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Outubro de 2015

O que fica depois da escola

Na Uberlândia de antigamente - nos anos 60 do século passado -, no meu longínquo curso ginasial (hoje, Fundamental II), era véspera da prova de Geografia e um dos pontos exigidos era a bacia do Rio Amazonas. Lembro-me ainda de alguns afluentes da margem direita deste que é um dos maiores rios do planeta: Javari, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu; da margem esquerda: Içá, Japurá, Negro, Jari e Trombetas. Isso nunca me serviu pra nada - cultura inútil - mas, com isso, faturavam-se alguns pontinhos naquelas extensas avaliações.

Latim... Sim, estudávamos Latim! Intermináveis declinações, mas ali estava a raiz de quase todas as línguas: Português, Espanhol, Francês, Italiano e também Inglês (de fato, cerca de 70% das palavras do Inglês têm origem latina). Ablativo, genitivo...
Já não me lembro de quase nada sobre isso.
 
Já no científico (hoje, Ensino Médio), guardo engraçadas memórias das aulas de Trigonometria. O professor, acreditem, já naquela época, esforçava-se com recursos mnemônicos que nos permitissem decorar a fórmula do seno da soma de dois ângulos: “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá... Seno A, cosseno B, mais, seno B, cosseno A.”(sic)
 
Em Óptica, o velho mestre repetia uma piada antiga que utilizo ainda hoje em minhas aulas: “Pessoal, míope não pode ir ao zoológico, porque ele usa lente divergente e, nesse ambiente de animais, ele precisaria de lente de ver bicho”. (Horrível, não?)
Cantávamos pelo menos uma vez por semana - geralmente às segundas- feiras - o Hino Nacional. Termos esquisitos como impávido colosso e lábaro, eternizados por Joaquim Osório Duque Estrada, soavam-me estranhos, mas eu cantava aquilo a plenos pulmões, pois aquela melodia invadia meu coração infante, como se me abduzisse para algo muito maior. Meu país; minha pátria - o Brasil.
 
E foram muitas e muitas coisas que já não me lembro mais, aprendidas na marra e decoradas na calada das tensas noites de véspera dos exames, cujas correções não levavam em conta nenhum tipo de contemplação ou apelo.
 
Mas, nunca morri por causa disso, tampouco fugi do meu destino de futuro universitário e profissional da área de Educação. Sou professor.
 
Prof. Helou Doca:
Prof. Helou Doca: "A postura do professor em sala de aula vai muito além dos conteúdos das disciplinas que lecionamos."
 
O que tenho absolutamente vivos em minhas recordações e em meu eterno coração de estudante é a firmeza que caracterizava o Prof. Layrton (Química), a elegância da Prof(a). Sônia (História), a solidez do conhecimento da Prof. Yone (Matemática) e a delicadeza didático-acolhedora do Prof. Andraus (Física).
 
A postura impecável desse pessoal, as qualidades humanas e paradigmas a mim transmitidos, fizeram-me certamente um ser humano melhor. Obrigado, pois, queridos grandes mestres.
 
Hoje, refletindo sobre o legado do professor, dou conta da imensa responsabilidade que temos ao influenciar pessoas. O que deixamos para nossos alunos não são os conteúdos das disciplinas que lecionamos - regras, teoremas, fórmulas e esquemas que, porventura, são requisitados em provas e no vestibular. O que realmente fica é o nosso testemunho de vida e nossas atitudes diante das coisas que nos envolvem a todos– indivíduos e sociedade.
 
"Hoje, refletindo sobre o legado do professor, dou conta da imensa responsabilidade que temos ao influenciar pessoas."
 
Além da matéria do dia a dia, da programação de cada mês, devemos sempre contextualizar o saber que professamos, abrangendo os problemas que afligem às pessoas, nosso país e o mundo. De forma ética, sem fazer proselitismo e sem nos deixarmos seduzir por proposições ideológicas, partidárias ou religiosas, temos obrigação de abordar as questões sociais e humanísticas de maneira isenta, porém eloquente, qualquer que seja a disciplina sob a nossa responsabilidade. Afinal, é isso que vai permitir que deixemos um traço indelével na alma de cada estudante, eternizando-nos na memória daqueles que passaram por nossas classes.
 
Se conseguirmos dentro do nosso espaço de mestres-escolas modificarmos comportamentos e marcarmos para sempre o destino de nossos alunos, terá valido a pena. Aproximamo-nos da verdadeira acepção do conceito de EDUCAÇÃO.
 
Termino com um pensamento do físico alemão, Albert Einstein, que considero também um notável filósofo e grande humanista do Século XX:
 
"Educação é o que fica depois que não lembramos mais o que se aprendeu na escola."
 
por Prof. Ricardo Helou Doca

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