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Julho de 2016

Café com pão

 

 

Começavam os preparativos para a comemoração do Dia das Mães. Dona Lígia, a austera – e ao mesmo tempo meiga – professora do 4º Ano, combinou com a criançada como seria a homenagem com vistas ao segundo domingo de maio daquele ano que já ia longe: a classe seria dividida em dois grupos. O primeiro, mais afinado, faria o solo em falsete do Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa Lobos (Isso é mesmo muito bonito; requinte de delicadeza!). A outra turma, que incluía os menos enquadrados, faria a cadência que marcaria de forma monotônica a enternecedora melodia. Seria assim: em vozes sincronizadas, repetir-se-ia como um mantra café com pão, café com pão, café com pão...
 
Depois de exaustivos ensaios, a coisa – a princípio meio maluca – começou a dar liga. A melodia encaixou-se direitinho no ritmo, devidamente ajustado em intensidade às partes mais sublimes e exuberantes da peça musical. E o negócio fluiu como algo de elevação; quase angelical. Principalmente porque naquele som entrosado havia o timbre de vozes infantis, o que sempre sensibiliza mais.
 
Vitória de Dona Lígia, nossa saudosa professora de tudo; de todas as disciplinas e indisciplinas.
Sim, eu era daquela turma do 4º Ano e estava lá para homenagear Dona Isa, em especial. Fazia parte do time da percussão vocal e me tornei especialista nos compassos do café com pão.
No dia da apresentação – lembro-me bem – mamãe chorava, emocionada por ver seu primogênito enturmado e participando exultante de uma cantoria que beirava o nível profissional.
Isso para mim é algo indelével e ainda consigo ouvir em minhas lembranças aquelas doces notas e acordes do bravo Villa.
 
Talvez, por conta desse momento remoto, eu hoje passe e repasse inteiras as Bachianas Brasileiras desse brilhante compositor nacional, além de clássicos de outros ícones musicais.
A escola, sim, a escola...
 
Quantas marcas ela deixa em cada um de nós!
 
Hoje, como educador que me tornei e sou, advogo que os colégios devam incluir a todos – professores e alunos –, prospectando em cada profissional ou aprendiz suas melhores habilidades e talentos.
 
Vocações se revelam para partir mundo afora encantando e contribuindo para uma sociedade humana melhor.
 
Música, teatro, esportes, virtudes culinárias, ações de solidariedade e cidadania; contendas intelectuais, como olimpíadas... Tudo isso deve ser cogitado para uma verdadeira educação plural.
Além das matérias curriculares, cada ser humano deve ser trabalhado em outras competências que também irão compor seu todo. É dever da escola contemplar o indivíduo em sua integralidade, valorizando suas melhores potencialidades.
 

Naquela distante manhã festiva, espelhando-me nas lágrimas de minha mãe, admito-me convencido da primordial participação dos pais nesses contextos. Isso constitui um imenso incentivo aos filhos que, nas apresentações e eventos escolares, recebem uma superdose de segurança ao perceberem o endosso de seus familiares mais próximos aos seus avanços e manifestações de crescimento.

 
Logo, nessas datas de celebrações, é essencial movimentarem-se as escolas com ações criativas que envolvam a toda comunidade escolar: professores, alunos e pais.
 
Reeditaremos assim, continuamente, outras Donas Lígias, mais Trenzinhos do Caipira, e muitos cafés com pão, além de outros motivos para a construção de personalidades saudáveis, repletas de boas memórias tal a curtir e passar adiante esses conceitos às futuras gerações.
 
 
Prof. Ricardo Helou Doca.

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