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Nov/Dez 2019
 Nov/Dez 2019

Homem

Longe o suficiente

  • Ele não sabia onde queria chegar, mas sabia que queria ir longe, muito longe. Achava muito pouco conhecer apenas aquele pequeno pedaço deste mundo tão grande.

    Sonhava com lugares distantes dos quais só ouvira falar, e sua imaginação projetava paisagens deslumbrantes e cenários paradisíacos para todo lugar que não fosse aqui. Em sua mente, lá era sempre melhor, e lá, era para onde deveria ir. E foi-se num dia de manhã clara e aprazível, imaginando como seriam mais claras e mais aprazíveis as manhãs de lá. Sabia que lá era muito longe e para chegar longe o suficiente era preciso andar muito. Decidido, fincou pé na estrada e andou e andou e andou e tanto andou que acabou por encontrar a noite.

    Ainda resfolegante, ele foi logo perguntando:

    – Aqui é longe o suficiente?

    – E a noite, cheia de escuridão, respondeu com indiferença que não sabia, e como uma viúva guardando luto fechado se afastou arrastando seu longo manto negro salpicado de estrelas.

    A lua, que assistia tudo ali do alto, sorriu um sorriso minguante e percebendo a angústia do caminhante, tratou de acalmá-lo, sugerindo que ele descansasse, esperasse o alvorecer, e o sol, que sempre chega cedinho, certamente poderia lhe dar uma luz.

    Agradecido ele se acomodou como pôde e vencido pelo cansaço da longa jornada dormiu o sono dos justos até que os primeiros raios do sol cutucaram-lhe anunciando um novo dia. Estremunhado, ele se ergueu, ainda sob o torpor do sono e, piscando, olhou à sua volta. Tudo lhe parecia muito comum. As árvores, a relva verde, a encosta da pequena colina, o rio ruidoso na baixada, tudo era muito semelhante ao que ele conhecia. O sol já se impunha radiante e iluminava, orgulhoso, a paisagem. Então ele o encarou e questionou se ali ainda não era longe o suficiente.

    – Onde estou afinal? Perguntou com certa irritação.

    Porém a luz o sol ofuscou-lhe a visão e agora não via mais nada. Desesperava-se tateando, clamando socorro. O sol, embora compadecido, nada podia fazer, cada vez mais alto, mais distante e mais forte, queimando sua sina na fogueira eterna.

    Sem resposta, em sua cegueira temporária, percebeu que o excesso de luz, ao invés de ajudá-lo a enxergar, toldava sua visão e agora tudo que via era a própria luz, num borrão disforme, impregnada em sua retina. Assim não podia seguir seu caminho em busca de um lugar longe o suficiente, onde tudo era belo e a noite não era uma velha rabugenta e o sol, piedoso, não cegava as pessoas. Entretanto, o tempo, esse incansável professor, aos poucos foi restabelecendo sua visão e através de sucessivos encontros diários, acabou por fazê-lo amigo do sol, da noite e do dia. Agora, por onde andava, saudava a passagem das nuvens, o murmúrio dos rios, a sombra das árvores, a brisa e a chuva. Envolvido pelo poder da amizade e tomado de alegria, passou a achar tudo tão belo quanto naquele inalcançável lugar longe o suficiente que tão obstinadamente procurava. Então parou de procurar, quando percebeu que nenhum lugar é longe o suficiente de si mesmo.

    por Magela Oliveira

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