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Outubro de 2018

ELEIÇÕES 2018 - O que esperar do futuro presidente

Quem for escolhido pelos eleitores para chefiar o governo federal a partir de janeiro de 2019 terá pela frente uma pressão social poucas vezes vista desde a redemocratização do país.

Clóvis Damião Professor de redação e história e Murilo de Pádua Andrade Filho Ex-professor de geografia e ex-candidato a vice-prefeito de Passos.
Clóvis Damião Professor de redação e história e Murilo de Pádua Andrade Filho Ex-professor de geografia e ex-candidato a vice-prefeito de Passos.

 

As Eleições 2018 serão as primeiras após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a condenação e prisão de seu antecessor, Luís Inácio Lula da Silva, e acontecerão em meio a uma polaridade exacerbada entre esquerda e direita, que culminou com o esfaqueamento do deputado e candidato a presidente da República Jair Bolsonaro, em 6 de setembro. Também esquentam estas eleições as crises política e econômica, as operações investigativas da Polícia Federal e Ministério Público Federal contra os corruptos e a indignação cada vez maior da sociedade com a falta de segurança.
 
Em meio a esse cenário de alta efervescência e complexidade, os candidatos estão tendo, mais do que nas eleições anteriores, que convencer os eleitores sobre quem é o mais capacitado para dar as respostas corretas para essas verdadeiras equações políticas, econômicas e sociais. Por isso, a FOCO entrevistou dois profissionais com alto conhecimento da política nacional para traçar um panorama dos problemas do país e verificar o potencial dos candidatos em resolvê-los. São eles: o engenheiro e consultor em segurança do trabalho, ex-professor de geografia e ex-candidato a vice-prefeito de Passos, Murilo de Pádua Andrade Filho, e o professor de redação e história Clóvis Damião.
Segundo Murilo Filho, o que o país está vivendo atualmente são os reflexos de uma confusão instaurada nos últimos cinco anos, que causou a perda de identidade política dos brasileiros. “Este péssimo processo transforma a política em demagogia, enfraquecendo o Estado e a população. Com isso, passamos a achar que a solução está na volta daquilo que aparentemente foi ‘menos’ pior. Em um momento onde surgem ideias como aquela: ‘fulano é bom, rouba, mas faz’, ou, ao meu ver, um pior ‘nos tempos do regime militar que era bom!’. Tudo é sinal de uma crise instaurada, na qual as pessoas não têm a mínima consciência do que se pode fazer para melhorar”, analisa o engenheiro. 
 
 
HISTÓRIA
 
 
 Para o professor Clóvis Damião, a história mostra que as crises  ocorrem com frequência no país, gerando uma avaliação ruim dos políticos, mas, desta vez, a exposição das entranhas da corrupção levou as pessoas a verem a política com mais desconfiança ainda. “É interessante observar que, como grande parte dos brasileiros possui uma ‘memória curta’, sempre se tem a ideia de que a crise atual é a pior de todas, o que não é verdade. Porém, temos agora um elemento totalmente novo, que é a corrupção amplamente investigada e combatida, sobre a qual todos têm informações. O elemento novo não é a corrupção, mas o modo como ela está sendo combatida, o que deixa a população descrente com a política”, afirma.
O professor Clóvis acredita que o pior momento da crise econômica já foi superado, mas a apatia e a descrença da população são elementos que atrasam a solução. “Sobre a apatia, é compreensível que as pessoas tenham se decepcionado bastante, pois a corrupção foi descoberta em praticamente todos os partidos, ou seja, parece não haver muitas pessoas em quem confiar. Por outro lado, esta situação causa descrença, já que os candidatos que se apresentam são praticamente os mesmos. As pessoas acreditam na necessidade de mudança, mas não enxergam pessoas capazes de realizá-la. Isso agrava os problemas sociais e econômicos pelos quais o país passa”, diz.
 
 
Murilo Filho também recorre à história, voltando ao período colonial do Brasil, para tentar apontar as causas dos problemas que o país enfrenta, sendo a concentração de terras e renda nas mãos de poucas pessoas um dos fatores. Para ele, falta aos governantes tratar esses problemas de forma “concreta, imparcial, direta e profissional” em vez de soluções que não sejam definitivas. “Quando os problemas não são trabalhados de forma planejada e objetiva, tornam-se mais profundos à medida que a sociedade se transforma com o tempo”, observa.
Para ilustrar sua análise, o consultor de segurança do trabalho utiliza os desafios da educação, tão presentes nos discursos políticos, porém ausentes em termos práticos. “Atualmente, o problema já não se resume a colocar crianças em frente ao quadro e evitar a evasão escolar, já que a questão não é mais eliminar o analfabetismo no país. O maior problema da educação brasileira é a gestão da aprendizagem, já que grande parte dos alunos passa pela educação básica e não assimila seus conceitos. Há 15 anos, as escolas apenas exigiam que os alunos memorizassem o conteúdo para devolvê-lo na hora da prova. Porém, agora é importante que os estudantes não apenas acumulem informações, mas saibam como usá-las. Hoje, um governo responsável precisa oferecer qualidade no que está sendo lecionado. Para isso é preciso, além de melhorar a qualidade de vida dos professores por meio da melhoria na remuneração, rever as metodologias de ensino e fazer com que o corpo docente passe por “reciclagens”, defende.
 
