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Fevereiro de 2019

O AVANÇO DA DENGUE EM PASSOS

O começo de 2019 foi marcado por uma epidemia de dengue em Passos. Até o fim de janeiro havia 485 casos notificados da doença na cidade, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde. A Foco entrevistou alguns especialistas que falam sobre os casos de dengue hemorrágica, que é o estágio mais avançado da doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, e sobre os efeitos da doença no organismo de crianças, adultos e idosos.

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A médica infectologista Dra. Priscila Freitas das Neves Gonçalves.
A médica infectologista Dra. Priscila Freitas das Neves Gonçalves.

 

Os cuidados que devem ser tomados na prevenção ao mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus da Dengue, da Febre Chikungunya e do Zika Vírus são do conhecimento de grande parte da população: evitar o acúmulo de água parada em garrafas, vasos, pneus, além de fazer a limpeza constante de terrenos, piscinas, entre outros cuidados necessários para evitar a proliferação do mosquito.
Mesmo com tantas campanhas informativas e com o risco real da doença, que é uma realidade alarmante durante o período de intenso calor e fortes chuvas, não são todos que zelam pela limpeza de suas casas e terrenos, fazendo com que suas vidas e de outras pessoas corram perigo.
 
Nos meses de dezembro e janeiro, Passos foi surpreendida com uma epidemia de dengue. O último surto da doença na cidade ocorreu em 2014, quando foram notificados 4.977 casos, e nove mortes foram registradas. Quando um caso de dengue é constatado, é necessário procurar o tratamento rápido e adequado.
De acordo com a médica infectologista Dra. Priscila Freitas das Neves Gonçalves, os danos que a dengue causa ao organismo são relacionados às manifestações clínicas. “A dengue é uma doença sistêmica, dinâmica e que tem um amplo espectro clínico, pode variar desde formas oligossintomáticas até formas graves e óbito. A dengue se divide em três fases: tem a fase febril, a fase crítica, e o período de recuperação
Os primeiros sintomas são febre, cefaleia, dor retro-orbitária (dor atrás do olho), mialgias (dor nos músculos), artralgias (dor nas articulações) e gosto amargo na boca, em 50% dos casos teremos manchas no corpo, que é o exantema viral. Estes sintomas podem perdurar por sete dias. A partir do terceiro ou quarto dia de sintoma, ocorre a defervescência da febre e inicia a fase crítica da doença, nesse período o paciente pode evoluir com plaquetopenia, sintomas hemorrágicos  e choque; esse seria o período de vigilância contínua, hidratação vigorosa e atenção para os sinais de alerta (dor abdominal intensa, sudorese fria, vômitos em excesso, queda abrupta de plaquetas, taquicardia, são os principais); principalmente em extremos de idade, crianças e idosos,  dura do quarto até o sétimo dia. Os danos maiores são as complicações, como sangramentos de cavidades, sangramento no sistema nervoso central, miocardite, encefalite, disfunções orgânicas múltiplas, insuficiência renal, insuficiência hepática fulminante. Isso nos casos de evolução para a gravidade”, ressalta a médica, que alerta para a necessidade de se pensar na prevenção e no diagnóstico precoce da doença, para evitar que os pacientes que estão na fase febril evoluam para a fase crítica.
 
Segundo Dra. Priscila, o diagnóstico da dengue é clínico e epidemiológico, e alguns sintomas como febre acompanhada de mialgia e cefaleia (dores de cabeça), artralgia (dor nas articulações) são suficientes para pensar no diagnóstico de dengue, ainda mais se estiver ocorrendo um surto da doença. “O diagnóstico laboratorial acontece através de exames inespecíficos, que é o hemograma com plaquetas, quando é constatado leucopenia (leucócitos baixos) e queda nas plaquetas. Tem ainda os exames específicos, que é a pesquisa do antígeno viral, e o teste rápido para dengue ou pesquisa da NS1. Este exame não é disponibilizado pelo SUS, apenas em alguns períodos tem a liberação do Ministério da Saúde, mas é difícil. Ele pode ser feito até o quarto dia de doença. A partir do sétimo dia tem o teste sorológico, que é a produção de anticorpos, ou seja, é a produção de anticorpos contra o vírus. Tem ainda o PCR, que é um exame mais caro, na maioria das vezes são feitos em laboratórios de grandes centros, e outro é o isolamento viral”, explica.
 
A Dra. Priscila diz que os pacientes com dengue são divididos em quatro grupos: A, B, C, D. Os pacientes dos grupos C e D já estão em fase de alerta, e os pacientes do grupo D se enquadram nos casos de dengue grave ou hemorrágica.
 
A médica Pediatra e Infectologista  Dra. Rosana Porto Viana Teixeira.
A médica Pediatra e Infectologista Dra. Rosana Porto Viana Teixeira.

