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Maio de 2017

Tecnologia: Gerações em Xeque

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A Psicóloga Maria de Lourdes Carvalho S.  Silveira, 
“As crianças que se constroem neste ambiente virtual não fantasiam mais, só vivem as estórias criadas pelo virtual o que, muitas vezes, significa ações de violência, agressividade, ganâncias e o vencer o outro.” 

Uso irrestrito da tecnologia digital está isolando os filhos do convívio social; para psicóloga, os pais devem buscar o equilíbrio para que todos possam aproveitar os recursos e resgatarem as relações humanas. Nossa convidada especial é Maria de Lourdes Carvalho S. Silveira, psicóloga infantil, adolescente e adulto; Neuropsicopedagoga; Terapeuta de casal e família; Mestra em Promoção da Saúde.  Participou do Congresso Brasileiro de Terapia Cognitiva da Infância e Adolescência em outubro de 2016 e traz, para nossa edição especial de aniversário, atualizadas informações e reflexões sobre o assunto. 


Uma pesquisa de uma empresa de software de segurança on-line, a AVG Technologies, realizada no ano de 2015 com famílias de todo o mundo mostrou como o uso irrestrito de computadores, tablets e outros aparelhos eletrônicos vêm afetando negativamente as crianças. 

Os dados levantados pela pesquisa da AVG mostram que 66% das crianças de três a cinco anos de idade tinham habilidades para jogos de computador, 47% para usar celulares de tecnologias avançadas (smartphones), mas com capacidade para simplesmente amarrar os calçados sem ajuda eram somente 14%.

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Prover os filhos em tão tenras idades com aparelhos do mundo virtual tornou-se uma prática dos pais nos últimos anos, em substituição às atividades mais realistas de algumas décadas atrás. Só que essa substituição não é benéfica para o desenvolvimento emocional das crianças.

É um engano os pais acreditarem que os filhos entretidos e, portanto, quietos com os jogos de computador estão seguros. As crianças que se constroem neste ambiente virtual não fantasiam mais, só vivem as estórias criadas pelo virtual o que, muitas vezes, significa ações de violência, agressividade, ganâncias e o vencer o outro.
 
 
GERAÇÃO ALPHA
 
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O ser humano vive ciclos de mudanças que geram ganhos e perdas, evoluções e regressão, construção e destruição, amor e ódio, e no extremo dessas dualidades surgem questionamentos existenciais, tais como o futuro da humanidade e o próprio sentido da vida.
 
A maturidade nos impõe viver o presente, pois aprendemos com o que vivemos no passado. E vivendo o presente devemos planejar o futuro. Os tempos passados nos oferecem dados que nos ligam à ‘GERAÇÃO X’ - nascidos até 1980. Sou da época em que sentávamos na sala com a família para admirarmos a TV colorida. Ela era uma TV em branco e preto com uma tela de plástico grosso de três cores. Em cima o azul do céu, no meio o amarelo alaranjado e embaixo o verde da natureza. Achávamos o máximo! Vivíamos felizes esta nova evolução. Escrever e ler, aprender datilografia, corte e costura, brincar na rua, sentar e conversar nos jardins, ir à igreja, brincar de queimada ou esconde-esconde. Rir muito. Crescer? Um pouquinho de cada vez, porque afinal, havia muito tempo para ser criança. O futuro podia esperar...
 
Nos tempos modernos nos deparamos com a ‘GERAÇÃO Y’ (de 1980 a 2000), já estando em contato com o início dos computadores. Depois veio a ‘GERAÇÃO Z’, que participou da era dos celulares e, a partir de 2010, chegou a ‘GERAÇÃO ALPHA’ que vive todo o boom tecnológico. E, pasmem!, os bebês já poderão ter, em breve, tablets acoplados em seus carrinhos.
 
 
HIKIKOMORI
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O mundo global nos conduz ao isolamento. O excesso de informações acaba nos confundindo e distorcendo nossos valores chegando a dúvidas quanto ao que os pais realmente desejam para seus filhos.
 
Há mudanças no linguajar dos jovens que passam a usar mais códigos do virtual distanciando-se da comunicação com outros seres humanos.
 
