Em Foco

Voc está em: Home, Em Foco, Cada história tem sua história

Fevereiro de 2015

Cada história tem sua história

por Marco Túlio Costa

Imaginem uma mesa de bilhar com as bolas coloridas já espalhadas, algumas dentro das caçapas. Um jogador solitário está com um taco na mão. Alguém chega e lhe pergunta: ‘Como foi que estas bolas se acomodaram exatamente nestas posições?’ Agora, imaginem um leitor fazendo a seguinte pergunta a um escritor: ‘Como foi que você teve a ideia de escrever este livro?’

O jogo tem início com a bola branca projetada em direção às demais, ajuntadas em forma de triângulo, no lado oposto da mesa. Um choque e espalham-se aleatoriamente, batem e rebatem em tabelas, umas nas outras, aquietam-se ou precipitam- -se nas caçapas. Explicar a história de uma história é como dizer a um curioso, à beira de uma mesa de bilhar, a disposição das bolas pelo meio do jogo.

Capa do livro ‘O PALHAÇO ESTÁ EM GREVE’, que faz alegoria da realidade brasileira por meio do Palhaço Risolito, último livro lançado pela Editora Record (RJ), em novembro passado.
Capa do livro ‘O PALHAÇO ESTÁ EM GREVE’, que faz alegoria da realidade brasileira por meio do Palhaço Risolito, último livro lançado pela Editora Record (RJ), em novembro passado.

Bolas, dirão os entendidos de Física e os versados em Trigonometria, transferem energia umas às outras e, dependendo dos ângulos de choque, vão por essa ou aquela direção. Também as ideias são assim, acreditem. Vamos chamar esses choques, bruscos ou sutis, de conexões do saber. Então, é fato que as bolas do jogo da criação estejam dispostas na mente do escritor muito tempo antes da tacada inicial.

São aqueles livros lidos desde a infância, também os tapas na bunda, são as conversas interessantes ou piadas infames, personagens peculiares ou máscaras da mesmice. Para cada olhar que o escritor lança para o mundo, coloca no jogo de sua mente uma bola que poderá entrar em uma partida. As bolas são aquilo que conhecemos, o que está na nossa consciência e no nosso inconsciente.

Cada escritor tem seu jeito de trabalhar. O que falo não é uma regra, é meu jeito. Por exemplo, não me basta ouvir um caso para me sentir impelido a escrever a história. Talvez ele se torne a motivação, a bola branca, ou só um detalhe no texto. Dou um exemplo: certa vez, eu participava de um grupinho que conversava sobre os tempos em que era comum, no fundo do quintal das casas, existir um chiqueirinho. Ali se punham um ou dois leitões e pelo fim do ano os porcos eram abatidos. Por questões sanitárias, essa prática foi banida. Alguém entrou na conversa e disse que ele, naquele tempo, criava porcos no terraço da casa! Coisa espantosa, não é? Eu imaginei como seria morar em uma casa que tinha um chiqueiro sobre a laje. A pessoa me garantiu que não havia problema de cheiro, de moscas, que era tudo muito higiênico.

Na minha cabeça, o que ficou disso tudo não foi aquela curiosa crônica urbana, mas um título instigante: ‘Porcos no Terraço’. Essa bola branca, impulsionada pelo taco (que é a pergunta inicial que sempre faço: que significado isto pode ter?) – deflagrou o processo de bate e rebate, produziu as conexões entre os meus conhecimentos, inclusive inconscientes. Entraram em jogo leituras como ‘A República’ (Platão), ‘Utopia’ (Thomas Morus), ‘A revolução dos bichos’ (George Orwell), ‘Viagens de Gulliver’ (Jonathan Swift), as ‘Viagens de Marco Polo’, outras ouvidas na infância, como ‘Os três porquinhos’, provavelmente algum cardápio, ou livro de receitas.

Minha mente foi buscar experiências e sensações da infância. Lembrei-me da fazenda de um tio, na zona rural de Pains, quando escalávamos uma montanha de abóboras que ficava ao lado do chiqueiro, e lá de cima atirávamos aquelas bombas para explodir no piso de pedras do chiqueiro, exalando seu doce cheiro, que atraía os capados enormes. Há alguns anos, fiz um trabalho de assessoria na Coperpassos. É certo que as entrevistas com técnicos e criadores forneceram muitas conexões à elaboração do livro. Enfim, tudo isso está presente nesse intricado jogo de bate e rebate.

Temos, então, a história de porcos que habitam uma península, ligada ao continente por um estreito istmo. São quatro varas ocupando territórios distintos. Os porcos são contidos à saída do istmo por um portão de ferro que ostenta a figura de um terrível predador. Ai de quem ousar sair para o continente! Diz sua crença que eles, os porcos, foram criados por deuses para servirem de alimento. Mas os deuses se foram do mundo há muito tempo. Quatro jovens porcos universitários se perguntam se no continente não os esperam as respostas para todas as suas dúvidas. Em busca desse conhecimento os aventureiros atravessam aquela barreira em direção ao desconhecido e dão início a uma profunda mudança na península.

Não vou contar a trajetória de todas as bolas que rolaram. Fica para quando o livro for publicado, quem sabe.

Marco Túlio Costa.

Marco Túlio Costa nasceu em Formiga, MG, em 1955. Rabiscou sua primeira história ainda menino, em torno de 9 anos, quando ganhou um tabuleiro de xadrez - “Pedrinho em Xadrezópolis”, uma fantástica aventura dentro de um tabuleiro de xadrez. Depois disso não parou mais. Descobriu que escrever era tão divertido quanto muitas outras brincadeiras de infância. 

