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Junho de 2012

O maior sorriso do mundo

para Nhonhô, meu pai.

Era um menino que comprava dentes.

Calma, caro leitor. Sei que a frase colocada assim de supetão, à maneira de um antigo feitor manejando seu chicote, choca. Paciência. Às vezes, esse escribatário domingal invade vossa privacidade de maneira rude e bruta, estando ele, portanto, mais para um símio iletrado do que propriamente para um sapiens decaído da árvore dos conhecimentos.

Destarte, assinada, carimbada e reconhecida a fi rma no cartório das boas maneiras, dou-me ao trabalho de pedir-vos novo deferimento neste frontispício quase canibalístico.

Comecemos de novo.

Era um menino que ajudava o pai. O pai era dentista protético, fabricante de dentaduras e sorrisos escancarados. E o menino, nesses modos de ajudar, ia ao bazar comprar os dentes que o pai especifi cava num papel. No meio do caminho da cidade (e a cidade se chamava Passos), o menino aproveitava para estilingar dois ou três dragões imaginários. Enquanto sonhava em ser marinheiro, piloto de avião, jogador de futebol. Ou, quem sabe, escritor.

Chegando ao bazar da cidade, que se chamava Americano (e vendia desde fogões e geladeiras a cianinhas de renda, tapetes, talheres, panelas, cristais e botões de marfi m), o menino apresentava o papel ao dono do bazar. E enquanto o homem virava as costas para procurar as plaquinhas de cera (onde os dentes vinham incrustados conforme a cor, a posição e o tamanho da boca), o menino namorava a vitrine dos livros.

É necessário explicar que esse menino, até então, só tinha uma coleção de gibis e um livro de histórias, além das cartilhas escolares. E seu livro de histórias, de tanto manuseio, já começava a desbotar as letras e as fi guras.

“Todo livro é de quem precsa dele”, já disse um carteiro-poeta... Certo dia, fazendo um inventário de suas pequenas coisas (par de sapatos, roupa de domingo, suspensório, estilingue, coleção de tampinhas, borboletas, besouros, cigarras, fi gurinhas, marcas de cigarro; bola de cubertão, arapuca de taquara para pegar bruxas e duendes, alçapão de arame para pegar fantasmas, pintassilgos no quintal, canarinhos na goiabeira, perereca no brejo, espada, cavalo de vassoura, arco e fl echa, máscara do Zorro e outros badulaques), o menino chegou à conclusão de que precisava de um novo livro de histórias.

Mas, no caminho de volta, constatou também que, para conquistar a moreninha que morava no fi nal da rua (aquela que alimentava seus melhores sonhos durante as noites repletas de bandidos do Wyoming e índios Apaches), precisava comprar também um anel de bijuteria.

Estava resolvido: com o primeiro dinheiro que ganhasse compraria um anel para Mary McGregor, fi lha do rancheiro Ross McGregor, de Topeka Creek. (Na verdade, ela se chamava Fatinha e seu pai era um simples alfaiate).

Chegando em casa, entregou os dentes para o pai. E fi - cou admirando seu ofício. Como um artista cuidadoso, o pai ia esculpindo incisivos, caninos e molares num molde de cera montado sobre o gesso. Depois – sempre assobiando – prensava a dentadura e a levava numa panela para ferver. Após a fervura o pai derretia a cera, remoldando tudo em acrílico cor de rosa, uma massa que se parecia com chiclete e à qual, às vezes, dava vontade de mastigar.

O melhor de tudo, porém, era o ato fi nal: colocar a dentadura na boca do banguela. E esperar o pai dizer:

– Tonico, dá cá o espelho!

Sei que um livro pode fazer a gente sorrir. Ou também chorar. Mas quem já pôs uma dentadura nova, e se olhou no espelho, sabe: aquele sorriso é, na verdade, o primeiro. É o maior sorriso do mundo. E nele, fatalmente, cabem mais de vinte anos.

De modo que o pai, satisfeito com o trabalho – e como sempre fazia – deu pra ele uns cobres. O menino não pestanejou. “Vou comprar o anel da Fatinha e conquistar, para sempre, o seu coração...” – pensou.

Porém, no meio da pedra tinha uma esquina. E no meio da esquina um atalho: “Melhor comprar um novo livro de histórias... Ou quem sabe, de poesias? Copio um poema, mando pra ela. E para sempre cativo o passarinho do seu coração...” – poetou o menino.

Mas no meio do atalho, quase às portas do bazar, havia também uma mendiga velhinha e esfarrapada que lhe pediu esmolas. Entre o anel e o livro, o coração do menino estacou. E sem pestanejar ele entregou a ela os seus trocados.

Em troca, recebeu um sorriso banguela. E fi cou a vida inteira pensando que a felicidade é uma coisa que não precisa de dentes. A fome é maior que os livros. E talvez, bem maior que o amor de uma morena que morava no fi nal da rua.

por Antonio Barreto

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