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Outubro de 2013

Enquanto houver sonhos, não existirão fronteiras

Sou inquieto, um sonhador nato e, porque não dizer, aventureiro. Pensei no quanto o mundo é pequeno para se nascer e morrer no mesmo lugar. Acalentava-me uma frase escrita por Amyr Klink: ´Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir`, pois havia escrito já há algum tempo que: ´Enquanto houver vida e sonhos, não existirão fronteiras`. Então decidi partir.

Deserto de Atacama, PASO del JAMA
Deserto de Atacama, PASO del JAMA

Reportagem: José dos Reis Santos

Aos 58 anos de idade, o médico José Armando Maia Righetto decidiu realizar um sonho que acalentava há quase dez anos: viajar de moto por alguns países da América do Sul. Em setembro deste ano, ele realizou seu sonho ao lado do genro André Luís Montez Augusto, engenheiro civil, 43 anos. Os dois viajaram mais de nove mil quilômetros durante 25 dias, saindo do Brasil, passando pela Argentina, Chile, Peru e Bolívia, contando com o apoio de um carro, durante todo o percurso. Dos mais de nove mil quilômetros, pouco menos de dois mil foram feitos de carro - boa parte na Bolívia, pois lá, devido à dificuldade no abastecimento, perderam a noção da autonomia dos veículos; o restante foi todo em cima de motos.

José Armando saiu de Passos a “bordo” de uma Yamaha Midnight Star 950cc, e seu genro, André, saiu de Brasília (DF) numa Suzuki Boulevard 800cc, motos customs que foram apelidadas de “panteras negras”. Os dois se encontraram em Marília (SP), de onde viajaram para Foz do Iguaçu, no Paraná. Entretanto, devido ao mau tempo, tiveram de dormir em Cambé, a poucos quilômetros de Londrina. “Pegamos uma chuva de vento e granizo daquelas! Paramos numa cobertura de posto de combustível e, quando amenizou, fomos para um hotel, onde passamos a noite”, relata o médico aventureiro.

Esse é um monumento argentino quando resolveram qual seria a bandeira que representaria a República Argentina. Na frente desse monumento nós sentimos a necessidade de honrar a força da Bandeira Brasileira que também é um enorme monumento.
Esse é um monumento argentino quando resolveram qual seria a bandeira que representaria a República Argentina. Na frente desse monumento nós sentimos a necessidade de honrar a força da Bandeira Brasileira que também é um enorme monumento.

No dia seguinte, a dupla viajou rumo à Foz do Iguaçu, onde conseguiu a Carta Verde, documento essencial (seguro) para quem deseja viajar pelos países do Mercosul. O plano dos dois era entrar pelo Paraguai até a capital, Assunção, de onde seguiriam para San Salvador de Jujuy, na Argentina. Entretanto, foram aconselhados a não entrar no Paraguai de forma alguma. “Todos, até um paraguaio, nos diziam para não entrar no Paraguai, pois poderíamos ser roubados. Alguns diziam que poderíamos até ficar sem as motos e o carro”, contou o médico. Com isso, o itinerário foi alterado. Decidiram entrar por Porto Iguaçu, na Argentina, e neste país o trajeto foi Missiones, Resistência, El Chaco, Corrientes e San Salvador de Jujuy.

Ao atravessar a região de El Chaco, no norte argentino, os aventureiros puseram as motos sobre uma carreta para que pudessem viajar durante toda à noite e aumentar o rendimento da viagem, que estava com um dia de atraso na programação. Entretanto, mal andaram cerca de 300 quilômetros, a mola da carreta arriou. Perderam mais algum tempo até que o reboque fosse consertado. “Em Corrientes, um guarda municipal nos cobrou uma propina (cerca de 50 dólares), o que dava em torno de 400 pesos argentinos. Achei uma exploração, mas muitos haviam nos falado que isso é comum”, relatou José Armando.

No Grande Salar no Deserto de Atacama, onde são vendidas esculturas feitas na pedra de sal.
No Grande Salar no Deserto de Atacama, onde são vendidas esculturas feitas na pedra de sal.

