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Nov/Dez 2019
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Saúde

Câncer de Mama - Um problema que afeta gerações

  • A notícia de que a atriz Angelina Jolie retirou os seios em maio deste ano como uma forma de prevenção para o câncer de mama repercutiu de maneiras diferentes entre as mulheres; seria este o único modo de prevenir a doença? Como saber quem está no grupo de risco? A mastectomia é realmente a melhor opção nestes casos?

    Dra. Maria Lúcia Pereira - Mastologista
    Dra. Maria Lúcia Pereira - Mastologista

    Muitas mulheres veem no câncer de mama uma preocupação extra; elas não possuem a doença, mas incomoda-lhes um possível risco de desenvolvê-la. Como prevenção, tomam as medidas básicas: alimentação saudável, atividade física regular, evitam álcool e nicotina, realizam o auto exame regularmente. Mas recentemente, uma forma bem mais radical de se prevenir o câncer de mama chamou a atenção em todo o mundo: a atriz norte americana Angelina Jolie divulgou ter se submetido a uma dupla mastectomia preventiva (retirada das mamas bilateralmente em mulheres de alto risco, porém sadias) em um procedimento que diminuiu em mais de 90% os riscos da atriz desenvolver a doença.

    Histórico familiar e genética

    Angelina perdeu a mãe para o câncer em 2007 e, após descobrir um defeito no gene BRCA1 (breast cancer 1), não quis correr o risco. Mas nem todo tumor tem como causa a genética. A mastologista Dra. Maria Lúcia Pereira explicou que as causas do aparecimento de um câncer podem ser tanto hereditárias quanto adquiridas; as alterações adquiridas, também chamadas de mutações, podem ser determinadas por vários fatores, entre eles, a exposição a hormônios (estrogênios), irradiação da parede toráxica, excesso de peso, sedentarismo, ingestão de gorduras e álcool.

    Dr. Diogo Almeida Lima - Cirurgião plástico
    Dr. Diogo Almeida Lima - Cirurgião plástico

    Já o câncer de mama hereditário, que corresponde a 5% dos casos, aparece quando a mulher (ou mesmo o homem) possui falha nos genes BRCA1 ou BRCA2. Estes genes estão envolvidos na manutenção da integridade do genoma. Caso haja mutação em algum deles, poderá haver falha nesta integridade celular, levando ao câncer. Nas mulheres portadoras de falha no BRCA1, o risco de desenvolver câncer de mama aumenta com o passar dos anos. Estudos referem taxas de risco de, aproximadamente, 3% aos 30 anos, 19% aos 40 anos, 50% aos 50 anos, 54% aos 60 anos, 85% aos 70 anos. Além disso, mutações neste gene aumentam de 15 a 45% o risco de câncer de ovário.

    Câncer de mama desenvolvido

    Para a identificação de falha nos genes BRCA1 e BRCA2 é feito um teste genético que, segundo a Dra. Maria Lúcia, deve ser restrito às famílias de alto risco, após aconselhamento do médico geneticista. É um processo demorado, de alto custo, que não pode ser feito em nenhum laboratório de Passos. Mesmo que se comprove a falha genética em um indivíduo, é necessário que o teste seja feito com os outros membros da família, pois o risco varia de pessoa para pessoa. Ter somente um parente com câncer não é sinal de risco, mesmo que este tenha diagnosticado a doença em idade jovem. A tabela abaixo mostra as pessoas a quem é aconselhável fazer o teste genético, sob orientação do geneticista:

     

    • 1 parente de 1º grau* que teve câncer de mama com menos de 30 anos
    • 2 parentes de 1º grau com câncer de mama, sendo um diagnosticado antes dos 50 anos
    • 1 parente de 1º grau e 1 parente de 2º grau** com câncer de mama, sendo que a soma das idades de diagnóstico dos dois é menor que 110
    • 1 parente de 1º grau e um parente de 2º grau com câncer de mama, um deles bilateral
    • 1 parente de 1º grau com câncer de mama e 1 parente de 1º grau com câncer de ovário, sendo que neste paciente o câncer de ovário foi diagnosticado em idade menor que 70 anos
    • 1 parente de 1º grau, homem, com câncer de mama
    • 2 parentes de 1º grau com câncer de mama, ambos diagnosticados antes dos 60 anos
    • 2 parentes de 1º grau com câncer de mama, um deles com câncer bilateral
    • 2 parentes de 2º grau, do mesmo lado genético (materno ou paterno), sendo que a soma das idades de diagnóstico dos dois é menor que 80
    • 2 parentes de 1º grau com câncer de ovário

    * parente de 1º grau: pais, filhos, irmãos. ** parente de 2º grau: tios, sobrinhos, primos, avós, netos e meios irmãos. Fonte: Sociedade Brasileira de Mastologia (www.sbmastologia.com.br)

    Origem do câncer de mama.
    Origem do câncer de mama.

