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Novembro de 2016

Suicídio - Como evitá-lo?

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A psiquiatra Júlia Faleiros fala sobre os diversos fatores que levam uma pessoa a cometer suicídio a cada 40 segundos no mundo e explica o que cada um pode fazer para reduzir essa estatística.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, em 2014, o resultado de um levantamento sobre suicídios no mundo ocorridos dois anos antes: 804 mil mortes. Isto, na época, significava que, em média, a cada 40 segundos, uma pessoa cometia suicídio. Com dados referentes ao ano de 2012, o Ministério da Saúde mostra o ranking de suicídios no país, com Minas Gerais ocupando o terceiro lugar em números absolutos de mortes (1.093). Com cerca de 113 mil habitantes, Passos registrou seis casos de suicídios naquele ano. 

 
Segundo a psiquiatra Júlia Faleiros, que atua em Passos, esse fenômeno, na maioria dos casos, está associado a doenças mentais e é desencadeado por diversas situações com as quais a pessoa não consegue lidar. Para evitá-lo, é preciso que o próprio paciente, bem como seus familiares e amigos fiquem atentos aos sinais que esse transtorno costuma apresentar e buscar um tratamento adequado para afastar o risco. “Como a maior parte dos casos está relacionada com os transtornos mentais, quanto mais precoce forem diagnosticados e tratados de forma adequada, menores são as chances de um suicídio ocorrer”. A seguir, numa entrevista especial à FOCO, Dra. Júlia esclarece mais detalhes sobre o assunto:
 
 
Foco – É possível, através da psiquiatria, diagnosticar um suicida em potencial? Que sinais essa pessoa pode apresentar e que servem de alerta para sua família, para o médico e até para ela mesma? 
 
Júlia Faleiros – Através da avaliação psiquiátrica, é possível detectar o risco suicida. No entanto, ao redor deste tema, há estigmas e tabus que levam ao medo de serem excluídas ou discriminadas e ainda a vergonha de falarem abertamente deste tema. Normalmente, as pessoas que apresentam ideação suicida veem a vida como algo sem significado, sentem-se desesperançosas e não acreditam que haja outro modo de aliviar a dor e o sofrimento que não seja a morte. Há distorção da percepção de realidade, com avaliação negativa de si mesmo, do mundo e do futuro. Existem mitos que precisam ser desconstruídos, como “quando as pessoas ameaçam se matar, não irão fazer isso, querem apenas chamar atenção”. Isto não é verdade, pois a grande maioria fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte em dias ou semanas anteriores ao ato. O mito que “não se deve falar sobre o suicídio, pois isto pode aumentar o risco”, é falso. Falar sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que estes pensamentos trazem. 
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Foco - O sentimento que pode levar uma pessoa a cometer suicídio é momentâneo, com o ato ocorrendo por impulsão, ou é uma situação contínua? 
 
Júlia Faleiros – A ideação suicida, em sua grande maioria, está associada às doenças mentais e não ocorre de forma momentânea. Frequentemente, há um planejamento para tal ato, apesar do ato em si ser impulsivo, desencadeado por situações negativas do dia a dia, como rejeição, recriminação, fracasso, falência, morte de ente querido, entre outros.
 
 
Foco – Um suicida compreende o estado mental frágil (se é que podemos tratar neste termo) pelo qual está passando e os riscos que ele corre?
 
Júlia Faleiros – Há uma ambivalência entre o desejo de viver e de morrer que se confundem. Muitos não aspiravam realmente à morte, mas acabar com a dor, encontrar descanso, ou um final mais rápido para o sofrimento. Estas pessoas pensam de forma rígida e são incapazes de perceber outras maneiras de enfrentar ou sair do problema; por isso, é tão difícil encontrar, sozinho, alguma alternativa. Por isso, a necessidade do tratamento, apoio emocional, familiar e dos amigos.
 
 
Foco – Como o psiquiatra pode evitar que uma pessoa cometa suicídio e quais as providências para que a pessoa não volte a pensar nesse ato radical?
 
Júlia Faleiros – O tratamento psiquiátrico pode, sim, auxiliar para que um indivíduo não cometa o suicídio. Como a maior parte dos casos está relacionada com os transtornos mentais, quanto mais precoce forem diagnosticados e tratados de forma adequada, menores são as chances de um suicídio ocorrer. É muito importante que um bom vínculo médico-paciente seja estabelecido e que haja um apoio familiar para que as medidas de supervisão e prevenção sejam realizadas.
 
 
Foco – Na literatura médica, quais são as estatísticas de suicídio e principais causas?
 
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Júlia Faleiros – Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2014), em 2012, cerca de 804 mil pessoas morreram por suicídio em todo o mundo. A cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio e, a cada três segundos, uma pessoa atenta contra a própria vida.

Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o Brasil é o oitavo país em número absoluto de suicídios. Entre 2000 e 2012, houve um aumento de 10,4% na quantidade de mortes, sendo observado um aumento de mais de 30% em jovens. Sabe-se hoje que praticamente 100% dos suicídios tinham uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada e não tratada. De fato, dos que morrem por suicídio, cerca de 50 a 60% nunca se consultaram com um profissional de saúde mental.

 
 
Foco – Quais são os fatores que levam uma pessoa a cometer (ou pensar em) suicídio?
 
Júlia Faleiros – Os principais fatores de risco são: tentativa de suicídio anterior e as doenças mentais. Dentre as doenças mentais, destacamos os transtornos de humor (transtorno bipolar, transtornos depressivos) e o uso abusivo de drogas (como álcool e outras substâncias). Idosos e jovens apresentam índices elevados de suicídio. Os óbitos por suicídio são em torno de três vezes maiores entre os homens do que entre as mulheres. Inversamente, as tentativas de suicídio são, em média, três vezes mais frequentes entre as mulheres. Doenças crônicas, eventos adversos na infância, história familiar de suicídio ou tentativa, perdas recentes, desemprego e problemas financeiros também são fatores de risco.
 
 
Foco – A família, amigos, colegas de trabalho e outras pessoas com algum tipo de relacionamento com um potencial suicida podem exercer algum tipo de papel que possa ajudá-lo?
 
Júlia Faleiros – A Família e os amigos têm um papel primordial para ajudar essas pessoas. É importante que os amigos e familiares ajam de forma compreensiva, demonstrando preocupação, dando apoio e sendo empáticos, mas são estes que deverão ir em busca de ajuda, pois, na maioria das vezes, as pessoas com ideação suicida não procuram ajuda e precisam que outros o façam. E mesmo durante o tratamento é necessário o apoio, o suporte e a supervisão familiar para que seja oferecida a proteção necessária que o indivíduo precisa para se proteger de seus próprios atos.
 
 
Foco – Tem como prevenir situações que podem levar a pessoa a desenvolver um pensamento nesse ato extremo? O que fazer, então, para evitar essas situações?
 
Júlia Faleiros – O desenvolvimento da ideação suicida é decorrente de uma série de fatores, como uma doença mental e situações negativas diversas. Sendo assim, a melhor forma de prevenção é a atenção da própria pessoa ou dos familiares para o início dos sinais de uma doença mental como alteração de humor ou do comportamento, sentimentos de culpa ou desesperanças. A busca precoce por auxílio, com tratamento médico e/ou psicoterápico adequados, reduzirão o risco.
 
 
VEJA ALGUNS MITOS SOBRE O SUICÍDIO
 
 
 
 
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Fonte: Suicídio: informando para prevenir. Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)/ Conselho Federal de Medicina (CFM), ano 2014.

É proibido que a mídia aborde o tema suicídio.

FALSO. A mídia tem obrigação social de tratar desse importante assunto de saúde pública e abordar esse tema de forma adequada. Isto não aumenta o risco de uma pessoa se matar; ao contrário, é fundamental dar informações à população sobre o problema, onde buscar ajuda, etc.
 
Quando uma pessoa pensa em se suicidar terá risco de suicídio para o resto da vida.
FALSO. O risco de suicídio pode ser eficazmente tratado e, após isso, a pessoa não estará mais em risco.
 
Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode aumentar o risco.
FALSO. Falar sobre suicídio não aumenta o risco. Muito pelo contrário, falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que esses pensamentos trazem.
 
As pessoas que ameaçam se matar não farão isso, querem apenas chamar a atenção.
FALSO. A maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte. Boa parte dos suicidas expressou, em dias ou semanas anteriores, frequentemente aos profissionais de saúde, seu desejo de se matar.
 
O suicídio é uma decisão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o seu livre arbítrio.
FALSO. Os suicidas estão passando quase invariavelmente por uma doença mental que altera, de forma radical, a sua percepção da realidade e interfere em seu livre arbítrio. O tratamento eficaz da doença mental é o pilar mais importante da prevenção do suicídio. Após o tratamento da doença mental o desejo de se matar desaparece.
 
Quando um indivíduo mostra sinais de melhora ou sobrevive a uma tentativa de suicídio, está fora de perigo.
FALSO. Um dos períodos mais perigosos é quando se está melhorando da crise que motivou a tentativa, ou quando a pessoa ainda está no hospital, na sequência de uma tentativa. A semana que se segue à alta do hospital é um período durante o qual a pessoa está particularmente fragilizada. Como um preditor do comportamento futuro é o comportamento passado, a pessoa suicida muitas vezes continua em alto risco.
 
Se uma pessoa que se sentia deprimida e pensava em suicidar-se, em um momento seguinte passa a se sentir melhor, normalmente significa que o problema já passou.
FALSO. Se alguém que pensava em suicidar-se e, de repente, parece tranquilo, aliviado, não significa que o problema já passou. Uma pessoa que decidiu suicidar-se pode sentir-se “melhor” ou sentir-se aliviado simplesmente por ter tomado a decisão de se matar.
 
 
 
Enio Modesto

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