A dupla prosseguiu até chegar a San Salvador de Jujuy; a partir daí começava o deserto que continuava com o Atacama – o deserto mais árido do mundo. Os dois decidiram passar a noite lá, em Susques, antes de seguir rumo à fronteira da Argentina com o Chile. “Quando chegamos à fronteira, disseram-nos que a estrada esteve fechada até dias antes, por causa da neve. Ainda vimos muita neve pelo caminho, mas cobrindo colinas e montanhas. Em alguns pontos, o asfalto ainda estava molhado pela neve que derretia”, observou o médico.

Deslumbrados com o Chile

A partir de Jujuy, a dupla enfrentou temperaturas cada vez mais baixas. “Em determinados pontos, enfrentamos dez graus abaixo de zero, no termômetro; a sensação térmica era ainda mais baixa. As mãos doíam tanto que tivemos de parar algumas vezes para fazer massagem”, diz o aventureiro.

André na cidade de Machu Picchu (Montanha Velha) com a Wayna Picchu (Montanha Jovem) ao fundo.
André na cidade de Machu Picchu (Montanha Velha) com a Wayna Picchu (Montanha Jovem) ao fundo.

Sogro e genro ficaram deslumbrados com a beleza da Cordilheira dos Andes. Ao chegarem a San Pedro de Atacama, decidiram ficar por mais tempo. Durante os três dias que lá permaneceram, puderam conhecer os pontos turísticos da região. Levantaram às quatro da manhã para conhecer os gêiseres; visitaram as Salinas Ciejas – a salinidade (semelhante à do Mar Morto) é tão alta que as pessoas são aconselhadas a não mergulharem de cabeça, pois nada afunda; encararam os “Ojos do Vulcão”; viram o pôr do sol no Valle da Luna e a formação rochosa conhecida como Três Marias. “Decidi entrar numa caverna e passei apuros. Como a caverna é para pessoas mais baixas, tive de andar agachado ou engatinhar por um bom pedaço”, relata José Armando, que tem mais de 1,80m de altura.

“Sofremos demais por causa da altitude. Sentíamos muita falta de ar. No caminho para os gêiseres, por exemplo, não consegui dirigir. Como dizem os baianos, bateu uma leseira daquelas”, conta José Armando. Mas, não foram apenas essas visitas que animaram os dias passados em San Pedro de Atacama. “Lá, vimos também muita vida selvagem, como raposa do deserto, vizcacha (roedor parecido com chinchila) e diversas espécies de pássaros (vários tipos de patos selvagens, inclusive as gaivotas andinas)”, relata o aventureiro. Alguns patos chamaram a atenção por nadarem numa lagoa, cuja água estava parcialmente congelada.

De frente para o Pacífico

José Armando e André deixaram San Pedro do Atacama, rumando para Tocopilla – uma cidade chilena portuária que fica às margens do Oceano Pacífico. No caminho, passaram por uma estrada conhecida como “El Caracol”. São muitas curvas para subir a montanha. “Lá, tive noção na realidade do que é contra-esterço”, disse José Armando. Trata-se de uma técnica usada por motociclistas para fazer curvas sem perder o equilíbrio.

A Ascensão na Ilha de Taquille (ilha verdadeira no Lago Titicaca) cuja população indígena é de etnia diferente dos que moram nas Ilhas Flutuantes de Uros - essa subida corresponde a 550 degraus e seu início está a 3.580m do nível do mar e chega a 3.850m em relação ao Lago Titicaca.
A Ascensão na Ilha de Taquille (ilha verdadeira no Lago Titicaca) cuja população indígena é de etnia diferente dos que moram nas Ilhas Flutuantes de Uros - essa subida corresponde a 550 degraus e seu início está a 3.580m do nível do mar e chega a 3.850m em relação ao Lago Titicaca.

No caminho, visitaram outro salar – local todo coberto por sal. “Os artesãos locais fazem esculturas nas pedras de sal, retratando cenas de animais e aves do deserto”, relata o médico. Mas, os aventureiros viram também muitas lhamas e algumas vicunhas pelo caminho. “Só não vimos alpacas e guanacos”, disse ele, referindo-se aos camelídeos que vivem naquela região. O voo de um condor atraiu a atenção dos viajantes. “Ele voava muito alto, de repente deu um mergulho, fez rasante e voltou a subir para as alturas. É maravilhoso”, observou José Armando.

