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Dezembro de 2012

Minha Profissão - Meu Futuro

Histórias de vida de profissionais que estão no mercado atual de trabalho ajudam vestibulandos na hora de fazerem a escolha de suas carreiras.

Dra. Tassiane Cintra de Alvarenga Oliveira – que fez residência em clínica médica e está se especializando em endocrinologia.
Dra. Tassiane Cintra de Alvarenga Oliveira – que fez residência em clínica médica e está se especializando em endocrinologia.

Para ser um bom médico, é preciso muito empenho para se manter bem informado a respeito de medicamentos e equipamentos adequados tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento dos pacientes. Quem fala sobre essa profi ssão nesta edição da FOCO MAGAZINE são as médicas: Dra. Maria Lúcia Pereira – ginecologista, obstetra e mastologista e Dra. Tassiane Cintra de Alvarenga Oliveira – que fez residência em clínica médica e está se especializando em endocrinologia. Elas contam como se interessaram por essa disputada área e também como estão na carreira, hoje.

Vocação já na infância

Ao contrário da maioria dos pré-universitários, que vivem o dilema sobre a carreira de nível superior a qual pretendem seguir, a ginecologista, obstetra e mastologista Maria Lúcia Pereira já sabia o que queria desde a infância. Ela viu sua avó sofrer de câncer de mama e decidiu que, quando crescesse, queria uma profi ssão a qual a ajudasse a cuidar de pessoas. Com admiração pela medicina, Maria Lúcia começou a nutrir o sonho de ser médica e não poupou esforços para realizá-lo. Aos 12 anos de idade já trabalhava num consultório de um dentista, seu primo; aos 14 anos trabalhou como caixa num supermercado, onde permaneceu até completar o segundo grau (hoje, ensino médio). Embora visse o primo atender no consultório odontológico, a menina não se encantou com essa carreira e continuou almejando a medicina.

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A entrada precoce no mundo do trabalho tem uma explicação: a família era numerosa e todos tinham que trabalhar. Seus pais, José Vitor Pereira e Terezinha Pereira, tiveram nove fi lhos. O que acabou contribuindo para que, a hoje médica, desenvolvesse uma boa relação interpessoal e habilidades no atendimento a pessoas. 

Enquanto trabalhava, Maria Lúcia estudava com dedicação, mas não revelava para ninguém a profissão a qual pretendia seguir. A médica explica ter agido assim por saber que as condições para o ingresso na faculdade não eram tão favoráveis, visto que estudava em escola pública e a família não dispunha de recursos sufi cientes para bancar um cursinho preparatório e muito menos a faculdade. Seu pai havia lhe aconselhado a fazer enfermagem em Passos, mas a garota sequer pensou em se inscrever para o vestibular.

“Naquela época a gente não tinha uma visão fi nancista da medicina, tanto que até a minha fase de terminar a faculdade a gente não pensava no mercado de trabalho e se tal especialidade renderia mais ou menos ganhos. A gente seguia direcionado pelo desejo pessoal. Hoje eu penso que quem entra numa faculdade deve ter uma melhor formação sobre gestão de negócios e sobre o mercado. Na minha formação não havia nenhuma disciplina que tratasse deste assunto”, disse. Contando ter cogitado o serviço social como uma segunda opção, caso não passasse para medicina.

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Acalentando o sonho, Maria Lúcia passou a juventude estudando à noite e trabalhando oito horas por dia até passar num concurso estadual na área da saúde. Após terminar o segundo grau, a jovem pediu transferência do serviço público para Belo Horizonte, onde pretendia fazer o cursinho pré-universitário, já que a escola pública não havia lhe dado base suficiente para enfrentar um vestibular tão concorrido quanto o de medicina. 

A vida na capital apresentava muitas difi culdades: cursinho pela manhã, trabalho à tarde, com a noite exclusiva para estudos até a meia noite e ainda aproveitando os finais de semana para colocar a matéria em dia. Mas valeu a pena! A jovem estudante passou nos exames e foi estudar na Faculdade de Medicina de Pouso Alegre, no Sul do estado.

O início do curso não causou tanto impacto na vida de Maria Lúcia, porque ela já havia enfrentado muitas adversidades em Belo Horizonte, onde sempre mudava de residência e vivia apertada financeiramente, embora contasse com a ajuda da família e o programa de custeio do governo (na época, Crédito Educativo). Em Pouso Alegre, a jovem se sentia um pouco mais em casa, porque a cidade tinha o porte de Passos e lá residiam conterrâneas, com as quais chegou a morar em repúblicas de estudantes.

As aulas, no entanto, às vezes eram difíceis, com muitas disciplinas que mal davam tempo para o aluno se preparar para as provas, segundo recorda. “A gente queria estudar tudo, ler o livro todo, igual era na época do cursinho e aí não dava tempo. Então, o primeiro ano é meio pesado nesse sentido, porque é preciso se adaptar a uma nova rotina e mudar a forma de estudar, ficando mais seletivo e amadurecendo”, explica.

