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Abril de 2019

Depressão em adolescentes

Um tema que tem chamado cada vez mais a atenção da sociedade é a depressão em adolescentes. O fato de muitos pais não saberem como lidar com o assunto tem feito com que profissionais das áreas de psicologia e psiquiatria busquem oferecer mais orientações para as famílias, a fim de evitar que a falta de informação não cause danos ainda maiores à vida dos jovens. A psiquiatra Dra. Júlia Faleiros faz alguns esclarecimentos sobre a questão.

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A psiquiatra Dra. Júlia Faleiros  CRM MG - 47004  Título de especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria)
A psiquiatra Dra. Júlia Faleiros
CRM MG - 47004  - Título de especialista pela ABP (Associação Brasileira   de Psiquiatria)

 

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) aproximadamente 300 milhões de pessoas no mundo têm depressão, e pelo menos 30% da população mundial sofrerá algum episódio de depressão ao longo da vida. A depressão atinge todas as faixas etárias, inclusive crianças e adolescentes. E embora esse tipo de doença seja habitualmente diagnosticada na vida adulta, estudos apontam que aproximadamente 50% dos adultos portadores de depressão relataram início dos sintomas antes dos 18 anos.
 
Fatores de risco que estão relacionados com o desencadeamento da depressão é a carga genética (a presença de depressão em um dos pais é um importante fator de risco, sendo que a história familiar para depressão aumenta o risco em pelo menos três vezes) e também os estressores ambientais, como abuso físico e sexual, e perda de um dos pais, irmão ou amigo íntimo.
 
A psiquiatra Dra. Júlia Faleiros explica que associado a isto, os adolescentes são um público vulnerável por estarem em um período de transição da infância para idade adulta, quando se deparam com mudanças corporais (incluindo alterações hormonais).
 “São mais impulsivos, se iniciam insatisfações com o corpo, questões sobre sexualidade, necessidade de desenvolvimento da autonomia, dificuldade em lidar com frustrações, além da pressão pela escolha da carreira e por um bom desempenho escolar e também é nesta fase que acabam entrando em conflitos com os pais”, destaca.

 

Segundo Dra. Júlia, os sintomas da depressão em adolescentes (a partir de doze anos) são semelhantes aos dos adultos. No entanto, adolescentes deprimidos não estão sempre tristes; apresentam-se principalmente irritáveis e instáveis, podendo ocorrer crises de explosão e raiva em seu comportamento. “Há também perda de energia, apatia e desinteresse importante, retardo psicomotor, sentimentos de desesperança e culpa, perturbações do sono, principalmente hipersonia, alterações de apetite e peso, isolamento e dificuldade de concentração”, salienta.
 
Outras manifestações são o prejuízo no desempenho escolar, a baixa autoestima, as ideias e tentativas de suicídio e graves problemas de comportamento, especialmente o uso abusivo de álcool e drogas. “Há diferença dos sintomas entre adolescentes do sexo feminino e masculino. As meninas relatam mais sintomas subjetivos, como sentimentos de tristeza, vazio, tédio, raiva e ansiedade. E tem mais preocupação com popularidade, menos satisfação com a aparência e baixa autoestima. Já os meninos relatam mais sentimentos de desprezo, desafio e desdém, e demonstram problemas de conduta como: falta às aulas, fugas de casa, violência física, roubos e abuso de substâncias. Destaca-se que o abuso de álcool na adolescência pode ser um forte indicador de depressão”, alerta Dra. Júlia.
 
A psiquiatra explica ainda que em crianças e adolescentes há uma taxa maior de comorbidade, com outros transtornos psiquiátricos do que em adultos deprimidos. Os transtornos mais comuns relacionados são transtorno de ansiedade, transtorno de conduta, transtorno de déficit de atenção, transtornos por uso de substâncias e os transtornos alimentares.
Reconhecer a depressão na adolescência é mais difícil porque muitas vezes emanam sinais silenciosos, que podem passar despercebidos, além de que nessa fase, grande parte dos adolescentes muda seu comportamento naturalmente, o que pode refletir em maior isolamento e para essa situação ser considerada normal e saudável, precisa vir intercalada com momentos de convívio”, observa Dra. Júlia.
De acordo com a psiquiatra, após os pais reconhecerem estes sinais, o mais importante é procurar ajuda de um profissional especializado. “Uma das recomendações atuais da Associação Americana de Pediatria é justamente o maior envolvimento da família no mundo do jovem, e um dos primeiros passos é desvinculá-lo do termo aborrecente”, ressalta.
 
