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Janeiro/Março 2020
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Comunidade

Professora aposentada luta para recuperar Capela Rural

  • Uma capela da Paróquia Nossa Senhora de Fátima na zona rural de Passos, em situação de ruína, pode ser revitalizada com a união da comunidade católica.

    Waldira e Donizete em frente à capela do Bom Jesus do Livramento conversam sobre a mobilização pela obra.
    Waldira e Donizete em frente à capela do Bom Jesus do Livramento conversam sobre a mobilização pela obra.

    Uma professora aposentada do ensino fundamental, que lecionou por quase dez anos numa pequena escola da região de Toledos, zona rural de Passos, iniciou uma mobilização para recuperar a capela do Bom Jesus do Livramento, da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima. O teto da sacristia já foi ao chão, o forro e o telhado do prédio estão em situação de ruína, mas a igrejinha ainda pode ser revitalizada e voltar a ser um centro de integração entre produtores e moradores da localidade, através de missas, batizados e até casamentos. 

    O pároco da comunidade, padre Eduardo Pádua de Carvalho, aprova a iniciativa e diz que irá participar da mobilização e, junto com o Conselho Administrativo da paróquia, irá promover uma discussão para encontrar a melhor forma de arrecadar dinheiro para a obra e decidir como a capela será revitalizada. Poderá ser uma simples reforma ou restauração arquitetônica. “Quando a comunidade toma a iniciativa é porque se trata de uma comunidade madura”, elogia o religioso.

    A sacristia que servia de refeitório e dormitório para os padres está sem teto há anos.
    A sacristia que servia de refeitório e dormitório para os padres está sem teto há anos.

    A iniciativa é da professora Waldira Reis Pereira, proprietária de um sítio vizinho da capela do Bom Jesus do Livramento e uma espécie de guardiã do local. Isto porque o recinto traz profundas e boas recordações para ela, que participou ativamente da vida religiosa e comunitária proporcionada durante anos pela igrejinha. Embora tenha uma casa na cidade, dona Waldira gosta mesmo é de ficar na roça, onde morou com o marido, José Pereira dos Reis e os filhos. 

    Hoje, segundo ela, a vida religiosa local se resume aos terços e à catequese, que ela faz com as crianças da roça, no que ainda resta da capela. “Todo segundo sábado do mês, eu preparo os meninos para a primeira eucaristia. Nos quartos sábados, nós rezamos o terço com a comunidade. Fazemos também o ‘Dia das Crianças’, a festa junina, as quadrilhas”, disse.

    No passado, as atividades eram mais diversificadas e atraentes, segundo recorda a professora, proporcionando um ambiente saudável de confraternização entre produtores e trabalhadores rurais. “Era uma comunidade rural imensa, com várias colônias. Ali, na igreja, reuniam-se quase 500 pessoas para rezar”, explica, dizendo que o monsenhor Matias (José Maria Matias), pároco da comunidade de Nossa Senhora da Penha, à qual pertencia a igrejinha do Bom Jesus do Livramento, celebrava missas, batizados, primeira comunhão, crisma e até casamento.

    Waldira e Donizete no altar da igreja, onde ela ainda faz a catequese com as crianças.
    Waldira e Donizete no altar da igreja, onde ela ainda faz a catequese com as crianças.

    Entretanto, com o passar dos anos, as pessoas foram deixando a comunidade, algumas fazendas trocaram de dono e a vida social foi minguando. A igreja também sofreu as consequências dessas alterações, começando pela queda do teto da sacristia, da qual só restam as paredes. 

    Era na sacristia que o monsenhor Matias repousava nos fins de semana em que passava na comunidade, realizando os sacramentos cristãos. “O padre dormia e tomava café na sacristia, era eu quem arrumava o quarto dele”, disse Waldira, explicando também que era ela quem preparava as pessoas para a primeira comunhão e para a crisma, nos três dias por semana em que passava no sítio da família.

    Terras pertenceram ao Coronel Zarião

    A capela do Bom Jesus do Livramento fica no bairro rural de Toledos, a aproximadamente 40 quilômetros da cidade, numa região em que predominam a criação de gado leiteiro e de corte e lavouras típicas, como milho e feijão, às margens do Rio Grande. Segundo Waldira Pereira, as terras para a construção da igrejinha foram doadas por dona Ximica (Maximina Rosa de Lima), viúva do Coronel Azarias José Lemos, o “Zarião”, da fazenda Marrecas.

    Na época, a capela pertencia à Paróquia de Nossa Senhora da Penha, tendo sido dedicada (inaugurada) em 23 de abril de 1960 pelo bispo diocesano D. Frei Inácio João Dal Monte. Dois meses antes de completar cinco anos, a igreja ruiu por falha de construção, segundo registros no livro de tombo da paróquia da Penha, que cobre o período de 30 de julho de 1958 a 8 de janeiro de 2003.