Antes de chegar a Tocopilla, ao cruzar a cordilheira, eles passaram por minas de cobre e ouro. “É impressionante o trabalho dos mineiros”, comentou José Armando. De Tocopilla eles seguiram para Iquique, outra cidade litorânea do Chile. “De vez em quando, a gente passava por cada despenhadeiro de dar medo. De um lado a cordilheira e do outro o Pacífico”, relata o médico. Entretanto, apenas abasteceram, lancharam e foram para Arica, mais ao norte do Chile.

“No caminho para Arica, nós e nossos veículos ficamos cobertos de pó. Ainda pegamos um bom trecho de rupio – uma espécie de pedregulho muito perigoso para motos por causar derrapagens”, diz José Armando. Eles dormiram em Arica e, na manhã seguinte, partiram para Tacna, no Peru. Entretanto, só na aduana de Tacna, devido à burocracia, perderam quatro horas e meia.

José Armando no Deserto de Atacama a uma temperatura externa de menos 10ºC.
José Armando no Deserto de Atacama a uma temperatura externa de menos 10ºC.

“Um pouco antes da fronteira do Chile com o Peru, passamos por um campo minado. As placas indicam que é proibido sair da estrada, já que ainda há muitas minas enterradas no local, colocadas ainda na época de Pinochet (Augusto Pinochet, ditador chileno)”, contou o médico.

“Horizonte perdido”

O objetivo seguinte dos aventureiros era chegar a Puno. Entretanto, tiveram de pernoitar em Moquegua. “Estávamos viajando tranquilamente quando, de repente, vimos ao longe, em pleno deserto e entre duas montanhas, uma mancha verde. Era Moquegua”, disse José Armando, explicando que a cidade fica num vale, onde são produzidos legumes, verduras e frutas. “A cena me fez lembrar o filme ‘Horizonte perdido’, que retratou o local conhecido como Shangrilá”, observou o médico.

Em Moquegua, onde a dupla trocou dólares por dinheiro local (o sol), dois guardas municipais se encantaram pelas motos de José Armando e André. “É que lá passa muitas big trail, mas não passam custom como as nossas. Eles nos levaram a um hotel e lá pediram para tirar foto perto das motos. Aí fizemos melhor: tiramos fotos deles em cima das motos. Além deles, outras pessoas quiseram tirar fotos com a gente e ao lado das motos”, relatou o médico.

 Ojos Del Vulcan no Deserto de Atacama na região da Laguna Cieja.
Ojos Del Vulcan no Deserto de Atacama na região da Laguna Cieja.

Após se hospedarem, os dois foram conhecer o mercado central de Moquegua. “Fiquei espantado com a qualidade das frutas, verduras e legumes que eles produzem lá. Tomate, pimentão, melão, carambola, manga, mamão, maracujá doce, maracujá ácido, uva, etc., tudo de excelente qualidade”, informou. Após pernoitarem em Moquegua, os aventureiros pegaram a estrada rumo a Puno, mais ao norte, já que o destino final era chegar a Cusco e Machu Picchu.

Ilhas flutuantes

Em Puno, os dois contrataram um passeio pelas ilhas flutuantes de Uros, no Lago Titicaca. José Armando ficou impressionado com as mulheres, que são baixas, têm ancas largas e barrigas enormes. “E os homens gostam delas é assim, com a barriga grande”, observa o médico.

André fazendo um passeio num barco de junco no Lago Titicaca (é o maior lago de água doce na altura de 3.580m do nível do mar. Parte dele pertence à Bolívia e outra parte pertence ao Peru, tendo uma grande importância econômica no turismo e na piscicultura de trutas.
André fazendo um passeio num barco de junco no Lago Titicaca (é o maior lago de água doce na altura de 3.580m do nível do mar. Parte dele pertence à Bolívia e outra parte pertence ao Peru, tendo uma grande importância econômica no turismo e na piscicultura de trutas.

Nas ilhas, eles conheceram o artesanato dos indígenas; se admiraram com a estrutura das “ilhas”, que são feitas sobre grandes plataformas de juncos; e, viram uma igreja e escola flutuantes, ambas da Igreja Adventista. “Enquanto os homens caçam aves e pescam, as mulheres passam o tempo tecendo. Quase tudo lá é feito desse junco, até os barcos”, relata o admirado aventureiro.