 

“Estes pacientes têm que ser assistidos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) para reverter o choque, controlar os sangramentos, com transfusões de sangue, e controlar as disfunções. Se evoluir para um quadro de disfunção renal aguda, talvez seja necessária a realização de hemodiálise. É uma terapia de suporte. O tratamento basicamente nos casos A e B é hidratação, tem que fazer uso de uma terapia oral de hidratação. Se o paciente não conseguir, pois em muitos casos a sensação de náuseas e vômitos impedem a ingestão de líquidos por via oral, é necessário tomar soro intravenoso. Não existe um tratamento específico para dengue, já foram estudados vários antivirais, mas não surgiu nada  significativo na diminuição dos sintomas e da mortalidade dessa doença”, observa a infectologista.
 
Sobre o risco de sequelas em pessoas que já tiveram dengue hemorrágica, a Dra. Priscila explica que para isso ocorrer depende da gravidade da doença. “Algumas vezes um paciente com dengue grave pode evoluir com hepatite fulminante e ser necessário transplante hepático, o que é uma complicação, ou se evoluiu para uma insuficiência renal aguda, vai precisar de hemodiálise. Na dengue grave se o paciente reverteu as disfunções orgânicas e conseguiu sair do quadro crítico, vai demorar um pouco para se recuperar totalmente. Nós percebemos que a dengue causa incômodos por alguns meses, provoca um quadro de inapetência, fraqueza muscular e indisposição, que pode perdurar por 6 meses a 1 ano. Nas mulheres pode acontecer alopecia, que é a queda de cabelo, um quadro comum em se tratando de doenças infecciosas, mas é algo temporário”, salienta.
 
Pacientes com diabetes, hipertensão, asma e a população idosa estão no grupo de risco da doença, que pode evoluir com quadros graves segundo a médica: “essas pessoas devem tomar mais cuidado, fazer uso do repelente, principalmente para as gestantes, por causa do zika vírus”, observa Dra. Priscila.
 
 
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A DENGUE NAS CRIANÇAS 
 
A médica pediatra e infectologista Dra. Rosana Porto Viana Teixeira afirma que a dengue em crianças pode ser assintomática, ou apresentar-se como uma síndrome febril clássica viral, ou com sinais e sintomas inespecíficos, como adinamia, sonolência, recusa de alimentação e de líquidos, vômitos, diarreia ou fezes amolecidas. 
“Nos menores de dois anos de idade, especialmente em menores de seis meses, sintomas como cefaleia, dor retro-orbitária, mialgias e artralgias podem manifestar-se por choro persistente, adinamia e irritabilidade, geralmente com ausência de manifestações respiratórias, podendo ser confundidos com outros quadros infecciosos febris, próprios da faixa etária”, observa.
 
De acordo com a Dra. Rosana, na criança, o início da doença pode passar despercebido, e o quadro grave ser identificado como a primeira manifestação clínica. O agravamento, em geral, é súbito, diferente do que ocorre no adulto, que é gradual, em que os sinais de alarme são mais facilmente detectados. A criança pode ter complicações como o adulto como doença hemorrágica e morte.
 
“Existem diferentes sorotipos de dengue, como na maioria das doenças virais, e, por este motivo, pode haver recorrências da doença, porém, nem sempre, contrair dengue pela segunda ou terceira ou sucessivas vezes quer dizer que será mais grave, ou que irá evoluir para doença hemorrágica. A evolução clínica depende do sorotipo contraído. Alguns são mais invasivos, mais virulentos, outros são mais leves e brandos. Depende também da imunidade da pessoa que contraiu. A intensidade dos sintomas da dengue é diretamente ligada à resposta imunológica do doente”, afirma.
 
Segundo a médica, quando um sorotipo viral é introduzido em uma localidade cuja população encontra-se suscetível ao mesmo, existe a possibilidade de ocorrência de epidemias, por vezes explosivas. “Entretanto, para que isso aconteça, é necessária a existência do inseto vetor em altos índices de infestação predial, e de condições ambientais que permitam o contato desse vetor com aquela população. A transmissão do vírus dengue em uma determinada comunidade, bem como a magnitude das epidemias, estão na dependência da conjunção de uma série de fatores: os chamados macro e microdeterminantes”, salienta.
 
A Dra. Rosana afirma que dentre os fatores macrodeterminantes destacam-se “elevadas temperatura e umidade relativa do ar, alta densidade populacional, deficientes coletas de resíduos sólidos domiciliares e abastecimento de água potável. Dentre os microdeterminantes, estão o percentual e susceptíveis aos sorotipos circulantes, a abundância e tipos de criadouros do mosquito transmissor, os altos índices de infestação predial e a densidade de fêmeas desse vetor”. 
 
A médica reforça o alerta que para se evitar a recorrência da doença é necessário cuidar de toda questão ambiental: não deixar água parada, colocar telas de mosquito nas janelas, etc. Também fazer uso de repelentes apropriados para crianças.
 
Renato Rodrigues Delfraro

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