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Março de 2018

Como explicar o Narcisismo

Narcisismo é um conceito da psicanálise que define o indivíduo que admira exageradamente a sua própria imagem e nutre uma paixão excessiva por si mesmo. A psicóloga Mara Regina Giannelli Righetto explica as principais características do indivíduo narcisista, e analisa alguns aspectos do comportamento narcisista na sociedade atual.

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A psicóloga Mara Regina Giannelli Righetto: “Como estamos sempre em transformação, o desenvolvimento pessoal e a maturidade contribuem para o aperfeiçoamento de recursos afetivos que podem transformar a nós mesmos e o nosso mundo de relações.”

 

O termo narcisismo é derivado de Narciso, que segundo a mitologia grega, era um belo jovem que despertou o amor da ninfa Eco. Como era arrogante e orgulhoso Narciso rejeitou esse amor e por isso foi condenado a amar o primeiro ser que visse. Apaixonou-se, assim, pela sua própria imagem refletida num lago e, por não conseguir deixar de admirar aquela imagem, definhou. Posteriormente, a mãe Terra o converteu em uma flor, o narciso. 

 
A psicóloga Mara Regina Giannelli Righetto resume algumas características básicas do comportamento de uma pessoa narcisista: “Atitudes narcísicas se caracterizam pela preocupação exagerada consigo mesmo, a ponto de se esquecer o outro a seu lado, pela urgência nas conquistas, pela forma individualista como as pessoas se relacionam, pela impaciência, pela intolerância, pelo uso abusivo de onipotência e arrogância. Essas atitudes comprometem a capacidade para amar, geram vazios e quando o sentir-se onipotente não se sustenta, o que aparece é o sentimento de desamparo e destruição, que pode levar ao pânico e a somatizações. A pessoa adoece”, explica.
Mara afirma que características narcisistas podem ser reconhecidas em cada um de nós, porém, nem sempre podem ser consideradas patológicas. 
 

 

"Narciso" - Pintura de Caravaggio, 1954-1596 Galeria Nacional de Arte Antiga

 

“Como estamos sempre em transformação, o desenvolvimento pessoal e a maturidade contribuem para o aperfeiçoamento de recursos afetivos que podem transformar a nós mesmos e o nosso mundo de relações”, pondera.

 
O desenvolvimento da personalidade narcisista, segundo a psicóloga, começa logo nos primeiros meses de vida, quando podem ocorrer falhas na função materna. “As primeiras relações de um bebê são indiscriminadas, é a mãe que vai apresentá-lo ao mundo e vai apresentar o mundo para o bebê, e muitas vezes, a mãe não tem essa compreensão, esse entendimento ou acolhimento afetivo. Se nas primeiras relações afetivas houver essa falha, pode se desenvolver, a partir daí, a formação de uma personalidade narcisista”, observa.
 
Mara afirma que o contexto da sociedade atual é muito voltado para os prazeres pessoais, e isso se inicia ainda na infância. “As crianças impõem suas vontades, querem que seus desejos sejam atendidos e os pais muitas vezes sucumbem às exigências dos filhos. A experiência contemporânea de uma vida voltada para as próprias vontades e necessidades, com tanta busca e oferta de prazeres, nos leva à ilusão de que nossa existência poderia transcorrer de uma maneira muito mais voltada ao prazer do que às obrigações e ao compromisso.”
Sobre pessoas que buscam, de forma exagerada, o corpo perfeito, através de procedimentos estéticos como cirurgias plásticas e exercícios físicos, Mara afirma que essa também pode ser uma característica narcisista. “Cada pessoa tem sua própria beleza, que é resultado de sua aparência física e também de suas qualidades emocionais. A busca por uma beleza idealizada pode significar que existe um sofrimento psíquico”, salienta.
 
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Quanto ao excesso de exibicionismo das pessoas nas redes sociais, como um aspecto do comportamento narcísico nos dias atuais, Mara afirma que a privacidade é uma condição menos valorizada atualmente, e para que tanta exposição aconteça, o que as pessoas expõem são situações de prazer em seu cotidiano, de tal forma que fica a ilusão de que as dificuldades quase não existem.
“A busca de prazer intenso e imediato é uma característica da vida atual. Porém, nem sempre isso é possível, afinal, tudo leva tempo e investimento para ser construído. Haja tempo para construir um amor, uma amizade, uma profissão! Existem os limites da mente e do corpo, a morte, a dependência do outro, as angústias e frustrações”, destaca a psicóloga.
 
As características narcísicas da vida atual, segundo Mara, não são favoráveis ao equilíbrio emocional. “As pessoas andam muito ansiosas, esperando muito pela sexta-feira porque os outros dias não são tão bons, usam muito antidepressivos, ansiolíticos para conter a ansiedade, medicamentos para dormir, álcool, drogas.”
A psicóloga afirma que é importante considerar que as decisões de vida podem acontecer seguindo o prazer momentâneo ou a realidade que aponta para possibilidades e limites: “O prazer momentâneo sem a ponderação da realidade pode ter como consequência resultados desagradáveis. É preciso ter sempre em vista a necessidade de mantermos contato conosco, com a nossa autoestima, com o nosso corpo, nossos pensamentos, sem perder de vista o contato e o respeito ao outro”, finaliza.
 
Renato Rodrigues Delfraro

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