    Os bancos também precisam de reforma ou até serem substituídos.
    Os bancos também precisam de reforma ou até serem substituídos.

    A capela foi ao chão na madrugada do dia 17 de fevereiro de 1965, conforme diz o livro: “O povo sentiu um profundo abalo com esse desastre. Capela bonita, confortável, encantadora, que desapareceu num instante”. Mais adiante, a publicação prossegue informando: “As imagens, algumas ficaram intactas e outras foram destruídas com o peso das paredes.”

    Como Dona Waldira deseja fazer hoje, o templo do Bom Jesus do Livramento foi reerguido no mesmo ano de 1965 por esforço de dois moradores, Gastão Toledo e Pedro Bernardes. “E assim, depois de alguns meses de serviços, ela surge novamente bela e encantadora para grande alegria de todos os moradores do Bairro de Toledos”, diz o livro de tombo da paráquia da Penha.

    Comunidade mobilizada

    O corretor de imóveis e criador de gado Donizete Vilela, e membro do Conselho Administrativo da paróquia de Nossa Senhora de Fátima, apoia a moradora no projeto de recuperar a igreja. Os dois mostram a situação precária do recinto, principalmente o teto, que está com várias partes do forro corroídas, com a fiação elétrica à mostra e a sacristia a céu aberto. “Estou ajudando a mobilizar as pessoas para contribuírem com a reforma porque a igreja é um ponto de encontro da comunidade”, disse.

    O forro do telhado da igreja está corroído em vários lugares e ameaça desabar.
    O forro do telhado da igreja está corroído em vários lugares e ameaça desabar.

    Também estão mobilizados os irmãos Heraldo e Geraldo Vieira Maia, cuja família é tradicional na produção rural – são filhos de Geraldo Ferreira Maia e netos do Comendador Francisco Avelino Maia, que dá nome a uma das mais importantes avenidas da cidade. “Eu acho que se cada um contribuir um pouquinho não irá pesar para ninguém”, comenta Heraldo. “É bom ter a catequese para os meninos, porque a participação da criança na igreja, desde cedo, é muito bom”, diz Geraldo.

    “Eu fui, quando menino, a muitos terços e nem cabia todo mundo lá na igreja”, lembra Sebastião Roberto Torres, mecânico de máquinas da fazenda dos irmãos Maia. Sua mulher, Valdirene Valéria Dias Torres, e a filha Vitória Valéria Torres, de 12 anos, também concordam com a revitalização da igreja do Bom Jesus do Livramento. “Para mim é uma excelente ideia, porque a gente precisa de um ponto de referência com Deus”, disse a mãe, explicando que assim cria-se um vínculo entre a comunidade.

    Pensamento semelhante tem Rosane Goulart, que trabalha para a família de Geraldo Maia em serviços gerais. “Acho legal. Tem que continuar”, opinou, dizendo que frequentava as missas e que hoje, sempre que pode, participa dos terços.

    Geraldo Maia e Rosane também apoiam a obra pelo bem da comunidade.
    Geraldo Maia e Rosane também apoiam a obra pelo bem da comunidade.

    Padre Eduardo irá reunir a comunidade

    O padre Eduardo Pádua de Carvalho também apoia a reforma ou restauração da capela do Bom Jesus do Livramento e diz que irá tomar as providências logo após a inauguração de outra igreja rural, também no Bairro de Toledos, mas dedicada ao Bom Jesus da Lapa, que também foi recuperada por iniciativa popular.

    Segundo o padre Eduardo, essa capela irá completar 100 anos em 6 de agosto, mas a celebração, que irá reunir as pessoas que nasceram ou que moraram na comunidade, será realizada em 4 de agosto, porque irá cair num domingo, quando as famílias têm mais facilidade de se reunir.

    Valdirene com a sua filha Vitória desejam a recuperação da Igreja.
    Valdirene com a sua filha Vitória desejam a recuperação da Igreja.

    “Sobre a capela do Bom Jesus do Livramento, eu vou reunir o Conselho Administrativo da paróquia, juntamente com a senhora Waldira, para tratar da obra. Vamos ver quem poderá contribuir, como engenheiro, arquiteto, eletricista, que colaboram com nossa paróquia e nunca cobraram um centavo”, explica o padre, que é responsável também pelas igrejas da Sagrada Família (no Bairro Nossa Senhora de Fátima), São Gabriel (Usina Rio Grande) e Nossa Senhora do Carmo (na comunidade de Bragança).

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