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Novembro de 2018

PREVENÇÃO - Geriatria não é só para idosos

Para chegar à terceira idade com boa saúde, é preciso se prevenir o quanto antes; aos 45 anos de idade, já vale uma ida ao geriatra, especialidade que não é só para idosos.

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O médico especialista em geriatria Dr. Luciano de Sousa Pimenta.
 Dr. Luciano de Sousa Pimenta.

 

O senso comum é que a geriatria é uma especialidade médica para idosos, para que estes possam conviver com as doenças da forma mais confortável possível. Só que a geriatria é mais que isso. De fato, essa especialidade médica cuida das pessoas que já passaram dos 60 anos de idade, tanto nos tratamentos de reabilitação, quanto na prevenção para que alcancem uma velhice saudável. Por isso, um fato que poucos se atentam é que a geriatria é indicada também para os mais jovens.
 
Segundo o médico Luciano de Sousa Pimenta, os cuidados para a boa saúde devem começar no pré-natal, com o devido acompanhamento médico na gestação, garantindo aos filhos o acesso às vacinas contra doenças endêmicas, e prosseguir por toda a vida. 
“É na primeira infância que a criança vai adquirir os hábitos para a saúde dela. É uma ‘poupança’ que diminui a chance do aparecimento, no futuro, de doenças como diabetes, osteoporose, hipertensão, colesterol alto, entre outras”, explica.
O geriatra acrescenta que, na infância, os pais devem educar os filhos para a boa alimentação – rica em proteína, cálcio e fibras. Igualmente importante é a sociabilização dos filhos pequenos para a convivência deles com outras crianças em ambiente tranquilo, incentivá-los para atividades físicas e culturais e conscientizá-los para o mal do álcool e das drogas ilícitas. “E incentivá-los, também, a conviver com idosos, para a troca de valores e experiências”, ressalta.
 
“Geriatra é aquele médico que se especializou para atender os idosos, mas, na verdade, o principal interesse de um geriatra é a prevenção. É recomendado a partir dos 50, 60 anos; ou antes disso, com enfoque preventivo. Para pessoas com mais idade, o enfoque é diferente: observar peculiaridades do envelhecimento e, se for o caso, adequar os medicamentos que o paciente já usa”, observa o Dr. Luciano, chamando a atenção para o envelhecimento da população brasileira, com a expectativa de vida em ritmo crescente, sem que haja um planejamento para acomodar bem essa população.
 
EXPECTATIVA DE VIDA
 
De acordo com pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de pessoas com 60 anos ou mais e a taxa de expectativa de vida vêm aumentando no Brasil, seguindo uma tendência mundial. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE, divulgada em abril deste ano, mostra que o país superou 30,2 milhões de idosos no ano de 2017, representando 4,8 milhões a mais que a pesquisa anterior, realizada em 2012.
 
A expectativa de vida é de 75,8 anos, conforme a Tábua de Mortalidade de 2016, também do IBGE, um aumento de mais de 30 anos em comparação ao ano de 1940 e três meses e onze dias em relação a 2015.
Esses dados, segundo o Dr. Luciano Pimenta, devem ser encarados com seriedade, não apenas pelas famílias, mas também pelos gestores públicos, para que as pessoas tenham melhor estrutura para gozar a velhice. “Pensar no idoso é muito além da parte médica”, ressalta, chamando a atenção para diversos fatores que têm relação com a terceira idade, como a acessibilidade em casa e nos logradouros públicos, o atendimento hospitalar e a vida social (leia na página 42).
 
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NO CONSULTÓRIO
 
No aspecto de saúde, as queixas mais comuns que as pessoas com mais de 60 anos de idade apresentam em consultas com geriatras são relativas à cognição ou processos mentais (atenção, percepção, raciocínio, memória e linguagem), equilíbrio, força, dificuldade para locomoção, tremores, vertigem e dor, falta de ar, sintomas emocionais (tristeza, angústia, medo), etc.
O Dr. Luciano Pimenta explica que os problemas de equilíbrio são muito comuns na velhice por causa do uso excessivo de alguns medicamentos, como para pressão alta e para ansiedade e insônia, por exemplo, além de próteses dentárias mal feitas ou mal adaptadas. 
 
