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Novembro de 2015

Descaso com as abelhas: Ameaça à humanidade

Descaso com as abelhas: Ameaça à humanidade!

Quando a humanidade apresentou o primeiro lampejo de consciência de que dependia do meio ambiente, e conseguiu vislumbrar os primeiros modelos de sociedade, as plantas e os insetos já estavam há muito tempo coexistindo, numa sintonia incrivelmente regida por leis naturais harmônicas e profundamente concatenadas entre si. O que ainda não podia a natureza prever, era o que aconteceria em seguida, quando os homens e os demais seres vivos começassem a interagir. Mas a natureza, como uma professora dedicada, não cansa de nos ensinar, mesmo tendo a humanidade como um amontoado de alunos relapsos e imediatistas.

Desde os tempos de Aristóteles (348-322 a.C.), até os nossos dias, inúmeros trabalhos têm sido realizados, com o intuito de esclarecer cada vez mais a biologia, o comportamento e a ecologia das abelhas. E, ainda que até o momento tenham passado despercebidas na sua vida, elas são responsáveis pela produção da maior parte dos alimentos que consumimos. Ou seja, somos dependentes de um importante serviço ambiental prestado por este inseto: a polinização. Dia após dia, entretanto, temos contribuído para o seu desaparecimento do planeta. 
 
No início, na tentativa de se estabelecer em sociedade, o homem criou sistemas sociais, cujo processo evolutivo se traduziu em incessante busca por ajustes, na medida em que a população humana aumentava, até desembocarmos no modelo atual: a ditadura de consumo inconsequente.
 
Ocorre que, a partir da Revolução Industrial, a população mundial aumentou numa velocidade estonteante, a ponto de hoje haver um acréscimo de, aproximadamente, um bilhão de pessoas por década (entre 2000 e 2010, a população mundial passou de 6 para 7 bilhões), o que significa mais demanda por alimento, moradia, áreas para plantio, dentre outros processos decorrentes da necessidade humana em se estabelecer. Isto refletiu, em última análise, na expansão de imensas áreas cada vez mais devastadas. Não bastasse isto, durante a Segunda Guerra Mundial, na Alemanha, foi sintetizado o primeiro inseticida à base de Organoclorados, o DDT, que naquele momento se apresentava como o produto que, literalmente, salvaria a lavoura de toda gama de insetos pragas que pudessem se aproximar das áreas de cultivo.
 

 

"Quando as abelhas desaparecerem da face da Terra, o homem terá apenas quatro anos de vida." (Albert Einstein)
 
A monocultura mostrou, desde o início, o grande erro envolto na crença de que os agrotóxicos pudessem, de fato, exterminar as pragas. Ao invés disso, o que de fato ocorreu foi a necessidade cada vez mais crescente por tais produtos, que por sua vez, matava os insetos indesejáveis e os seus inimigos naturais, cujo objetivo é a regulação natural destas populações. Isto, obviamente levou o homem a buscar por produtos cada vez mais poderosos e, consequentemente, mais devastadores, comprometendo não só o equilíbrio entre pragas e insetos parasitoides, mas também a saúde humana e a do meio ambiente.
 
 O que não fomos capazes de perceber é que a natureza é sábia, mantém os seres vivos em uma intrincada teia alimentar, de forma a tornar os seres vivos interdependentes entre si, ou seja, na falta de qualquer um dos elos - os insetos, por exemplo, rompe-se o equilíbrio dinâmico, comprometendo a sustentação da vida no planeta.
 
Há, inclusive uma célebre frase atribuída a Albert Einstein que sentencia: “Quando as abelhas desaparecerem da face da Terra, o homem terá apenas quatro anos de vida”. A frase pode parecer exagerada, mas quem conhece este inseto sabe que ele é o grande responsável pela polinização de grande número de plantas comercialmente importantes para a alimentação humana. 
 
Durante as suas visitas às flores, estes insetos transferem o pólen de uma para outra, promovendo a chamada polinização cruzada – os grãos de pólen caem e atingem o estigma, o elemento feminino da flor, provocando a sua fecundação – e é nesse momento que ocorre a troca de gametas entre as plantas. 
 
Uma boa polinização garante a variabilidade genética dos vegetais e a formação de bons frutos. Portanto, a presença das abelhas é decisiva na manutenção do equilíbrio ambiental e na manutenção da raça humana no planeta. O serviço ambiental que prestam à natureza é de valor inestimável.
 
Falando especificamente da espécie Apismellifera, uma espécie que há muito nos abastece com seu mel, até 1956, através de duas raças até então existentes no Brasil, Apismelliferaligustica e Apismelliferamellifera, eram reconhecidamente dóceis. Tais abelhas, conhecidas como abelhas europeias, eram muito dóceis e por isto mantidas em pequenas colmeias que supriam a necessidade familiar, podendo estar, inclusive, nos fundos do quintal de uma residência, sem oferecer maiores perigos. 
 