Outro passeio que a dupla fez foi à ilha de Taquille – esta, uma ilha verdadeira no lago Titicaca, onde vive outra etnia indígena. “Lá, o costume deles é morar até quatro anos juntos antes de se casarem. Se não der certo, se separam; se tiverem filhos, têm de casar”, explica.

Mesmo com problemas no joelho e enfrentando os efeitos da altitude, José Armando subiu uma escadaria de 550 degraus. “No final, estava cansado, mas valeu a pena”, disse o médico. Uma das histórias contadas a ele refere-se às escadarias. Conta-se que anos atrás, o então presidente peruano Alberto Fujimori ficou muito cansado ao subir as escadarias e, por isso, prometeu dar aos habitantes da ilha um teleférico. “O chefe, então, recusou o teleférico, dizendo que era tradição deles subir as escadarias, mas queria para o seu povo uma escola secundária”, relata o médico.

Mulheres com artesanato da Ilha de Uros.
Mulheres com artesanato da Ilha de Uros.

O sistema cooperativo adotado pelo povo da ilha foi outra coisa que chamou a atenção dos aventureiros. “Todos eles atuam de forma cooperativa, cuidando até das viúvas. É impressionante como funciona”, observou José Armando. Outro detalhe que chamou a atenção dele é o costume dos casais de Taquille. Quando completam quinze anos de casados, a mulher dá ao marido uma cinta feita com os cabelos dela e com pelos de lhama; ele, por sua vez, dá a ela um xale feito com pelos de alpaca ou vicunha. “Eles usam aqueles adereços para o resto da vida”, relata o médico.

Entre as mulheres, as solteiras usam vestimentas com cores mais vibrantes; as casadas, com cores mais neutras; e, as viúvas, com cores escuras. O povo é muito religioso, com uma influência do catolicismo muito marcante, porém há um sincretismo religioso com a religião inca (parecido com a umbanda, no Brasil), observa José Armando.

Cusco e Machu Picchu

De Puno, que fica às margens do Titicaca, os aventureiros seguiram para Cusco. “A praça das armas – toda praça central é chamada de praça das armas – chama a atenção por sua beleza. Foi lá que filmaram parte da novela ‘Amor à Vida’, da Globo”, relata o médico. Ele e seu genro ficaram hospedados a pouco menos de cem metros dessa praça, o que propiciou conhecer melhor o local. Foi na hospedaria que a dupla decidiu mudar o trajeto final da viagem. Em vez de seguir para Puerto Maldonado e entrar no Brasil pelo Acre, eles decidiram seguir o conselho de brasileiros e atravessar a Bolívia rumo ao Mato Grosso, o que encurtaria a viagem em mais de 800 quilômetros.

Mulheres se despedindo da gente com as casas de junco ao fundo que são mudadas de lugar a cada 2 sema- nas com o objetivo de forrar com junco seco para controlar a umidade evitando doenças.
Mulheres se despedindo da gente com as casas de junco ao fundo que são mudadas de lugar a cada 2 sema- nas com o objetivo de forrar com junco seco para controlar a umidade evitando doenças.

Baseados em Cusco, os aventureiros foram conhecer o Vale Sagrado, águas calientes e as ruínas de Machu Picchu. “Na verdade, na região conhecida como Vale Sagrado há muitas ruínas de cidades antigas e Machu Picchu é uma delas, uma cidade inacabada. Antes de concluir a cidade, a população teve de voltar para Cusco, centro do Império Inca, para tentar salvar os que foram acometidos pela varíola. Foi assim que ocorreu a dizimação da população – varíola transmitida pelo homem branco (os espanhóis)”, explica o médico.

Em Machu Picchu, sogro e genro conheceram o sistema dos incas para irrigar, plantar e construir (cortavam a pedra – granito branco – com hematita). Também puderam ver as casas dos moradores da cidade inacabada. “Os de nível mais alto moravam em casas feitas de pedras talhadas, com encaixe perfeito, presas uma à outra por grampos de cobre; já os de nível mais baixo, moravam em casas feitas com pedras sem encaixe perfeito, apenas coladas com argila”, observa o médico.