No entanto, o Dr. Luciano adverte que o ajuste da dosagem adequada ou a retirada do remédio só podem ser feitos com critérios e de acordo com as necessidades de cada paciente, o que só ocorre após uma minuciosa avaliação médica.
“O metabolismo do idoso é diferente do adulto jovem, então todos esses medicamentos têm que ser adequados a dosagens próprias para o idoso ou outras classes de medicamentos que possam substituir, com menos efeitos colaterais”, frisa o médico.
 
 
GERONTOLOGIA
 
Para avaliar bem seu paciente, o médico geriatra aborda até mesmo aspectos psicossociais, sociais, entre outros, além, claro, do biológico, porque o idoso deve ser observado até mesmo no meio em que vive. Por isso, o Dr. Luciano defende uma maior formação de especialistas em gerontologia, que são profissionais de diversas áreas que atuam pelo bem-estar dos idosos.
Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), a gerontologia “é o campo científico e profissional dedicado às questões multidimensionais do envelhecimento e da velhice, tendo por objetivo a descrição e a explicação do processo de envelhecimento nos seus mais variados aspectos”.
 
Essa especialização em gerontologia é importante para auxiliar os geriatras, cujo número é insuficiente para cuidar de uma população tão grande de idosos. “Mesmo que formem muitos geriatras, não serão suficientes. Portanto, médicos de outras especialidades deveriam ser treinados para detectar as necessidades dos pacientes e adequar o tratamento”, defende o Dr. Luciano Pimenta.
Ainda para o médico, essa carência poderia ser reduzida se o Brasil contasse também com um número maior de ambulatórios de geriatria, onde uma equipe multidisciplinar colaboraria para oferecer aos pacientes da terceira idade os serviços necessários para seu bem-estar.
 
 
AUMENTO DO NÚMERO DE IDOSOS
 
Segundo o médico geriatra Luciano de Sousa Pimenta, a sociedade brasileira deveria se preocupar e se preparar para o aumento da população de idosos no país. As estatísticas mostram que o número de idosos deve dobrar nas próximas décadas, o que irá causar um grande impacto nas áreas da saúde e de urbanismo. 
 
Estimativas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que em 2042 o Brasil terá 57 milhões de pessoas com mais de 60 anos de idade, o que corresponderá a 24,5% do número de habitantes. Hoje esse número é de 28 milhões, para um total de pouco mais de 209 milhões de habitantes.
 
“A gente não vê a sociedade fazer mudanças para receber esse volume de pessoas que vão chegar aos 60 anos”, observa o geriatra, falando de problemas de acessibilidade nas ruas, calçadas, espaços de convivência e nas próprias residências, além da pouca segurança no trânsito. “E isso mostra que o cuidado com o idoso vai muito além da medicina, porque envolve engenharia, arquitetura, direito/jurídico...”, acrescenta.
 
Se as cidades não estão preparadas para os idosos, os hospitais muito menos, embora sejam estes ocupados mais por pacientes com mais de 60 anos de idade. “Os hospitais têm poucos leitos para idosos, apesar deles ocuparem mais leitos. Precisaria ter enfermarias adaptadas para idosos, porque eles requerem cuidados especiais”, afirma Dr. Luciano.
Para o médico, a implantação do estatuto do idoso já responderia grande parte das questões relacionadas a quem chegou à velhice. “O problema é vontade política e recursos também, porque não é barato”, comenta, dizendo que alguns exemplos podem ser seguidos, como os parques de São Caetano do Sul (SP), ambulatórios para idosos vinculados a universidades de Ribeirão Preto e Campinas.
 
“Em Passos, um projeto importante é o da Unabem (Universidade Aberta para a Maturidade/UEMG), que serve de exemplo e deveria ser multiplicado. O investimento nos custos tem retorno em médio e longo prazo”, estima o médico.
 
A velhice poderá ser saudável também com a integração dos idosos com os mais jovens, o que poderia ser promovido por meio de espaços de convivência, atividades esportivas e culturais, entre outras. “Os idosos têm o know-how da vida, mas não têm tanta energia quanto os jovens. É preciso promover espaço para as gerações se encontrarem, porque cria uma cultura muito rica na sociedade. O idoso traz conhecimento para o jovem e se sente inserido. Pode contribuir. É bom para a autoestima”, defende.

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