Educação

Você está em: Home, Educação, Minha Profissão

Outubro de 2012

Minha Profissão

Meu futuro

Neste novo projeto da FOCO MAGAZINE - Minha Profissão, Meu Futuro - cada mês será abordada uma profissão diferente, trazendo um pouco da experiência de profi ssionais sobre suas carreiras, o momento em que fizeram a opção, como foi o curso e como está o mercado atual. Estreiamos, nesta edição, a editoria EDUCAÇÃO com o assunto Odontologia e quem colabora com a FOCO e os estudantes que se preparam para fazer vestibular, são os dentistas Edvar Batista de Andrade, especializado em ortodontia, e Randolfo Lemos Vasconcelos Júnior, cirurgião buco-maxilo-facial e implantodontista.

Histórias de vida de profissionais que estão no mercado atual de trabalho ajudam vestibulandos na hora de fazerem a escolha de suas carreiras.

ODONTOLOGIA

Área que evoluiu, mas que ainda é difícil. Dentistas renomados de Passos contam suas experiências, falam sobre a realidade da profi ssão e orientam os vestibulandos sobre a escolha da carreira.

Até mesmo antes de iniciar o 3º ano do ensino médio e, em muitos casos, o cursinho pré-vestibular, os estudantes enfrentam um dilema natural: que carreira seguir? A escolha de uma área errada pode signifi car o abandono da faculdade no meio do curso, desperdício de dinheiro e até trauma. Quem persiste pode se tornar um profi ssional frustrado, insatisfeito e, claro, mal sucedido, sem um bom emprego ou uma boa clientela. No Guia de Profi ssões da Unesp (Universidade Estadual Paulista) – uma das principais universidades públicas do país –, uma orientação básica para os vestibulandos: “Entre tantas opções, boa informação e autoconhecimento são essenciais para a melhor escolha”.

Entre a engenharia e a odontologia

Primeiro dentista especializado em ortodontia de Passos, Edvar Batista de Andrade tem 38 anos de carreira - na especialidade são 33. Dois de seus filhos (Patrícia e Rodrigo) seguiram seus passos e hoje são responsáveis pelo Centro Ortodôntico em que trabalham com o pai. Natural de Alterosa e vindo de uma família de produtores rurais de classe média, Edvar é o único dentista de um total de 12 irmãos. O que o levou a escolher a área odontológica foram a infl uência de seus primos dentistas e a proximidade com Alfenas - cidade próxima de Alterosa onde já havia um curso federal na área.

O cirurgião buco-maxilo-facial e especialista em implantes Dr. Randolfo Lemos Vasconcelos Júnior: 25 anos de carreira.
O cirurgião buco-maxilo-facial e especialista em implantes Dr. Randolfo Lemos Vasconcelos Júnior: 25 anos de carreira.

Até decidir pela “odonto”, Edvar Batista de Andrade pensava em fazer engenharia, porque tinha facilidade com matemática. Mas os primos dentistas o convenceram a fazer odontologia, embora reconhecesse sua falta de habilidade manual, requisito para trabalhar com os instrumentos e materiais num consultório odontológico. Durante o curso, o então estudante descobriu que basta uma boa prática para conseguir manusear pinças, espátulas, seringas e demais instrumentos. “Mas isso tudo no curso a gente aprende, treina. Tudo que a gente quer, a gente consegue”, disse. 

Para Edvar Andrade, qualquer pessoa pode ingressar e ser bem sucedida na profi ssão que quiser, basta ser dedicada nos estudos e ter disposição para trabalhar. “A pessoa tem que ter em mente que, quando escolher uma profi ssão, deve exercê-la com dedicação. Tudo que fi zer bem feito vai ter sucesso”, orienta.

Quando Edvar Andrade fez o vestibular, há mais de 40 anos, havia apenas três candidatos por vaga e a profi ssão tinha um grande mercado pela frente, porque estavam em alta as clínicas populares. Tanto é que todos que se formavam já saíam contratados para trabalhar. E Edvar foi um deles: trabalhou para um primo em São José do Rio Preto durante um ano. Depois montou uma clínica em Catanduva. Ambas no interior do estado de São Paulo.

