Segundo ela, muitos alunos não gostam de ler. “Justificam que o livro não é legal ou que têm preguiça mesmo”, relata.

Como praticamente todos os seus alunos têm acesso à Internet, Vanilce tem proposto leituras de textos ou mesmo de livros literários pela rede mundial de computadores, inclusive envolvendo pesquisa. Ela chega a indicar até audiolivros na tentativa de estimular a leitura.

Livro.

A professora acredita que a leitura do hipertexto influencia na leitura tradicional. “O aluno, por fazer esse tipo de leitura (hipertexto), adquire maior conhecimento e desenvolve melhor a leitura do texto tradicional”, frisa. E essa influência ocorre, segundo a professora, até mesmo na escrita do aluno: “De posse de mais informações, com certeza ele vai escrever cada vez mais e melhor. A leitura do hipertexto acrescenta mais na vida do aluno.”

Embora considere interessante a leitura do hipertexto, Vanilce chama a atenção para os “hiperlinks”. “É preciso que os alunos tomem cuidado ao fazer esse tipo de leitura, principalmente hiperlinks, para que não percam o foco daquilo que estão fazendo, no caso de um trabalho de pesquisa, por exemplo”, observa.

A professora informa que, para a leitura em sala de aula, os alunos preferem, geralmente, o texto tradicional: “O hipertexto contribui com mais informações para os alunos, mas é preciso que seja um trabalho bem direcionado para que o aluno não se perca nas informações, que não são poucas.”

Para Gilza Mendes, texto tradicional contribui mais para retenção de informações.
Para Gilza Mendes, texto tradicional contribui mais para retenção de informações.

Para Vanilce, diante de tanta tecnologia não há como fugir da leitura do hipertexto. “Trabalho com este tipo de leitura na sala de aula, e acredito que ele traz informações a mais para o aluno, sim”, diz a professora, ponpontuando: “Quando você propõe aquilo que o aluno gosta, torna-se mais prazeroso pra ele, e já que a tecnologia está tão presente na vida dele (aluno), por que não trabalhar com ela?”. No ponto de vista da professora, o resultado positivo ou negativo depende da maneira como se trabalha o hipertexto com o aluno. Por isso, ela reafirma a importância de um trabalho bem orientado por parte do professor.

Retém mais informações

Por sua vez, a professora Gilza Mendes de Oliveira, que leciona Língua Portuguesa, Redação e Literatura há mais de oito anos, diz que os alunos gostam mais da leitura do hipertexto, “porque é mais rápida e não exige concentração”. Entretanto, na sua opinião, “a leitura tradicional, desde que haja objetivos claros para esta, colabora muito mais para a retenção de informações. A minha opinião e a de outros educadores com os quais converso é que os alunos que leem só pela Internet sabem muitas coisas, mas sem nenhuma profundidade, justamente devido à leitura fragmentada e sem objetivos.”

Formada em Letras, cursando pós-graduação em “Mídias na Educação”, Gilza faz uma comparação dos seus alunos de hoje com os de 2004, quando começou a lecionar Literatura. “Lembro-me que eles liam bem mais que hoje. Hoje, eu diria que só uns 15% dos meus alunos leem uma obra integralmente, o que é lamentável, porque os estudantes que não leem não perdem apenas do ponto de vista intelectual, mas também do ponto de vista da formação humana”, observa.

A professora, que leciona na E.E. São José e no Cesec “Emília Leal”, tenta reverter essa situação. “Para gostarmos de um filme é necessário assisti-lo do início ao fim. E um livro não deixa de ser um filme, muitas vezes mais interessante, porque o leitor pode fazer seu próprio filme e/ou se tornar personagem”, diz. Segundo ela, a maioria não gosta de ler, justificando não ter tempo ou não gostar do livro indicado.

Embora utilizem a Internet para várias finalidades, os alunos não costumam baixar livros recomendados pela professora. “Muitos utilizam o recurso (Internet) apenas para ler os resumos, o que considero um grande prejuízo para a formação do aluno, porque é antiético”, observa Gilza. Diante disso, ela mudou a forma de avaliar. “Modifiquei para debate, porque é necessário que o aluno conheça o enredo da obra com maior profundidade, além do que, esta atividade enriquece a interação entre eles e a mediação do professor facilita a compreensão de algo que o aluno não tenha conseguido depreender”, explica. Mesmo assim, ela não duvida que alguns participem dos debates tendo lido apenas o resumo do livro.

Produção de textos

Como vantagens da leitura tradicional, Gilza cita que ela exige mais concentração e abstração “e, por isso, desenvolve o intelecto e a criatividade, bem como a memória fotográfica”. Esses fatores, na opinião dela “são essenciais para a produção de bons textos”. A professora não vê problemas na leitura de hipertextos, “desde que o indivíduo tenha consciência que a leitura tradicional é que acrescenta conhecimento”. Para ela, a leitura de hipertextos está fazendo com que a maioria dos alunos leia cada vez menos, “porque a imaturidade deles os faz procurar aquilo que é mais rápido e mais fácil”.

Ela diz que é comum identificar alunos leitores no início de cada ano letivo, “porque respondem com segurança a tudo que pergunto, além de terem bom rendimento na parte de interpretação e escrita. Acredito que professores de outras áreas também já tenham percebido isso”, observa.

Gilza afirma que “ter informação com apenas alguns cliques é maravilhoso. Falta aos adolescentes a maturidade para saber utilizar os recursos que a tecnologia oferece e às famílias incentivar os filhos a usar tais recursos a favor da formação deles”. Embora já utilize alguns dos recursos ensinados no curso de pós-graduação que iniciou este ano, a professora quer expandir seus conhecimentos, “a fim de mostrar para o aluno que a leitura aliada à tecnologia pode ser agradável e divertida.”

José dos Reis Santos

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