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O PAPEL DA ESCOLA E OS CASOS DE BULLYING

 
Dra. Júlia afirma que a escola faz parte da rede de apoio de um adolescente, além de ser um local onde ele passa grande parte de seu dia. “A escola é importante na detecção dos sinais da doença e também após o diagnóstico de depressão. Na detecção, pois as manifestações aparecem também no âmbito escolar, principalmente na mudança de comportamento, adolescentes que antes se relacionavam bem começam a ficar quietos, isolados, ou apresentam irritabilidade e ocorrem quedas de notas”, afirma. 
De acordo com a psiquiatra, é importante que a escola esteja atenta a estas alterações de seus alunos e, além disso, que consiga observar fatores que podem estar relacionados ao desenvolvimento destes comportamentos, principalmente o bullying. 
“A escola não pode ser omissa diante destes casos. É fundamental que a escola aja como um facilitador entre pais e alunos para encaminhar, orientar e resolver a questão. As escolas devem ajudar os alunos com diagnóstico de depressão incentivando-os, ajudando-os a encontrar o prazer pela aprendizagem, estimulando a autoconfiança e encorajando-os. Além de trabalhar com possíveis preconceitos e estigmas que possam existir”.
 
Dra. Júlia afirma que o bullying está intimamente relacionado com o desencadeamento da depressão, e que o bullying não pode ser visto como uma brincadeira ou provocação natural entre crianças e adolescentes, e merece atenção para ser prevenido e combatido. “A prática do bullying pode ocorrer da forma direta, quando a agressão é feita contra o seu alvo por meio de apelidos, exclusão do grupo, agressão moral, física; ou indireta, envolvendo furtos, fofocas e o cyberbullying, aquele que usa a internet, celular e outros meios do mundo digital para divulgar as ofensas. As provocações podem começar presencialmente e evoluir para o ambiente virtual. E as agressões ocorrem com a criança que usa óculos, o gordinho, o estudioso, o mais fraco”, observa Dra. Júlia.
As consequências na vida destes adolescentes, segundo a psiquiatra, são visíveis, tanto na vida pessoal como na vida escolar, e levam para sua vida adulta. “Os adolescentes podem manifestar baixa autoestima, dificuldade nas relações amorosas e profissionais, e ter pensamentos suicidas, além de apresentarem Transtornos Ansiosos, Transtorno por Estresse Pós-traumático (TEPT) e a Depressão”, pondera. 
Sobre o tratamento destes pacientes é necessário que se faça uma avaliação detalhada para que se obtenha uma compreensão clara do caso e dos possíveis desencadeantes. Que se tenha uma avaliação médica para afastar possíveis causas orgânicas para o aparecimento dos sintomas.
“Em alguns casos leves pode ser indicada apenas a psicoterapia, mas o melhor tratamento é aquele que considera múltiplas abordagens. A psicoterapia é fundamental para que os adolescentes aprendam a lidar com os sentimentos, frustrações, perdas ou acontecimentos dolorosos que possam ter originado a depressão. E em alguns casos é necessário que a escola receba orientações e que os pais também façam acompanhamento psicológico”, ressalta a psiquiatra.
 
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O RISCO DO SUICÍDIO

 
O tratamento medicamentoso em casos moderados e graves é necessário e traz respostas efetivas ao quadro clínico do paciente. A Organização Mundial de Saúde (OMS) relata que o suicídio é a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 24 anos de idade. Nem todos os casos de suicídio, entretanto, estão ligados à depressão. Porém, o que se pode afirmar é que a depressão não tratada aumenta significativamente as chances da pessoa cometer o suicídio. 
As taxas de suicídio entre crianças e adolescentes têm subido significativamente. De 2000 a 2015, as mortes desse tipo aumentaram 65% dos 10 aos 14 anos e 45% dos 15 aos 19 anos. 
Quanto ao método empregado pelos adolescentes, aproximadamente 65% são cometidos com armas de fogo, seguido pelo enforcamento, saltos e intoxicações. E nas tentativas de suicídio 80% ocorrem através de intoxicações, seguido de corte nos punhos.
“A maioria dos adolescentes que cometeram suicídio o fez de modo impulsivo e frequentemente se encontravam intoxicados (álcool e drogas) no momento de sua morte. O suicídio é três a quatro vezes mais comuns em garotos do que em garotas, enquanto que as tentativas de suicídio são duas a cinco vezes mais comuns nas garotas”, explica Dra. Júlia.
 
A psiquiatra destaca ainda que é importante ficar atento a algumas frases dos jovens, como ‘ninguém se importa se estou vivo ou morto’, ‘queria desaparecer’ ou ‘melhor seria se eu morresse’, podem demonstrar sofrimento e um sentimento de angústia insuportável que podem estar relacionados ao pensamento e ideação de morte. “É importante lembrar que a maioria das manifestações das doenças mentais (não somente da depressão mas também da mania, psicose, crise de pânico, restrições alimentares e contato com uso de substância) se apresentam primeiramente na adolescência. E as famílias precisam estar atentas ao comportamento destes adolescentes e se caso for notado mudanças, não tenham receio de procurar ajuda profissional”.
 
Dra. Júlia Faleiros diz que por muitas vezes as famílias estão envolvidas de muito medo do diagnóstico, do tratamento medicamentoso e de preconceitos que ainda existem em relação aos transtornos mentais. “Entretanto, o tratamento trará muito mais consequências positivas com melhora da qualidade de vida dos pacientes, melhora no relacionamento interpessoal e o adolescente poderá voltar a desfrutar das boas experiências que esta fase lhe proporciona”, finaliza. 
 
 
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Renato Rodrigues Delfraro

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