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Abril de 2014

Mercado sofre com Desqualificação de mão de obra

Mais de 60% das empresas brasileiras não conseguem suprir sua demanda por trabalhadores capacitados; empresas e trabalhadores desinteressados em qualificação dificultam ainda mais o mercado de trabalho, segundo especialistas.

O sindicalista Joaquim Júlio de Almeida cobra responsabilidades dos governantes em relação à qualificação da mão de obra no Brasil.
O sindicalista Joaquim Júlio de Almeida cobra responsabilidades dos governantes em relação à qualificação da mão de obra no Brasil.

“Temos empresas procurando mão de obra qualificada e temos pessoas sem emprego.”
Wêsley Andrade.

Em 2011, na primeira reunião de um grupo criado pelo governo federal para enfrentar a crise econômica mundial – o Grupo de Avanço da Competitividade (GAC) –, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que havia escassez de mão de obra qualificada no Brasil, o que seria um dos entraves para o crescimento do país. Dois anos depois da declaração do ministro, um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que mais de 60% das empresas de grande, médio e pequeno porte enfrentavam problemas para contratar trabalhadores capacitados para alguma função, da mais básica até em nível gerencial. De acordo com especialistas, a realidade em Passos não é diferente da média nacional, em que há oferta de postos de trabalho para profissionais qualificados e, ao mesmo tempo, pessoas desempregadas justamente por falta de preparo.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e Mobiliário de Passos e Região (Sindiconstro), Joaquim Júlio de Almeida, que representa seis mil pessoas em nove municípios, diz que é difícil encontrar hoje em dia bons pedreiros, encanadores e eletricistas, por exemplo. “Já estão escassos. Só restam pessoas mais velhas, por causa da falta de formação de mão de obra”, afirma.

“Temos empresas procurando mão de obra qualificada e temos pessoas sem emprego. É uma incongruência, mas isto se deve a um despreparo da mão de obra em todos os aspectos. Nosso país está crescendo, as empresas aumentando sua competitividade, e muitas vezes a mão de obra não se qualifica como deveria”, analisa o professor e mestre Wêsley Andrade, coordenador da Faculdade de Administração da Fundação de Ensino Superior de Passos (Fesp) e diretor de uma empresa de educação e contabilidade.

Segundo Wêsley, a deficiência de qualificação do trabalhador em Passos é um fato que merece uma reflexão do empregador. “Acredito que os empresários falham em não dar a atenção necessária para a formação dos seus colaboradores, e isto se deve à seguinte situação, que é um antigo dilema: Eu treino meu pessoal e quando este está bem qualificado os perco para o mercado ou até mesmo para meus concorrentes”, explica o professor, que defende o investimento em capacitação para garantir um produto ou serviço de qualidade para o cliente. “É melhor treinarmos nossa mão de obra e termos um serviço de alta qualidade, mesmo correndo o risco de perder esse funcionário, ou não qualificarmos e oferecermos um serviço de qualquer forma?”, indaga.

MAU APROVEITAMENTO

Outro fator que afeta o bom desempenho das atividades econômicas é o mau aproveitamento dos funcionários, muitas vezes colocados em funções erradas, embora tenham qualificação para outra área.

O analista técnico e consultor de Rh do Sebrae Márcio Lopes de Oliveira diz que em muitos casos o trabalhador está na função errada.
O analista técnico e consultor de Rh do Sebrae Márcio Lopes de Oliveira diz que em muitos casos o trabalhador está na função errada.

O analista técnico do Sebrae-MG (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais), consultor e professor em cursos de capacitação, Márcio Lopes de Oliveira, conta que em seu trabalho costuma se deparar com esse tipo de situação: o direcionamento de profissionais talentosos para atividades que não precisariam ser feitas, que não agregam valor ao cliente ou ao negócio, e a alocação de profissionais com qualificação acima ou abaixo das necessárias para desempenhar funções que realmente devem ser feitas. “Atividades que poderiam eventualmente ser executadas por um dos 1,5 milhão de desempregados que temos no mercado e que, muitas vezes, erroneamente rotulamos de sem qualificação, mas que na verdade parte deles tem qualificação para outras atividades”, defende Márcio de Oliveira.