A SÍNDROME DO ISOLAMENTO EM CASA (Hikikomori) estudada no Japão ou popularmente chamada de ‘Síndrome da porta fechada’ já é realidade em outros países da Europa e também no Brasil. Nela, jovens se perdem e se isolam em seus quartos e vivem os jogos como se fossem sua própria vida. Suas mentes são possuídas e, em casos extremos, trocam a necessidade de sono, de alimento, idas ao banheiro e outras essencialidades pelo prazer de jogar, vencer e quebrar recordes.
 
Os dispositivos eletrônicos, fones de ouvidos, tablets, celulares, computadores cada vez mais espetaculares e sedutores envolvem e viciam. Os jogos em rede formam grupos fortalecidos pelos objetivos de matar, destruir, vencer a qualquer preço, enganar, mentir, excitar-se ou persuadir. Jogos de morte são oferecidos a quem ainda nem teve tempo de viver.
 
 
TRANSTORNOS MENTAIS
 
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Perante a análise das consequências da Tecnologia da Informação e da informática em excesso no desenvolvimento emocional das crianças e adolescentes houve a inserção dos diagnósticos de usuários com uso desadaptativo (não saudável) de tecnologia no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria.

As doenças mentais como o estresse, ansiedade e TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) podem ser potencializadas pela intensidade dos estímulos, o que geram comportamentos de irritabilidade e nervosismo.
 
O uso inconsequente dos jogos, da informática e da internet provoca o surgimento de outras questões influentes na saúde física e mental dos usuários: Dificuldade de espera das finalizações, reações quanto às frustrações, hábitos impróprios à convivência social, desinteresse pela escola porque ‘ela é devagar e chata’ comparada ao tecnológico, problemas físicos por ficarem sentados horas diante da telinha.
 
No uso excessivo dos dispositivos eletrônicos, as crianças, muitas vezes, adquirem problemas de insônia, tornam-se sedentárias e seus relacionamentos com outras crianças diminuem. Ficam fixadas só nos amigos virtuais e a preguiça para o esforço se instala.
 
 
PAIS COM DÚVIDAS
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Saber lidar com seus filhos em meio a esse boom tecnológico é um questionamento comum dos pais, conforme apontam os estudos. Os pais estão confusos quanto ao seu lugar frente ao tecnológico. As dúvidas maiores referem-se a: “O uso de computadores deve ser liberado ou limitado? Quanto tempo é adequado?”;  “O limite de checar, bloquear conteúdos é invadir a privacidade do filho?”; “Qual o limite de idade para oferecer o recurso eletrônico?”; “Como lidar com as redes sociais?”; “Quando se configura em dependência?”; “E o futuro, onde vamos parar?”
 
Cada família deve responder, ela mesma, a essas questões conforme a realidade de cada uma, de forma a encontrar uma solução que seja adequada para o bom desenvolvimento emocional da criança, sem privá-la dos recursos que a modernidade oferece. Os pais são os modelos reais de uma criança e podem dar as referências para os melhores valores, comportamentos e afetos. ‘Acordos’ fazem parte de uma boa convivência.
 
 
REFLEXÕES E CONCLUSÕES
 
• A função dos pais é serem guias e mediadores entre seus filhos e os recursos virtuais. Busque o equilíbrio através de acordos e escuta. 
 
• Entenda que todos têm desejos (Eu quero?), necessidades (Eu preciso?) e principalmente condições (Eu posso?). O equilíbrio é sempre a melhor solução.
 
• A família precisa construir um espaço de entendimento e amor para que, todos juntos possam aproveitar de todo o recurso positivo da tecnologia, que ensina a pesquisar, conhecer, compartilhar informações, comunicar, interagir, brincar.
 
• Utilizar a tecnologia de forma responsável, produtiva e afetiva nos garante a possibilidade de um futuro melhor no desenvolvimento das relações humanas. O tempo de reflexões e mudança é agora!
 
• Os pais não são os culpados, mas sim os responsáveis pela condução dos filhos. A função dos pais é serem guias e mediadores.
 
 
DICAS DE ESTUDIOSOS da Psicologia aos pais quanto ao recurso tecnológico
 
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Permissões de conteúdos relacionados com a faixa etária são necessários.
 
