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Abril de 2013

Bastidores de uma Paixão

Um elenco formado por mais de 100 atores e atrizes; uma equipe técnica composta por 50 integrantes; uma história emocionante uma das mais conhecidas do mundo. Assim é o espetáculo 'Paixão de Cristo', que vem sendo encenado em Passos, ao ar livre, há mais de 20 anos.

 

Para o diretor, é preciso que elenco esteja “contaminado” pelo espírito da peça.
Para o diretor, é preciso que elenco esteja “contaminado” pelo espírito da peça.

Bastidores de uma “Paixão”

Um elenco formado por mais de 100 atores e atrizes; uma equipe técnica composta por 50 integrantes; uma história emocionante – uma das mais conhecidas do mundo. Assim é o espetáculo “Paixão de Cristo”, que vem sendo encenado em Passos, ao ar livre, há mais de 20 anos.

Este ano, a peça foi encenada na Estação Cultura, no período de 27 a 29 de março, com realização da Prefeitura Municipal de Passos – através do Departamento de Cultura da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer (Secel) – e produção e montagem da Associação Regional de Desenvolvimento Cultural (Adesc).

Ao assistir e se emocionar com a peça, o público não faz ideia do imenso trabalho para que espetáculo tão grandioso se concretize. A reportagem da Foco acompanhou os bastidores da “Paixão”, revelando um pouco desse enorme trabalho despendido para viabilizar a peça.

Durante duas décadas, a peça foi dirigida por Gustavo José Lemos. Com o falecimento dele, em 2011, a “Paixão” passa agora a ser dirigida por um dos seus discípulos – o ator e diretor teatral Maurílio Romão.

Produtora Isabella Vieira, ator Valdony Amorim e diretor Maurílio Romão conversam sobre detalhes do espetáculo.
Produtora Isabella Vieira, ator Valdony Amorim e diretor Maurílio Romão conversam sobre detalhes do espetáculo.

Maurílio conhece a “Paixão” como a palma de sua mão. Atuou como ator, assistente de direção, foi co-diretor (em 2011, com Gustavo José Lemos; e, em 2012, com Caju Ribeiro) e, este ano, assumiu sozinho a direção. Uma responsabilidade e tanto. Mas, no comando dos atores, ele conta com a assistência do ator Thales Di Carmo e, na produção técnica, com o trabalho de Isabella Vieira.

“O mais difícil é concatenar as ideias, acertar o ritmo de todo mundo, porque o tempo de contaminação não é igual para todos. Assim, quando parte do elenco está contaminada com o espírito da peça, o restante também vai entrando no clima”, diz Maurílio, para quem as cenas mais complicadas de dirigir são as de volume (de maior número de atores em cena).

E o diretor usa o termo “contaminar” para reforçar a importância do envolvimento dos atores com a peça, com o clima, com o espírito da “Paixão”, enfim, a importância do “contágio” entre eles mesmos até que todos passem a falar a mesma língua.

Thales Di Carmo e Maurílio discutindo sobre pontos do cenário.
Thales Di Carmo e Maurílio discutindo sobre pontos do cenário.

Mas, falar a mesma língua não é fácil. A “Paixão”, por ser uma peça que envolve um grande elenco, registra certa rotatividade de atores, de ano para ano. Assim, muitos dos novos atores e figurantes ficam “meio perdidos” quando o diretor dá seus comandos durante os ensaios.

No início, alguns dos jovens atores ficam a olhar uns para os outros, sem entender bem o que o diretor quer dizer com cada comando. Mas, com o passar dos dias, eles vão se acostumando, entendendo melhor o que o diretor indica com cada comando. Para isso, nada melhor que a experiência de alguns veteranos. Este ano, o núcleo-base da montagem foi formado pelo pessoal da Trupe Ventania de Teatro, que está com Maurílio há mais de um ano.