Ainda conforme o analista do Sebrae, a criação de cargos cada vez mais específicos, o uso de equipamentos ultramodernos e a globalização dos negócios intensificaram o problema de mão de obra nas empresas. As vagas mais difíceis de serem preenchidas no mercado nacional são as de compradores, técnicos, administradores, gerente de projetos e trabalhador manual. Para Márcio de Oliveira, alguns empresários erram em não adotar um treinamento qualificado para seus empregados, pois estariam sendo mesquinhos em acreditar que ao preparar um funcionário poderá perdê-lo para o mercado de trabalho. Quem pensa assim sempre vai ter funcionários de menor nível na empresa.

Entretanto, esse empresário sequer imagina que, mesmo de maneira prática e sem uma metodologia adequada, acaba ele mesmo treinando seu funcionário, ensinando-lhe tarefas e atividades para serem executadas de maneira eficiente e eficaz. Por outro lado, mesmo quando a empresa oferece a capacitação, esta é promovida para depois do horário de trabalho, provocando desmotivação no trabalhador, que teria de sacrificar algumas horas do descanso pelo patrão.

CAPACITAÇÃO É INVESTIMENTO

Para o analista do Sebrae, o empregador que pensa ou age dessa forma equivocada precisa compreender que o custo com o funcionário qualificado é, no fundo, um investimento na própria empresa. “Temos que encarar nossos funcionários como parte do capital da nossa empresa, proporcionando a eles uma remuneração desafiadora, focada em números variáveis, que passam a ser carimbados segundo fatores como habilidade, produtividade e comportamento. Dentro desses três pilares levamos nossos funcionários à busca do desenvolvimento focado nesta remuneração, proporcionando às empresas um rendimento almejado”, orienta.

A lição do professor e mestre em Administração de Empresas Wêsley Andrade é para que o trabalhador conheça melhor a economia do país e busque qualificação.
A lição do professor e mestre em Administração de Empresas Wêsley Andrade é para que o trabalhador conheça melhor a economia do país e busque qualificação.

Wêsley Andrade explica que a falta de treinamento e de qualificação são as deficiências encontradas no trabalhador, mas há situação pior ainda: muitas vezes a pessoa sequer percebe que precisa de melhor formação para o mercado de trabalho. “Trabalhadores, procurem saber qual setor da economia está em crescimento e se qualifiquem para buscar uma boa colocação nesse setor”, recomenda. O sindicalista Joaquim Júlio de Almeida concorda que é comum o desinteresse do trabalhador em se qualificar, mesmo quando surge alguma oferta de cursos, e por parte das empresas estas também não estariam muito preocupadas com a qualificação de sua mão de obra. “Nós já reivindicamos que as empresas com mais de 50 funcionários promovam cursos de qualificação. A gente não teria tanta falta de mão de obra especializada”, disse, afirmando ser da responsabilidade dos governantes a ampliação de escolas técnicas para atender a demanda do mercado de trabalho de cada região.

CONSULTORIA E TREINAMENTO PARA ENFRETAR A CONCORRÊNCIA

O que leva uma empresa ou um profissional ao sucesso enquanto outro, igualmente capaz, fica para trás? A essa pergunta o consultor técnico de recursos humanos, Francisco Antônio Lopes, responde que, de uma maneira mais simplificada, a capacidade e o amor ao aprendizado são a diferença: “As empresas que usam consultorias e treinamentos ‘aprendem’ melhor e mais rapidamente que seus concorrentes. Descobrem meios de criar as habilidades que o sucesso exige e colocam-se em prática mais depressa que seus concorrentes”.

Junto com sua mulher, a psicóloga Natália Souza Borges Lopes, Francisco é um dos pioneiros na área de treinamento e seleção de pessoal para empresas em Passos e região. Empreendedores que investiram na qualificação de seus empregados se destacaram e continuam se destacando entre os mais produtivos e rentáveis na economia regional, segundo observa o consultor.

