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Nov/Dez 2019
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Homem

Prisioneiros

  • O que será que eles fizeram? Quais crimes terão cometido para serem sumariamente trancafiados?

    A cidade os observa em suas celas e questiona perplexa: será que merecem o castigo que lhes foi imposto?

    Silenciosos, presos atrás das grades como criminosos imóveis, os manequins das nossas lojas responderiam, se pudessem, que não, claro que não!

    Paralisados ali, eles representam a população que, acuada ante o avanço da violência e da criminalidade, também se tranca em suas celas particulares.

    São um monumento, bem vestidos, da tragédia urbana que vivemos.

    Então no escuro da noite, incapazes de expressar sentimentos em seus rostos rígidos, reclamam entre si de sua sina nefasta: passar a vida como elegantes prisioneiros condenados por um crime que não cometeram.

    É lastimável acompanhar o surgimento dessas cadeinhas com nomes chamativos ao longo das ruas de maior movimento. As grades têm uma linguagem eloquente que choca frontalmente com o esforço de marketing que as empresas implementam e com o investimento em publicidade ao longo de anos. E dizem com todas as letras: Não entrem aqui! É um contra-senso justificado pela incompetência dos responsáveis em debelar a onda crescente de criminalidade que nos assola.

    Como em toda situação de exceção alguém tem que pagar, mesmo que os culpados continuem livres, então que se prendam os pobres manequins, inclusive os menores de idade, que aqui não tem isso de maioridade penal, não! Tolerância zero. E por toda a cidade se veem jovens, homens, mulheres, crianças e famílias inteiras atrás das grades.

    Todos eles estáticos, inexpressivos, nos oferecendo muito mais que uma opção de roupa para a estação que se aproxima, mas um panorama da nossa própria condição perante a realidade e a comunidade.

    Calados, eles nos enviam uma mensagem de cuidado, muito cuidado, senão um dia, poderemos acabar como eles, apáticos observadores do mundo por detrás das grades que nós mesmos construímos. Nem sempre tão bem vestidos...

    por Magela Oliveira

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