Processo por osmose

“Abra a cena; puxe o pessoal para o fundo; energia aqui; mais tônus de lá”, orienta o diretor – sempre fazendo uso de um sistema de som (microfone e caixa de som). Sua voz é ouvida até por quem está fora do antigo prédio da Estação Cultura, local que vem se firmando como palco da “Paixão” e onde, também, ocorrem os ensaios.

Montagem da estrutura externa.
Montagem da estrutura externa.

A intenção é dar ritmo ao espetáculo. “Aos poucos, a voz de comando é ingerida, gerida e digerida internamente por todo o elenco, e vamos conseguindo o nosso objetivo, que é colocar todos no mesmo tempo, no mesmo ritmo”, observa Maurílio, completando: “É um processo por osmose”.

O diretor atua como um maestro regendo uma grande orquestra. Só que, em vez de conseguir o entrosamento de músicos, Maurílio “afina” um elenco teatral. A prova de fogo acontece dois dias antes da estreia, quando Maurílio coordena um ensaio técnico e um ensaio geral.

No ensaio técnico, toda a equipe técnica tem de estar a postos e preparada para entrar em ação no tempo certo, conforme prevê o roteiro da montagem. “Temos de ter um só entendimento, porque o funcionamento de toda a parafernália de som, luz e palcos depende do nosso entrosamento”, observa Maurílio. Portanto, são necessárias várias reuniões, nas quais os detalhes são discutidos exaustivamente.

Montagem técnica de som.
Montagem técnica de som.

Depois de “afinada” a parte técnica, Maurílio faz um grande ensaio geral. Ao ser indagado se apenas um ensaio geral não é pouco, ele responde: “É pouco, mas muitos atores trabalham à noite e até aos finais de semana; outros estudam. Então, temos que fazer acontecer com apenas um ensaio geral”, frisa o diretor do espetáculo.

Mas, o que parecia impossível, acontece: os atores e os técnicos falam a mesma língua regida pela gramática do diretor. “É questão de paciência e persistência”, observa Maurílio. Os ensaios são feitos por núcleo – no total, são 12 núcleos (Batismo, Sermão da Montanha, Santa Ceia, por exemplo); somente ao final é que o diretor reúne todos, no ensaio geral.

O diretor optou pelo ensaio por núcleo por dois motivos: primeiro, é que muitos atores e atrizes estudam e/ou trabalham à noite, o que impossibilita reunir todos os mais de cem integrantes num mesmo dia e horário. O outro motivo é que alguns participantes são de outras cidades, como Itaú de Minas (como é o caso do ator Valdony Amorim, que faz o papel de Jesus); de São João Batista do Glória; de Alpinópolis e até de Franca (SP). “Estamos conseguindo transformar a Paixão num espetáculo regional, o que é muito interessante e um sonho que perseguimos há muito”, diz Maurílio.

Esse ensaio por núcleo é importante porque serve para trabalhar marcação, deslocamento em cena e interpretação, por exemplo. Já o ensaio geral serve para “dar conjunto” ao espetáculo. “Assim, durante os ensaios dos 12 núcleos, temos de fazer com que a nossa ideia seja ingerida, gerida e digerida pelo elenco todo”, enfatiza o diretor.

Ritmo frenético

Os ensaios eram feitos quase que todos os dias, inclusive aos sábados e domingos. Nos dias de semana, o grupo ensaiava das 19h às 22h; e, aos sábados e domingos, das 14h às 19h, com apenas um intervalo para o lanche. É um ritmo frenético de passar e repassar as cenas, burilar as interpretações até que todos fiquem afinados.

Mas, por que tantos ensaios se a peça é gravada? De fato, desde que passou a ser feita ao ar livre, a “Paixão” é gravada. Na verdade, os atores apenas dublam a própria voz gravada em estúdio logo no início dos ensaios. Entretanto, mesmo a dublagem tem seus segredos. E é por isso que a Adesc – responsável pela produção e montagem do espetáculo – realiza uma oficina de dublagem, para ensinar atores e atrizes a falar o texto no tempo certo.