 
 
 
 
 
PERFIL
 
Questões cruciais para o país voltar a crescer e se desenvolver, como as reformas tributárias e da Previdência Social, os investimentos e melhorias nas gestões de segurança pública, educação, saúde e infraestrutura de transporte, energia, entre outras, são vistas pelos dois entrevistados como fatores que irão definir uma nova era para o Brasil. Por isso, o futuro presidente deverá ter um perfil reformista e voltado à busca de um bom desempenho como gestor.
“A solução de todos esses fatores é realmente determinante para a economia crescer. Porém, no meu ponto de vista, o problema é outro. Falta coragem para elaborar um projeto de longo prazo. Todos os governos – federal, estaduais e municipais – costumam realizar projetos a curto prazo, que atendam às necessidades dos quatro anos de governo. Por isso que a situação não muda, pois a cada governo, quem está no poder desfaz tudo (ou quase tudo) o que o outro fez para começar de novo. É nesse sentido que vejo que o projeto é pessoal e não de nação”, avalia Clóvis
“Na minha visão, se o Brasil fosse uma empresa e eu fosse seu dono procurando por um diretor-presidente, eu buscaria alguém com um perfil que o mundo corporativo hoje em dia tem chamado de ‘resolvedor de problemas’, que reúne atributos tais como: inteligência emocional, segurança, empatia, saber se opor sem criar confrontos e conflitos (mas com flexibilidade a ponto de saber lidar com qualquer mudança)  e, principalmente, com iniciativa, atitude, autoliderança, perseverança e capacidade de compatibilizar inteligência, experiência e expertise. A má notícia é que o mundo corporativo está tendo uma tremenda dificuldade em encontrar profissionais com este perfil”, lamenta Murilo Filho.
 
 
 
 
 
CONGRESSO
 
 
Com uma forma de governo presidencialista, mas com um peso parlamentar a ponto do presidente precisar atrair para sua base de apoio uma ampla maioria de deputados e senadores, o Congresso Nacional tem um papel e uma responsabilidade praticamente iguais aos do presidente quanto ao presente e futuro do país. Por isso, Murilo Filho ressalta a importância dos eleitores. “Apesar de o Congresso Nacional ser uma instituição bastante impopular perante a sociedade brasileira, precisamos entender, contudo, que nem todo político é igual ou corrupto. Existem candidatos interessados em promover uma mudança social e política, por isso devemos buscar conhecer as propostas do candidato e do seu partido, assim como o seu passado”, disse.
“O país possui três poderes interligados (Executivo, Legislativo e Judiciário). O Executivo não realiza nada sozinho, por isso a colaboração do Congresso (Legislativo) é fundamental. E é no poder Legislativo que vejo a maior dificuldade. Temos um número exagerado de deputados e senadores, com uma população que não sabe ao certo o papel deles. As pessoas votam porque precisam, mas não sabem o poder que estes políticos têm. Por isso que vejo o papel essencial do presidente de saber dialogar e mostrar ao Congresso o que o país realmente precisa, que saiba afastar os partidos (pelo menos um pouco) dos próprios interesses para que possam pensar no bem da população como um todo”, disse o professor Clóvis.
 
 
 
 
 
CETICISMO
 
 
No entanto, para os dois entrevistados da FOCO, os mais bem colocados nas pesquisas de intenção de votos para presidente não têm o perfil adequado para oferecer ao Brasil um futuro mais promissor. “Se o Brasil realmente fosse uma empresa e eu fosse seu dono procurando por um novo diretor-presidente, eu manteria a vaga aberta no Linkedin”, lamenta-se Murilo Filho, referindo-se a uma rede social de utilização profissional.
 
 
Para Clóvis Damião, o futuro presidente terá que ter disposição para dialogar com o Congresso Nacional, incluindo a oposição, mas ele acredita que, mesmo assim, as dificuldades não serão menores. “Como grande parte deles pensa apenas no próprio bem, a força de vontade talvez ainda não seja suficiente. Acredito que esta crise política que o Brasil enfrenta vá trazer benefícios a longo prazo, nas próximas gerações de políticos, mas não agora, pois a corrupção é cultural na política. Além dela, é cultural também a ideia de que todos precisam se beneficiar do poder. Ainda há políticos que estão procurando alternativas para se beneficiar de modo mais discreto, com medo de serem presos e não com medo de fazerem mal para o país”, critica. 
 
Enio Modesto

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