Mas o simples treinamento não é suficiente se não for aplicado adequadamente, de acordo com as condições reais da empresa. Outro problema é quando o programa de treinamento não é levado até o fim, implicando em resultados insatisfatórios. “O treinamento dá melhores resultados quando a pessoa está seriamente interessada no conteúdo do curso e disposta a pôr em prática o que aprender. Quando o curso proporciona informações necessárias para a sobrevivência profissional, o treinamento pode ser mais valioso ainda”, afirma Francisco Lopes.

MOTIVAÇÃO DO TRABALHADOR

Os melhores resultados, no entanto, são obtidos quando o trabalhador é motivado pela empresa, que busca aproveitar sua experiência e capacitá-lo para as novas demandas da produção. Segundo o consultor, quando não há motivação as pessoas costumam resistir ao treinamento, dificultando ou até abortando sua implantação. Isso se deve à crença de alguns de que um curso não passa de perda de tempo e uma forma de atrasar o serviço. “Se as pessoas não tiverem algo motivador para aprender, o ceticismo muitas vezes bloqueia a capacidade de ouvir. Você pode fazê-las assistir o curso, mas não pode fazer com que aprendam”, explica.

A psicóloga Natália Souza Borges Lopes aplica testes para identi car aptidões e habilidades: “Todos temos valor que provavelmente será reconhecido numa outra situação”.
A psicóloga Natália Souza Borges Lopes aplica testes para identificar aptidões e habilidades: “Todos temos valor que provavelmente será reconhecido numa outra situação”.

Natália Lopes atua na área de avaliação de candidatos a emprego, por meio do psicodiagnóstico, que é um recurso bastante usado por psicólogos da área empresarial para subsidiá-los no processo de identificação do potencial, competência e habilidades do candidato e a sua adequação ao contexto profissional onde ele pretende se inserir. Segundo ela, Passos tem mão de obra com boas habilidades, mas sem a qualificação necessária, pois carece de escolas técnicas condizentes com as reais necessidades das empresas. Ou seja, faltam cursos para a formação de trabalhadores capacitados para as atividades econômicas locais. “Quantas vezes trabalhando em parceria com grandes empregadores tivemos que buscar profissionais em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, pois não havia profissional capacitado para exercer a função colocada como vaga pelas empresas”, recorda.

TESTES VOCACIONAIS

O trabalho de Natália consiste na avaliação psicológica do candidato ao emprego, por meio da aplicação de testes pelos quais se conclui a qualificação da pessoa para aquela função. Esses testes também são importantes para o próprio trabalhador saber se ele está buscando colocação na área em que sua habilidade e aptidão seriam bem aproveitadas. “A avaliação não exclui e nem rotula, apenas busca selecionar alguém com mais aptidão para aquele processo em vigência. Assim, esclarecemos que todos temos valor, que provavelmente será reconhecido numa outra situação e que talvez o candidato ora selecionado não seria o escolhido”, justifica. Em todo caso, seria bom que o trabalhador investisse também em sua própria formação profissional, a começar pela identificação da área para a qual está mais apto.

Segundo Natália Lopes, a globalização da economia exige muito mais dos profissionais que buscam trabalho e alguém tem que pensar e refletir sobre a questão do custobenefício para se formar uma nova geração de pessoas que apenas cursaram a escola clássica vigente e, quando saem à procura de emprego, não têm capacitação para exercer uma função qualificada. “Então afirmo, temos um povo valoroso, pessoas com mente globalizada, mas com pouco preparo quanto às exigências do novo mercado de trabalho”, disse. Aos empresários, Francisco Lopes ensina: “Treinar, treinar, aplicar à realidade das empresas, teoria e prática, é o caminho viável para seguir adiante. Precisamos superar as barreiras diante das boas intenções e pouca persistência. É sair do sofá e andar, é isso que vai diferenciá-lo dos outros”.

Enio Modesto

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