O ortodontista Dr. Edvar Batista de Andrade: 38 anos de carreira e 33 anos na especialidade. Foi o primeiro ortodontista de Passos.
O ortodontista Dr. Edvar Batista de Andrade: 38 anos de carreira e 33 anos na especialidade. Foi o primeiro ortodontista de Passos.

Depois de cinco anos como clínico geral e já fazendo especialização em ortodontia, por indicação de um colega de Itaú de Minas, o dentista passou a atender também em Passos, até se estabelecer defi nitivamente na cidade, onde foi recebido de braços abertos pelos colegas e pela população, onde se tornou o primeiro a trabalhar com os aparelhos ortodônticos, usados para tratamento de função e estética. 

Embora fosse de uma família de classe média, o então estudante teve que conciliar o curso com trabalho em outras áreas para dar conta de comprar o material de estudo. Os instrumentos são caros e têm que ser comprados pelo aluno. Dois fatores, no entanto, o ajudaram a reduzir as despesas: por ser federal, o curso era gratuito, e a residência era na casa de seus parentes em Alfenas. Os “bicos” como frentista num posto de combustíveis em fins de semana e, depois, como contador no mesmo estabelecimento, a convite do patrão que sabia que ele era técnico em contabilidade, o ajudaram a pagar os custos.

A especialização em ortodontia começou em 1980, numa época em que era oferecida por poucas universidades. Novamente Edvar seguiu a orientação de terceiros. Um colega que trabalhava próximo a seu consultório o incentivou e, quando abriu um curso na Universidade Camilo Castelo Branco, em São Paulo, ele fez a prova, passou e começou a estudar novamente. Sacrifícios também não faltaram: alto custo e viagem toda terça-feira a São Paulo, depois de um dia de trabalho no consultório que já possuía em Passos.

.

Segundo Edvar Andrade, embora dê para um dentista trabalhar somente como clínico, é bom se especializar em uma área. “Você tem que procurar alguma coisa que te traga mais autoestima, porque na clínica geral é muito cansativo”, disse observando que um clínico bem preparado abrange outras áreas (estética, endodontia, que é o tratamento de canal, etc). “Da faculdade você sai habilitado para trabalhar em qualquer área”, observa. 

Em relação ao mercado, o dentista explica que existe espaço para todos e que o sucesso depende da capacidade de cada um, do esforço e da relação com o cliente. As técnicas odontológicas de 38 anos atrás evoluíram ao mesmo tempo em que mais gente está usando os serviços dos dentistas. “O povo tem mais condição e mais consciência de que precisa melhorar, precisa ter uma estética boa, uma mastigação correta, não pode ter problema de morder errado, de não ter boa oclusão, isso aí traz problemas como dores de cabeça, dificuldades de fala e respiração, dentre outros.

A escolha da faculdade, para Edvar Andrade, não é tão importante quanto o interesse do aluno. Segundo ele, a qualidade da instituição representa apenas 30% da técnica adquirida, o restante depende do universitário. “Porque se ele não estudar, se ele não for um bom aluno, se ele não for dedicado, não precisa tentar que ele não vai”, disse, citando quatro características de um bom profi ssional: conhecimento (preparo, especialização); trabalhar com afinco, cumprindo os horários com os clientes (não ter preguiça); tratar bem o cliente, mas sem bajulação; ter como meta principal o trabalho bem feito, porque o dinheiro vem naturalmente.

.

Fazendo seu próprio horário de trabalho 

Cirurgião buco-maxilo-facial e especializado em implantes, Randolfo Lemos Vasconcelos Júnior formouse em odontologia há 25 anos, na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo). Essa não foi sua primeira opção profi ssional. Por gostar de esportes e notícias, Dr. Randolfo chegou a pensar em fazer educação física ou jornalismo. Mas, na época, segundo ele, havia quatro áreas consideradas básicas no ensino superior: medicina, odonto, engenharia e computação. Incentivado e aconselhado pela família, e também por seu próprio interesse em ser um profi ssional liberal, para ditar seu próprio horário de trabalho, o jovem préuniversitário, então com 17 anos de idade, fez vestibular para a USP e para a Unesp e passou.

Por ter feito o terceiro colegial no COC (Colégio Oswaldo Cruz) em Ribeirão Preto e por causa da proximidade dessa cidade com Passos, Dr. Randolfo escolheu a USP. Ainda em sua época, o curso era de quatro anos, em período integral, em que passava o dia todo na escola, onde também tomava o café da manhã, almoçava e jantava.