Descaso com as abelhas: Ameaça a humanidade
 

 

Porém, a partir de 1956, após a introdução da abelha africana no Brasil, Apismelliferascutellata, e a sua consequente propagação pelo país, temos a abelha africanizada – um híbrido originário dos sucessivos acasalamentos entre elas. Este episódio poderia ter se transformado numa grande catástrofe, não fosse a incrível capacidade destas abelhas em aumentar sua produção de mel, o que rapidamente elevou o Brasil para patamares consideráveis no ranking mundial, apesar de sua expressiva agressividade, o que na época gerou inúmeros transtornos. Outros produtos gerados por este inseto são: geleia real, própolis, cera e até mesmo o veneno, que tem sido indicado para tratamento de algumas doenças reumáticas.
 
Desde 2006, entretanto, o mundo tem assistido ao crescente desaparecimento destas abelhas, levando cientistas, pesquisadores e estudiosos da área a buscar, ininterruptamente, as causas desse desaparecimento em massa e a forma de impedir sua continuidade. Tal situação tem sido caracterizada como “Distúrbio do Colapso das abelhas” (Colony Collapse Disorder, CCD, em inglês) e tem afetado abelhas em vários países. Até o momento não há nenhum fator que, isoladamente, possa ser apontado como o causador dessa situação, mas a combinação de uma série deles. Uma das situações que as tem fragilizado é a grande quantidade de microorganismos, tais como ácaros, fungos e vírus que, se aproveitando da fragilidade de alguns membros da colmeia, principalmente graças a quantidade absurda de agrotóxicos que, anualmente, são lançados no meio ambiente, se infiltram e acabam por minar uma população inteira. 
 
"...principalmente graças a quantidade absurda de agrotóxicos que, anualmente, são lançados no meio ambiente, se infiltram e acabam por minar uma população inteira."
 
Mas não é só isto, pelo menos não é isto o mais grave. Por serem responsáveis pela polinização de culturas comerciais diretamente associadas ao consumo humano tais como laranja, goiaba, abacate, ou indiretamente associadas como as gramíneas com as quais o gado se alimenta, e que garantirá a ele a produção de carne e leite de qualidade, o contato destes organismos com substâncias tóxicas despejadas nestas áreas, é inevitável. E é aí que entra a mais cotada das causas para o sumiço destes imprescindíveis insetos: os neonicotinoides, substância derivada da nicotina, infelizmente hoje usada em larga escala em inúmeros plantios comerciais e que comprovadamente interferem no sistema nervoso dos insetos. Trata-se de uma substância neurotóxica que, dentre outros males, atua na neurofisiologia dos insetos, causando efeitos subletais como a perda de memória e de orientação, considerando que as abelhas são conhecidas por sua grande capacidade de se orientar podendo, inclusive, percorrer longas distâncias em busca de flores que possam suprir a necessidade da colônia, tanto de néctar, quanto de pólen.
 
Descaso com as abelhas: Ameaça a humanidade

Diante deste quadro, é possível concluir que estamos diante de um grande dilema: ou começamos a mudar nossa atitude em relação ao meio ambiente hoje, ou estaremos fadados ao desaparecimento em um tempo muito mais curto do que supomos. Afinal, o homem é um ser totalmente dependente dos processos naturais para a sua manutenção na Terra. Se duvidar, lembre-se de somente duas fragilidades humanas que não temos como superar: o oxigênio que respiramos vem de plantas e algas, os únicos seres no planeta capazes de produzi-lo; a maioria dos alimentos que consumimos depende do serviço ambiental de insetos, no processo de polinização. 

 
Sônia Lúcia Modesto Zampieron e  João Vicente Zampieron:
Sônia Lúcia Modesto Zampieron e João Vicente Zampieron: "O fenômeno “Distúrbio do Colapso das Abelhas” (Colony Collapse Disorder, CCD, em inglês) tem afetado abelhas em vários países, e isso é preocupante."

 

 
 
 
A verdade é que, queiramos ou não, o homem foi o último viajante a embarcar na nave Terra, depende inteiramente da natureza para sua permanência.
 
A verdade é que, queiramos ou não, o homem foi o último viajante a embarcar na nave Terra, depende inteiramente da natureza para sua permanência e neste sentido, a ordem social até aqui estabelecida, do lucro pelo lucro, deverá sofrer mudanças em seus pilares de sustentação. E, se não tivermos a humildade necessária, o equilíbrio, a sensatez e o conhecimento para sentarmos e definirmos uma nova ordem social,  estaremos em rota de colisão diante de nossa própria extinção.
 
O próximo passo está por ser dado e o planeta espera pacientemente pelo nosso amadurecimento interior, para que possamos, de fato, integrar a grande teia que nos une: a vida. 
Caso contrário, quando o último homem deixar o planeta, este respirará aliviado, retomará seu curso e, desta vez, mais leve.

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