Apaixonada pela profissão, a médica fala do começo das aulas práticas, no primeiro ano de faculdade, com o estudo de anatomia, em que alguns colegas tinham receio de lidar com cadáver e outros choravam de tanto estresse. Tratava-se apenas de uma primeira impressão, já que depois todos se adaptam e passam a estudar sem problemas. “Medicina é um curso no qual, mesmo se você não fosse trabalhar com ele, só a vivência que é conhecer a anatomia e funcionamento do corpo humano, só por esse lado, já valeria a pena”, justifica.

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“No terceiro ano, com o início do atendimento aos pacientes em ambulatórios e hospitais, já nos sentimos um pouco médicos, passando a usar uniforme branco, estetoscópio e outros equipamentos básicos, o que torna tudo muito mais interessante”, disse. 

O custo do material didático, com livros muito caros, também dificulta a vida de estudantes com poucos recursos financeiros. Maria Lúcia, então funcionária pública do Estado, tinha um pequeno rendimento e, mesmo com certa dificuldade, conseguiu levar o curso adiante, contando sempre com o apoio familiar.

Depois de formada, a jovem médica fez dois anos de residência no hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, fase em que literalmente residia no hospital, e além do alojamento, fornecia todas as refeições e uma bolsa a qual permitia sobreviver com o dinheiro da medicina, possibilitando abandonar o emprego do Estado.

Para complementar a formação, Maria Lúcia se ingressou no IBCC (Instituto Brasileiro de Controle do Câncer), em São Paulo, para um curso de aperfeiçoamento em cirurgia pélvica oncológica e mastologia, onde ficou por três anos. Essas especialidades foram escolhidas depois de muita reflexão, que teve como base a forma pela qual a médica pretendia exercer a profissão. “A medicina oferece um leque imenso de opções”, disse, explicando ter escolhido essas especialidades por conciliar o atendimento em consultório e cirurgias, podendo trabalhar de forma mais completa. Hoje, Maria Lúcia atende em seu consultório particular, atende no Promai (Programa Materno-Infantil) da Santa Casa e para o Município de Passos. Ela defende uma relação mais humanística do profissional com o paciente, para se obter uma melhor avaliação do seu quadro de saúde e evitar possíveis problemas éticos e até processos judiciais, que aumentaram nos últimos anos, dificultando muito a relação médico-paciente.

Aos pré-universitários que escolheram ou ainda pensam fazer medicina, a médica diz que o fundamental é “não pensar somente na questão financeira, porque senão, será um médico frustrado: hoje não se compra mais fazendas com dinheiro de medicina e, embora seja uma profissão que proporcione um bom rendimento mensal, é necessário muito trabalho e muita disponibilidade. Outro ponto positivo, é que ainda se consegue ingressar no mercado de trabalho em qualquer lugar, seja nos grandes centros ou no interior, principalmente trabalhando em esquema de plantões”, disse.

Admiração pelo papel do médico na sociedade

Tassiane Cintra de Alvarenga Oliveira se graduou em medicina no ano de 2008 pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e, depois de fazer residência em clínica médica na Escola Paulista de Medicina (Unifesp), atualmente se especializa em endocrinologia pela USP (Universidade de São Paulo), na capital. Dra. Tassiane é filha de um conhecido cardiologista de Passos, Dr. Walter Alvarenga, que sempre despertou sua admiração pela carreira, fator que a levou a decidir, ainda criança, o que queria ser quando crescesse.

“Nunca pensei em outra carreira. Desde criança já sabia que seria médica. Meu pai é médico e sempre tive muita admiração pela sua vocação, dedicação e amor à profissão. Na escola, tive mais interesse pela área biológica, principalmente biologia e fisiologia do corpo humano. Minha personalidade é curiosa e comunicativa, gosto de lidar com pessoas, de desafios, diagnósticos e do milagre da vida. Enfim, com certeza, a escolha foi principalmente por vocação, mas também por admirar o papel do médico na sociedade: a compaixão, a solidariedade, o cuidar do próximo, o respeito; o retorno financeiro também é satisfatório na profissão”, justifica Tassiane, completando que nem sempre existe toda esta certeza em relação à escolha da profissão, como aconteceu no caso dela.

A médica concorda com a dificuldade na qual passa muita gente no momento em que tem que escolher a carreira profissional. Ela cita um exemplo bem próximo dela, seu irmão Renan, que se formou em direito na UNESP, foi aprovado na OAB, e após alguns meses trabalhando na área decidiu que queria ser médico. Após 8 meses de intenso estudo e dedicação foi aprovado no vestibular mais disputado do Brasil, a FUVEST, e atualmente cursa medicina da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto). “Aprendi com ele que para concretizar um sonho, basta ter a capacidade de sonhar, acreditar e lutar por ele”, disse.