Estreou na literatura infanto-juvenil com O MÁGICO DESINVENTOR, muito bem recebido pelo público e pela crítica especializada. Foi premiado em diversos concursos literários sendo um dos prêmios (o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro), um dos mais importantes do país, concedido em 2004, na categoria infanto-juvenil por Fábulas do Amor Distante.

Publicou contos em jornais e revistas, bem como diversos livros publicados por renomadas editoras brasileiras classificados para o público infanto-juvenil, porém apreciados por idades variadas. Foi merecedor de muitas menções honrosas e especiais e prêmios em concursos, festivais e feiras literárias dentro e fora do Brasil.

OS LIVROS PUBLICADOS DE MARCO TÚLIO COSTA

O MÁGICO DESINVENTOR, 1982, Rio de Janeiro - 21ª Edição em 2001. Prêmio Jabuti de Literatura, da Câmara Brasileira do Livro, categoria Infantil ou Juvenil, em 2004.

Edição em Espanhol, 1996, pela Fondo de Cultura Economico, México, ATUALMENTE NA 8ª EDIÇÃO.

O LADRÃO DE PALAVRAS, 1983, Editora Record, Rio de Janeiro, selo de "Altamente Recomendável", da FNLIJ.

AVENTURA DOS FILHOS NA BARRIGA DA NOITE, 1984, Editora Record, Rio de Janeiro.

O CANTO DA AVE MALDITA, 1986 - incluído no projeto "Viagem da Leitura"- Fundação Roberto Marinho/Ripasa/INL.

O PASTOR DE NUVENS, 1985

A FADA ENFADADA, 1987, Editora FTD, SP

TATÁ E DÓ-RÉ-MI-FÁ NO REINO DO CALAJÁ, 1989, Editora FTD, SP.

A OVELHA BLUE JEANS, 1990, Rio de Janeiro, incluído na listagem da FAE, 1997.

AS LEVES ASAS DO RINOCERONTE,1992

A AURORA CHEGOU NA HORA, 1993, Editora Record, Rio de Janeiro, incluído na listagem da FAE (Fundação de Assistência ao Estudante/MEC), 1997.

HISTÓRIAS À FLOR DA PELE, 1997, Editora FTD, SP.

O GATO QUE FALAVA SIAMÊS, 2001, Editora Record - livro finalista ao "Prêmio Jabuti 2002".

O REI QUE RIA, 1999, Editora Formato, Belo Horizonte. Livro incluído no PNLD2001/FNDE/MEC/ Programa Escola de Cara Nova da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo.

FÁBULAS DO AMOR DISTANTE, 2003, Editora Record – livro finalista ao “Prêmio Jabuti 2004”, incluído no Acervo Básico da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil/2003.

MÁGICA PARA CEGOS, 2011, Editora Saraiva.

A ÁRVORE DO MEDO, 2011, Editora Formato, SP – “Prêmio Fundação Biblioteca Nacional” – 2012.

SEQUESTRO NO CIBERMUNDO, 2012, FTD, SP – finalista Prêmio Jabuti 2013.

O TRIÂNGULO DAS MÁS INTENÇÕES, 2012, Ozé, SP.

O ESCANDALOSO TEATRO DAS VIRTUDES, 2013, Editora Saraiva, SP –finalista Prêmio Jabuti 2014.

O PALHAÇO ESTÁ EM GREVE, 2014, Editora Record, Rio de Janeiro.

Participação em Antologias

UM PRAZER IMENSO, Contos Eróticos Masculinos, 1986, org. Jeferson de Andrade, Editora Record, Rio de Janeiro.

HISTÓRIAS MINEIRAS, Afonso Arinos (et al.), 1984, Editora Atica, São Paulo

MENINOS EU CONTO, Rachel de Queiroz (et al.), 2002, Editora Record, Rio de Janeiro.

Principais prêmios literários

Prêmio Jabuti de Literatura, da Câmara Brasileira do Livro, categoria Infantil ou Juvenil, em 2004.
Prêmio Brasília de Literatura (1991);
"Prêmio Cruz e Souza" (Santa Catarina, 1996), "João de Barro", 1999; e "Prêmio Alfredo Machado Quintela (1985), da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil" (Rio de Janeiro).

II Festival de Arte de Itabira - MG - 1972 - 1º lugar contos
Fernando Chinaglia - UBE - Rio de Janeiro - Menção Honrosa, livro de contos "Por quem as esquinas dobram"- inédito - 1973; Menção Especial para livro de Contos "Aventura dos Filhos na Barriga da Noite", 1981; Menção Especial para o livro inédito "O Enxugador de Gelo, 1982.
I Concurso de Poesias - 1975 - Universidade de Brasília - 1º lugar
II Concurso Nacional de Contos e de Poesias Augusto Motta - SUAM - Rio de janeiro - 2º lugar - 1976
Universidade Federal do Espírito Santo - Concurso de Contos - 2º lugar - 1978
XII Concurso Literário de Paranavaí - PR, 3º lugar contos, 1980.

Referências bibliográficas a seu nome

Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil, de Nelly Novaes Coelho, Editora Quiron/USP;
"Literatura infanto-juvenil, um gênero polêmico", editora Mercado Aberto, Rio Grande do Sul, uma coletânea de Sonia Salomão Khéde, em artigo do crítico literário Antônio Hohlfeldt.

Enio Modesto 

© Copyright 2013 Foco Magazine

by Mediaplus