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Setembro de 2010

ESPANHA De volta à dura realidade

Mais unida pela alegria da vitória no futebol como uma só nação, a Espanha acordou com a dor de cabeça dos que festejaram muito, mas que sabem que vão ter pela frente agora os problemas que a Copa do Mundo permitiu esquecer por algum tempo. Na ressaca, reaparece o gosto amargo de uma economia com um crescimento zero previsto para este ano (se não for negativo). O desemprego beira 20% da força de trabalho, um índice que atinge o dobro entre jovens. Pacotes de austeridade lançados pelo governo para equilibrar as contas públicas trazem arrocho salarial, aumento de impostos e reformas nas leis de trabalho. Mas o medo do agravamento da crise, persiste.

Puyol (esq.) e Xavi (dir.) desfi lam com bandeira da Catalunha (região separatista).
Puyol (esq.) e Xavi (dir.) desfi lam com bandeira da Catalunha (região separatista).

A Espanha viveu um período recente de boom econômico, movido à especulação mobiliária. Mas a bolha estourou em 2007 e lançou o país num aperto, que piorou quando o mundo entrou em crise financeira e os investimentos cessaram. A maior parte das exportações espanholas vai para os vizinhos europeus, também sufocados. O governo se endividou para tapar os buracos, o que elevou a dívida pública e o déficit, gerado a cada ano por gastos maiores que a arrecadação de impostos.

Este quadro gerou desconfiança entre os investidores de que poderia haver negociação forçada da dívida, ao estilo do que ocorreu na América Latina nos anos 80. Esta percepção ainda não se desfez. Cresce também a desconfiança de que bancos espanhóis estejam sobrecarregados de empréstimos concedidos à quem não pode pagar. O agravamento de problema semelhante na Grécia, este ano, estimulou mais ainda o medo de avanço da crise na Espanha, cuja economia tem peso para abalar (pelo menos) os vizinhos europeus.

O PIB espanhol, em torno de 1 trilhão e meio de dólares, é do tamanho equivalente ao do Brasil. Quase 20% dele se origina da Catalunha, alimentando as reivindicações de mais autonomia para a região. O País Basco e a Galícia, outras regiões com movimentos pró-autonomia, contribuem menos para a economia nacional. Como um país que adota o Euro, a Espanha não pode apelar para remédios tradicionais, como alterar taxas de juros ou desvalorizar a moeda, decisões hoje exclusivas do Banco Central Europeu, com base nas necessidades do grupo como um todo. As autoridades econômicas europeias e o mercado financeiro privado pressionaram o governo socialista espanhol a adotar medidas de austeridade para conter os gastos públicos, com aumento de impostos e reformas trabalhistas. E dedos cruzados para que a medicação dê certo. No entanto, economistas de renome, como os do Prêmio Nobel Paul Krugman e Joseph Stigles, alertam para o oposto. Sustentam que medidas deste tipo vão provocar ainda mais recessão, dificultando a recuperação econômica da Espanha e de outros países que adotam a mesma receita.

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Murilo de Pádua Andrade Filho
Professor de Geografia em Passos, Franca e Ribeirão Preto

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