Por estudar numa instituição pública, gratuita, o ainda universitário conseguiu bancar os custos com material de estudo e com alimentação. Esta era barata, por ser fornecida na própria universidade. O instrumental de consultório, que é de custo elevado, ele conseguiu comprar e o próprio consultório - com o qual trabalha até hoje - foi comprado pelo pai (conhecido por Chumbinho), que conseguiu um bom dinheiro ao vender um passarinho num torneio de bicudos e curiós.

O curso na Usp foi “muito bom”, segundo recorda Dr. Randolfo, fazendo, no entanto, uma pequena ressalva: “A faculdade de Ribeirão Preto tem uma formação muito boa, básica. Talvez deixasse a desejar um pouco na parte clínica. Foi até um dos motivos que, quando eu terminei minha graduação, fi quei mais três anos me especializando”, disse, contando que passou um ano na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), fazendo cirurgia, onde trabalhou e adquiriu muita experiência e conhecimento no pronto socorro, e, depois, mais dois anos de residência em Ribeirão Preto, também em cirurgia.

Dr. Randolfo também fez estágio em Bauru, no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (Centrinho), da USP, que faz tratamento de pessoas com deformidades congênitas labiopalatais. Também no Centrinho, o dentista fez um curso de atendimento a pacientes especiais, que lhe permite prestar um serviço social que já dura 20 anos em Passos. “É o que mais me gratifica profissionalmente”, disse o dentista, que hoje é membro do corpo clínico da Santa Casa de Passos e da American Dental Association.

A exemplo do que disse seu colega Edvar de Andrade, Randolfo Vasconcelos conta que os dois primeiros anos do curso de odonto são básicos, teóricos, sem contato com pacientes. É a partir do terceiro ano que ocorrem as aulas práticas.

Sobre a especialização em uma área, o dentista diz ser importante para um profissional, porque amplia o conhecimento na área escolhida e lhe permite uma diferenciação no mercado de trabalho. Sobre a implantodontia, ele observa qua não havia especialidade nessa área naquela época, mas um periodontista ou cirurgião estava apto a fazer implantes.

Apesar de destacar a especialização, o dentista tece elogios a colegas antigos, que se formaram e iniciaram a profi ssão com pouco material para estudar e, mesmo assim, prestaram e alguns ainda prestam um serviço de alta qualidade. “Esses não tinham a ferramenta de internet, de livros, que os profi ssionais de hoje têm. Eles faziam uma odonto de alto nível, trabalhavam e trabalham até hoje”, analisa.

O que o cirurgião está querendo dizer é que um profi ssional não deve ter em mente, num primeiro plano, o dinheiro, mas a boa formação, o compromisso com os clientes e o trabalho social, que se torna uma gratifi cação pessoal.

.

Do alto de seus 25 anos de trabalho, todos eles ao lado de sua mulher, a periodontista Alessandra Gomes de Carvalho Vasconcelos, Dr. Randolfo observa que o atendimento por convênios e em clínicas populares, embora dêem muito trabalho, não resultam numa boa compensação financeira. Esta só vem, segundo ele, por meio dos estudos para a especialização. 

De acordo com Randolfo Vasconcelos, a principal preocupação hoje em dia é com a estética, através das especialidades em dentística, prótese, implantodontia e ortodontia. “Algumas especialidades estão em baixa em razão da mudança na conscientização dos hábitos para uma boa saúde bucal. Infelizmente, muitos dos profi ssionais que a gente conversa não estão muito satisfeitos com a remuneração que se tem. Mas, na minha opinião, Passos possui alguns especialistas que são excelentes e expoentes em suas áreas”, analisa.

Portanto, para quem pensa em fazer odontologia, é bom se preparar bem durante o curso e avaliar com cuidado o mercado de trabalho antes de escolher uma especialidade. Porque aquela que está em alta hoje poderá estar em baixa no futuro. Para Dr. Randolfo, a implantodontia tem um prazo de validade que se esgota em cerca de 20 anos. A explicação é de que as pessoas estão cuidando melhor dos dentes hoje em dia e, certamente, o Brasil não terá tanta gente precisando de implante futuramente.

Enio Modesto.

© Copyright 2013 Foco Magazine

by Mediaplus