É claro que não basta dublar, é preciso interpretar. É aí que entra o papel do diretor Maurílio Romão. “Tenho que olhar tudo – desde a postura do ator em cena até se um figurante está ou não cobrindo parte do foco daquela cena”, observa.

Normalmente, os ensaios começam em janeiro. Entretanto, este ano, por conta do processo de licitação, só puderam começar no final de fevereiro, informa a produtora da peça, Isabella Vieira, que também é presidente da Adesc. Tanto Maurílio quanto Isabella concordam que é necessário um tempo maior para cuidar do espetáculo, para que ele cresça ainda mais. Para eles, o ideal é que a “Paixão” fosse como o carnaval do Rio – “termina um e já começa a preparar o outro”.

Nos dias que antecedem a apresentação do espetáculo, o ritmo fica mais intenso. Somente a parte técnica – palcos, palácios, som e luz – demora uns cinco dias para ficar pronta. Por isso, é comum notar a presença de técnicos nas proximidades dos ensaios.

Números da Paixão

Este ano, foram usados mais de 100 metros de treliças para sustentar mais de 200 refletores. Para suportar os 250.000 watts de luz e 20.000 watts de som usados no espetáculo, a Prefeitura teve de fazer uma ligação extra de energia elétrica. “Temos uma boca de cena de 35 metros lineares”, diz Maurílio, justificando o uso de tantos equipamentos.

Para se ter uma ideia da grandeza do espetáculo, foram montados dois palácios, cuja altura superou a do prédio da Estação. Um dos dois “edifícios” usou palco rotatório, o que também exigiu ensaio. “Pela primeira vez, tivemos ensaio de cenário”, sublinhou Maurílio.

Somado aos dois palácios, o público pôde ver, também, um pequeno lago implantado no pátio gramado, simbolizando o Rio Jordão, onde Jesus foi batizado por João Batista. As arquibancadas foram montadas na frente das chamadas “Casas da Estação” – um conjunto de cinco imóveis instalado do lado superior do monumento.

Isabella, que coordena a produção do evento, disse que para facilitar o trabalho o pessoal é dividido em equipes. “Assim, temos equipes de figurinos, cenários, adereços, materiais de cena, iluminação e sonorização, cadastro de elenco, divulgação e produção externa”, conta a produtora.

No caso do figurino, por exemplo, a maior parte dos trajes é cedida pela Prefeitura; outra parte é customizada pela equipe de figurinistas da Adesc, formada por atores que aprendem, em oficinas, a reaproveitar o material. A Adesc também reaproveita boa parte dos cenários e dos adereços, o que contribui para reduzir custos.

Este ano, o papel principal (Jesus) foi interpretado pelo ator Valdony Amorim, de 26 anos, que trabalha na Votorantim Cimentos, em Itaú de Minas. No ano passado, o ator havia atuado na “Paixão”, só que interpretando um dos sacerdotes do Sinédrio. Como brinca Maurílio, ele passou de algoz a herói.

IMAGEMDurante os ensaios puxados, Valdony e Maurílio
Durante os ensaios puxados, Valdony e Maurílio.

Papel principal

Valdony disse que interpretar o papel foi, para ele, “uma experiência incrível, porque a Paixão é uma peça que tem uma energia muito forte”. Para o ator, a cena da Santa Ceia é o momento mais marcante da peça: “É um momento que me toca muito.”

E a preparação do ator? Muita concentração tanto no texto, como na marcação de cena e nos comandos do diretor. “Mesmo assim, dá um frio na barriga quando tenho de entrar em cena”, diz Valdony, que teve de colocar aplique nos cabelos e perder seis quilos para fazer o papel. “Mas, valeu a pena”, concluiu o ator.

Reportagem: José dos Reis Santos

Fotos: José Reis Santos e Adesc

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