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Outubro de 2013

Panteão estremecido

O panteão de heróis do nosso país anda por demais rarefeito e bastante estremecido...

 Panteão estremecido

Como castelos de areia ao sabor das ondas do mar, um a um dos chamados “grandes vultos” vêm sendo desbancados, seja por falta de referências corretas, ou mesmo por pregações propedêuticas, que ao invés de enaltecer, desmistificam e demovem. 

Cabral? Teria atracado nas costas da Bahia por mero acaso. Dom Pedro I? Teria bradado Independência ou Morte sem os matizes estampados em tela por Pedro Américo. Caxias? Militar controverso, teria promovido um verdadeiro genocídio ao empurrar as tropas paraguaias para o outro hemisfério do Rio Paraná...

Cada ex-presidente da república, governador de estado ou prefeito é, via de regra, achincalhado pelo sucessor que, em discurso partidário-eleitoreiro, coloca o colega predecessor como grande vilão, responsável por todas as mazelas e desmandos anteriores.

Figuras tidas como ilibadas em nossa história são tombadas uma a uma de seu totem absoluto, tornando-se mortais comuns, dignas apenas de importância relativa.

Também as instituições brasileiras passam por igual reavaliação. Uma releitura geral.

A insatisfação popular, veemente nas manifestações coletivas dos últimos tempos, é notória, a exemplo do que também ocorre em outros locais do mundo. Protesta-se contra governantes e suas medidas administrativas, não raro, equivocadas.

Também contra políticos espertalhões e corruptíveis, deixando em cheque, em alguns casos, os próprios pilares da democracia.

Reclama-se contra tudo aquilo que carece depuração: saúde, educação, habitação, segurança, infraestrutura... Luta-se por uma legislação que tenha aplicação mais igualitária, contra a impunidade, por uma maior transparência na coisa pública, por direitos (e deveres) iguais. Por cidadania, enfim. Em meio a essa incredulidade geral, há insurgentes com ou sem causa e, infelizmente, também vândalos que se infiltram sorrateiramente em marchas legítimas para revelar seu caráter anárquico e depredatório, o que só enfraquece os levantes necessários e desmerece reivindicações construtivas.

É inegável que o gigante acordou! O Brasil está saindo de uma hibernação feudal, que imperou desde 1500. O povo está adquirindo um maior grau de consciência, deixando de ser mera massa de manobra a serviço de interesses ideológicos, pessoais ou partidários de alguns.

Estamos desemburrecendo...

Isso nos faz lembrar da canção Everybody wants to rule the world, do grupo inglês Tears for fears, que propõem a utopia de cada um sentir-se apto a governar o mundo...

Nesse momento de reavaliação de valores e conceitos pelo qual passa a sociedade, fazem-se necessários novos paradigmas para as gerações emergentes. Nossas crianças e jovens merecem acreditar em um mundo viável; justo e sustentável.

E quem serão, mais do que nunca, os vetores essenciais nessa metamorfose? Pais e professores, personagens de convivência diuturna – heróis de carne e osso –, que devem manifestar em cada gesto uma postura; um caminho...

Na família, a mais fundamental das instituições, há que se cuidar das linhas mestras do caráter, sugerindo-se de maneira eloquente e inequívoca as diferenças entre o bem e o mal; o certo e o errado.

Na escola, reduto de complementação educacional, cada professor deve ter a consciência de sua fundamental atribuição. A disciplina que cada um leciona sempre será subalterna às suas atitudes e posicionamentos. É isto o que fica. Cada trejeito será observado e, eventualmente, replicado. Cumpre então a cada mestre desenhar no ideário de seus estudantes uma consciência cidadã e de participação.

Professor, ensine Matemática, Geografia, Português e Biologia, sim. Mas ensine, acima de tudo, humanismo. Deixe em cada um de seus alunos a crença em um tempo melhor, que é corresponsabilidade de todos nós.

Prof. Ricardo Helou Doca

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