Como a Dra. Maria Lúcia, Tassiane Alvarenga também não se importou muito com as dificuldades pertinentes ao curso de medicina, de tempo integral e que demanda muito estudo e dedicação, além da saudade de casa, o que é um desafio e tanto para quem ainda estava na faixa dos 18 anos de idade. “A felicidade de ter sido aprovada em um curso tão disputado e almejado fez com que os desafios se tornassem pequenos diante de tanta novidade e expectativa”, disse, acrescentando que responsabilidade e organização são primordiais para ser um bom estudante e ainda conseguir tempo para o lazer, ir a festas, se divertir e até viajar.

As aulas práticas na Universidade Federal de Uberlândia ocorrem já no primeiro período, com atividades em hospitais e unidades básicas de saúde. Sobre as “temíveis” aulas de anatomia, a Dra. Tassiane confi rma o que muito aluno passa nos primeiros contatos com o cadáver, principalmente até se acostumar com o cheiro forte do formol. “Mas depois é fascinante. Ao fi nal da faculdade, temos o costume de homenagear o cadáver pelo grande aprendizado e experiência proporcionados”, conta.

O percentual de desistência de estudantes durante o curso de medicina varia entre 5 e 10%, segundo Tassiane Alvarenga, que se baseia em dados referentes à média da somatória entre universidades públicas e privadas. A carga horária pesada, muitas provas, atividades práticas e, principalmente, a falta de vocação leva alguns alunos a abandonarem o curso. “A medicina, algumas vezes, é uma profi ssão idealizada pelos pais que transferem este sonho para seus filhos”, comenta.

Mas quem tem vocação e quer entrar nessa área deve seguir os exemplos de Maria Lúcia e Tassiane, que se esforçaram e hoje realizam o sonho de infância. “Persistência e dedicação. Acho que são duas grandes palavras para o estudante de medicina. Não apenas as aulas de anatomia, as lâminas de histologia, entender toda a fisiologia, mas também as várias noites sem dormir que virão no início por causa das provas e, depois, pelos plantões”, aconselha Tassiane.

Depois da graduação, o novo médico ainda terá dois desafios: decidir em que deseja se especializar e conseguir a vaga. “Talvez, as provas de residência representem o maior dos desafios!!!! Hoje não existem, no Brasil, vagas de residência médica para todos os médicos que se formam. Assim, na hora que o curso acaba, começa outro vestibular! Ou seja, é importante lembrar para os futuros médicos que o estudo não acaba nunca”, adverte, observando que o fundamental diante disso tudo é aquela “sensação de poder ajudar o próximo, seja salvando uma vida ou simplesmente aliviando o sofrimento diante de uma doença.”

Tassiane Alvarenga escolheu a endocrinologia por ser uma especialidade ambulatorial, pela qual se analisa o paciente na sua totalidade, do ponto de vista metabólico e hormonal, por causa dos diagnósticos desafiadores e interessantes, segundo avalia, por permitir trabalhar com adultos e crianças e também pelo poder de controlar melhor o horário de atendimento. “É uma ótima especialidade para quem quer construir uma família, pois permite não dar tantos plantões noturnos e ter uma agenda flexível”, explica.

Aos estudantes pré-universitários que se preparam para o curso de medicina, a Dra. Tassiane encaminha uma mensagem, citando o médico canadense William Osler (1849-1919): “O médico tem que curar algumas vezes, aliviar muitas e consolar sempre.”

Ainda com o diploma de graduação cheirando a novo, Tassiane Alvarenga homenageia as principais pessoas que contribuíram com seu curso de medicina. “Gostaria de agradecer a oportunidade de contar um pedacinho da minha história. E, mais uma vez, agradecer meus pais Walter e Heloisa, meu noivo Willian, e meu irmão Renan, pelo apoio e amor incondicional nesta caminhada”, encerrou.

Enio Modesto

CURSO

Medicina

ÁREA

Ciências Biológicas

HABILITAÇÃO

Médico

ONDE ESTUDAR

Entre as universidades públicas, as que mais se destacam na área de medicina são a USP (Universidade de São Paulo), a UNICAMP (Universidade de Campinas), UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), a UNESP (Universidade Estadual Paulista), a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul. As PUCs (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas e Rio Grande do Sul são as melhores entre as particulares.

Mas cuidado: vários cursos estão na mira do MEC (Ministério da Educação), alguns suspensos e outros com redução de vagas. Saiba quais no site www.guiadoestudante.abril.com.br/supervisao- cursos-mec.

Sugestão de site para os pré-vestibulandos: www.escolasmedicas.com.br

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