No Deserto de Atacama - El Caracol  -  trajeto chamado assim, devido às curvas fechadas. Pode ser conferido no You Tube; é tido como um dos trechos de estradas perigosas para motoqueiros e aventureiros.
No Deserto de Atacama - El Caracol - trajeto chamado assim, devido às curvas fechadas. Pode ser conferido no You Tube; é tido como um dos trechos de estradas perigosas para motoqueiros e aventureiros.

Devido ao atraso da viagem, a dupla de aventureiros decidiu abortar a ida a Nazca, para conhecer os famosos desenhos feitos na terra por civilizações antigas. “Ano que vem, vou de avião para Cusco e, assim, poderei visitar Nazca”, adiantou José Armando, que pretende conhecer um pouco mais sobre a cultura do povo inca. “Eles eram excelentes astrônomos”, relata o médico, citando o calendário inca com base nos solstícios de inverno e verão.

Depois de visitarem as ruínas de Machu Picchu, os aventureiros voltaram a Puno, onde pernoitaram. De lá, rumaram para a divisa com a Bolívia, na localidade de Desaguadero. “Lá, o trânsito é caótico. O transporte é feito por vans, é um salve-se-quem-puder”, comentou o médico. Eles ficaram impressionados com a quantidade de produtos que os bolivianos iam comprar no lado peruano de Desaguadero. “Passavam com enormes fardos de produtos diversos, até papel higiênico”, relata.

No Deserto de Atacama - Grande Salar - esse cacto é uma escultura de sal.
No Deserto de Atacama - Grande Salar - esse cacto é uma escultura de sal.

Lá, eles encontraram um ônibus de turistas europeus. “Chamei aquele local de Torre de Babel, pois pude conversar com australianos, alemães, franceses, norte-americanos, espanhóis, chilenos, argentinos, indianos, bolivianos, peruanos, canadenses e brasileiros. Foi muito interessante”, frisou José Armando. Boa parte da comunicação se deu em inglês e espanhol.

Bolívia: o calvário

Até que enfim, a dupla – acompanhada pelo motorista que dirigia o carro de José Armando – entrou na Bolívia. “Aí começou o nosso calvário”, observou o médico. É que em todo o percurso dentro da Bolívia, eles não conseguiram comprar combustível de forma legalizada – com nota internacional. “Tivemos de abastecer de forma clandestina, pois a gasolina é subsidiada e em cada posto tem câmeras do governo federal para fiscalizar a venda de combustível”, relatou. Os frentistas orientavam os viajantes a abastecer os galões e, com estes, encherem os tanques das motos e do carro.

Os aventureiros enfrentaram o trânsito caótico de La Paz. “Aquela cidade deveria se chamar La Guerra, pois o trânsito é terrível”, observou José Armando. O frio cortava a pele, por isso, os viajantes decidiram pernoitar numa cidade assim que passaram pela capital. “Minhas mãos estavam doendo e dando câimbras de tanto frio, por isso, procuramos um abrigo. Por indicação, fomos parar numa casa paroquial, onde o diácono nos arranjou dois colchões de palha, num quarto fedendo a mofo”, relatou.

Diante disso, os aventureiros decidiram procurar outro local e, bem mais à frente, encontraram um hotel num pueblito (pequeno povoado), cujo banheiro era coletivo. “O jantar foi bom, os quartos também, mas o banheiro, apesar de bom, era coletivo”, contou o médico. Como a cama era de mola, ele deitou na diagonal, como se faz para dormir numa rede. “Dormi a noite toda”, declarou. No dia seguinte, a dupla não teve “coragem” de tomar banho, porque a água estava quase congelada. Depois disso, sogro e genro saíram da cidade, decidindo fazer de carro o restante do percurso em solo boliviano.

 No caminho para Cochabamba, os aventureiros pegaram uma forte cerração em cima da Cordilheira dos Andes. “Não enxergávamos praticamente nada, quando vi um lugar plano. Entramos lá e esperamos a neblina ceder um pouco. Foi aí que avistamos uma pousada e alguns caminhões parados. Ficamos lá por cerca de duas horas, partindo em seguida para Montero, rumo a Santa Cruz de La Sierra”, diz José Armando. Depois de muitos quilômetros, finalmente, os aventureiros puderam encontrar um supermercado com padaria, onde eram vendidos produtos de boa qualidade. Lancharam, se abasteceram com vários produtos e foram para Santa Cruz.