    Optando pela mastectomia preventiva

    A mastectomia, adotada por Angelina Jolie, não é a única opção para quem é diagnosticado como portador de mutação nos genes BRCA1 e BRCA2. A Dra. Maria Lúcia diz existir inúmeros estudos com vários medicamentos visando diminuir o risco do câncer de mama, mas que ainda são bastante controversos. O principal medicamento estudado com este objetivo é o tamoxifeno, que apresenta diversos efeitos colaterais.

    Quanto à tão discutida mastectomia profilática, ocorre, com a realização da cirurgia, uma diminuição de 90 a 95% no risco de desenvolvimento do câncer de mama, porém não elimina completamente. Na mastectomia subcutânea bilateral, com preservação do complexo areolo-papilar, sempre haverá tecido mamário remanescente e, com isto, algum risco para o desenvolvimento do câncer. Estas pacientes devem ser monitoradas com o mesmo rigor, fazendo mamografi a anualmente para diagnóstico precoce, caso haja desenvolvimento de tumor. A Dra. Maria Lúcia ressalta que a mastectomia profi lática deve ser considerada pela paciente uma escolha e não uma indicação, sendo importante considerar o impacto psicossocial, lembrar da irreversibilidade e avaliar as limitações do resultado estético e seus riscos.

    A mastectomia adotada por Angelina Jolie não é a única opção para quem é diagnosticado como portador de mutação nos genes BRCA 1 e BRCA 2.
    A mastectomia adotada por Angelina Jolie não é a única opção para quem é diagnosticado como portador de mutação nos genes BRCA 1 e BRCA 2.

    Reconstrução da mama

    A reconstrução da mama pode ser feita de diferentes formas, dependendo principalmente do tipo de cirurgia (profilática ou para retirada de tumor). O Dr. Diogo Almeida Lima, cirurgião plástico, explica as possibilidades ao se reconstruir a mama. Segundo ele, “na mastectomia profi lática ocorre a retirada de todo tecido adiposo, glandular e os ductos da mama, preservando toda pele, a aréola e o mamilo quando possível. A reconstrução nesse caso tende a ser menos agressiva que nos casos de mastectomia por câncer, na qual a sequela deixada é maior por haver necessidade de retirada de faixa da pele e, em casos indicados, da aréola também”.

    Parte do processo de reconstrução da mama.
    Parte do processo de reconstrução da mama.

    Quando a reconstrução é feita devido a uma mastectomia profi lática, ambas as cirurgias podem acontecer em um mesmo momento, com a possibilidade de um resultado estético superior. Como opção de reconstrução tem-se o uso de implante de silicone, quando o volume da mama é menor do que 400 ml e tecido subcutâneo de boa qualidade. Se o volume de implante a ser usado for maior que 400 ml ou houver tensão ao se tentar fechar a pele, é indicado colocar um expansor de tecidos por um período de três a seis meses antes de se colocar a prótese defi nitiva. Outras opções incluem o uso de tecido da própria paciente, geralmente do abdome ou das costas para dar volume e forma à mama a ser reconstruída.

    Em qualquer cirurgia de retirada de mama, seja profilática ou devido a um tumor, sempre há receio em relação ao resultado estético final. Quanto a isto, Dr. Diogo afirma: “A reconstrução de mama atualmente apresenta excelentes e surpreendentes resultados, mas não se pode prometer que alcance a perfeição em forma, projeção, naturalidade e atração como da mama original.”

    Mama com inflamação característica da doença.
    Mama com inflamação característica da doença.

    A reconstrução imediata da mama é um direito que toda mulher tem ao se fazer uma cirurgia para retirada de câncer em hospitais que fazem parte do Sistema Único de Saúde (SUS). Se não for possível a cirurgia imediata, a paciente deverá então ser acompanhada e passar pela cirurgia plástica assim que suas condições clínicas permitirem. A legislação também assegura que o procedimento cirúrgico seja realizado pelo Plano de Saúde na qual a pessoa está conveniada. Em Passos, as cirurgias de câncer de mama e reconstrução são feitas na Santa Casa, através do Promai (Programa materno infantil).

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