Devemos ensinar aos filhos autodisciplina e autocontrole; eles ainda não possuem maturidade para sozinhos exercê-los.
 
Incentive mais o social do que o virtual. Atividades com os amigos, esportes e lazer são sempre bem-vindos.
 
Contenha, com ensinamentos de valores, o uso exagerado da tecnologia.
 
Lembre-se: o excesso pode causar deficiências de sono, alteração de padrões alimentares, queda no rendimento escolar e prejuízos no desenvolvimento da criança.
 
Surgem outras dificuldades físicas como problemas relacionados à coluna e postura, irritabilidade e agressividade, sedentarismo, comportamentos egoístas e declínio da empatia pela falta de convívio social.
 
A diferença entre invasão de privacidade e limites está na ação madura dos pais de conduzir a tecnologia como recurso de desenvolvimento e não, recurso de adoecimento.
 
 Faça uma autoavaliação sobre o seu uso adulto do meio tecnológico. Pais são modelos importantes de identificação de crianças e jovens em formação.
 
A tecnologia é uma realidade sem volta. Por isto devemos tê-la a nosso favor.
 
Devemos usar o recurso para resgatar nossas relações afetivas com os filhos e crescermos juntos.
 
O tecnológico pode ser mais um recurso para os pais estarem atentos e conectados com a realidade de seus filhos.
 
Eduquem vocês, seus filhos.Não deixem o tecnológico fazê-lo.
 
Regras, horários, tempo limite, precisam ser exercidos com bom senso e coerência.
 
As crianças são vítimas e não vilãs. Podemos ajudá-las!
 
O tecnológico pode prejudicar a percepção das emoções, seu entendimento e expressão.
 
Conectar-se pode ser muito bom, mas saber a hora melhor de desconectar-se é essencialmente importante.
 
 
PAIS TAMBÉM ESTÃO EM XEQUE
 
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Em análise dos efeitos da tecnologia da informática, com seus jogos digitais e redes sociais, sobre o desenvolvimento emocional das crianças, é citado também uma curiosa  pesquisa igualmente realizada com crianças.
 
A pesquisa foi realizada pela revista infantil norteamericana Highlights, que ouviu 1.521 crianças de seis a doze anos de idade. A grande maioria delas questiona o comportamento dos próprios pais, conforme alguns dados a seguir:
 
- 62% das crianças reclamam que os pais estão muito distraídos para ouvi-las;
- 65% dos pais se distraem quando conversam com os filhos; 
- 48% usam o celular enquanto brincam com o filho;
- 71% usam seus smartphones enquanto dirigem. 
 
Por outro lado, a pesquisa mostra que:
 
- 56% dos pais verificam e controlam o acesso dos filhos aos meios digitais;
- 23% não controlam nada e 
- 11% às vezes verificam.
 
Outras pesquisas mostram que a capacidade das pessoas se manterem em atenção caiu de 13 (treze) segundos para 8 (oito) segundos, o que interfere na qualidade das conversações.
 
 
PSICOLOGIA CONFIRMA REFLEXOS DA TECNOLOGIA NAS CRIANÇAS
 
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O Congresso de Psicologia realizado em Campinas, em outubro de 2016, revelou uma série de confirmações dos reflexos da tecnologia digital no desenvolvimento emocional das crianças
 
A partir do momento em que a tecnologia substituir a relação humana ela é prejudicial; O acesso precoce e excessivo à internet e tecnologias causa alterações no desenvolvimento global das crianças; Tecnologias podem causar danos à sociabilidade e às convivências com os amigos reais; A comunicação falada e escrita fica toda distorcida e confusa; A geração X diria: Depois nos falamos, amigo”. A geração Y expressa: Falou, amigo”, e a geração Z comunica assim: “ Flw. Como será que a geração Alpha se comunicará? 
 
Com os hábitos tecnológicos, algumas doenças se intensificam; a acomodação gera a obesidade, isolamento, ansiedade, nervosismo e preguiça para o esforço; qualquer excesso e qualquer falta deve ser repensada pelos pais.
 
 
por Maria de Lourdes Carvalho S. Silveira

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