“Viajamos numa rodovia de concreto, de alta qualidade, financiada com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, no entanto, não podíamos comprar combustível lá, por sermos estrangeiros”, indignou-se José Armando. Num dos postos que pararam para abastecer, houve um problema: apareceram três policiais bolivianos que abordaram o grupo. O chefe deles disse que a compra clandestina de combustível era punida com prisão, na Bolívia, já que a gasolina era subsidiada pelo governo federal. Ao argumentar, José Armando disse ao policial que não havia conseguido comprar em todo o território boliviano um só litro de combustível de forma legalizada, já que se recusavam a vender o produto a estrangeiros. Após falar com seu comandante (por rádio), o chefe dos policiais liberou o grupo.

Um pouco antes de Porto Soares, ao lado de Corumbá, José Armando gelou ao saber que a fronteira fecharia às 18h30. Eram 17h30min. Pisaram fundo para chegar à fronteira antes do fechamento, mas não conseguiram. Pior de tudo: o combustível acabou dentro da cidade de Porto Soares. Mesmo com a aduana fechada, o grupo tentou a sorte na imigração. Conseguiu graças a uma mentira contada pelo médico. Para chegarem a Corumbá, para pernoitar, tiveram que tirar combustível de uma das motos. No dia seguinte, teriam de voltar à aduana e à imigração para legalizar a saída da Bolívia e a entrada no Brasil. E assim foi feito.

Com exceção da região de Santa Cruz de La Sierra, o grupo não conseguiu acesso à internet, ao serviço de celular e WhatsApp em nenhuma outra parte da Bolívia. “Mesmo tendo home internacional, ficamos incomunicáveis na maior parte da Bolívia”, contou José Armando. Indignados com a situação vivida na Bolívia, os aventureiros decidiram gastar todos os bolivianos que ainda tinham em mãos numa feira na cidade de Porto Aguirre. O grupo pernoitou em Miranda e de lá seguiu para Campo Grande, onde José Armando foi visitar uma prima. Depois, André seguiu para Brasília e José Armando para Araçatuba, onde visitou outro primo–irmão. De lá, veio para Passos, chegando aqui no dia 25 de setembro à noite.

Dicas de quem foi

Entretanto, mal chegou a Passos e o médico já está pensando em fazer a Rota 66, nos Estados Unidos, ou viajar de moto pelo Leste Europeu. Outro roteiro que o atrai é ir ao Alasca. De moto. “O que vamos encontrar por lá (Rota 66 ou Leste Europeu) é “fichinha” perto do que encontramos na América do Sul”, diz José Armando.

Ele disse que só conseguiu fazer viagem tão longa porque se preparou para isso. “Existe loucura e existe aventura. Fizemos uma aventura, pois planejamos nossa viagem, embora com alguns pequenos imprevistos. Nossa preocupação era o tempo todo manter a nossa integridade física e mental”, observou o médico.

Para quem quer empreender viagem tão longa, ele faz algumas recomendações: preparar-se fisicamente (entrar em forma) para enfrentar condições adversas; fazer exames para verificar as condições físico–clínicas; amaciar bem botas e roupas antes da viagem, para que ganhem flexibilidade; levar sempre mangueiras para sucção de combustível; levar gorro, cachecol e luvas para enfrentar o frio; instalar manoplas na moto, que protejam contra o frio; instalar um banco confortável na moto para não se cansar na viagem; “e muita fé no seu sonho, pois o que mais encontrei foram conselhos contrários”.

José Armando e André usaram, na camiseta, duas frases que resumem bem o espírito de aventura da dupla. A primeira é de Amir Klink – o velejador brasileiro: “Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir, porque o mundo é pequeno demais pra se nascer e morrer num mesmo lugar”; a outra frase é do próprio José Armando Righetto: “Enquanto houver sonhos, não existirão fronteiras”.

Essa viagem será uma das histórias que o médico está passando para o papel, cuja obra tem como título provisório “Super-Ação”.

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