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ÁGUAS DA CANASTRA e suas histórias

  • ÁGUAS DA CANASTRA e suas histórias.

    Descobrir a origem da nomeação dos cursos d’água que compõem o Parque Nacional da Serra da Canastra, uma das maiores riquezas naturais do estado e do Brasil, é um desafi o que despertou o interesse da professora Gisele Ribeiro, que está desenvolvendo uma tese de doutorado com base nos nomes dos rios, cachoeiras, córregos e ribeirões da Serra da Canastra.

    De acordo com Gisele, que é coordenadora do curso de Letras da Fesp e professora do Colégio São Francisco - COC, a ideia de desenvolver um trabalho científico sobre a nomenclatura dos cursos d’água da Serra da Canastra, surgiu com o objetivo de unir dois temas que são do seu gosto: vocabulário e cachoeiras, que segundo ela, são duas grandes paixões em sua vida.

    “Através da minha tese de doutorado, pude unir o útil ao agradável. Na minha dissertação de mestrado, desenvolvi um glossário sobre o vocabulário rural do município de Passos. Depois dessa experiência, enxerguei a possibilidade de desenvolver um projeto maior (um glossário sobre cursos d’água) que envolvesse uma região bonita, cheia de histórias e lendas em relação à nomeação dos rios, cachoeiras, córregos e ribeirões”, ressalta.

    O título do trabalho, que será apresentado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é: “Hidronímia da Serra da Canastra: um estudo sociolinguístico na nascente do Rio São Francisco.”

    ÁGUAS DA CANASTRA e suas histórias.

    Segundo Gisele o processo ainda está em fase de coleta de dados, e até agora já foram contabilizados entre rios, córregos, cachoeiras e ribeirões cerca de 150 nomes.

    “É bom lembrar que estamos trabalhando com o Parque Nacional da Serra da Canastra, por isso esse número pode ser bem maior.”

    Sobre as etapas do projeto, Gisele explica que em uma primeira fase, foram coletados os dados em cartas geográficas do IBGE.

    Depois foram consultados mapas dos municípios que fazem parte do Parque.

    ÁGUAS DA CANASTRA e suas histórias.

    “Na terceira fase, fomos aos municípios e entrevistamos moradores para saber mais sobre a nomeação desses cursos d’água. Nesse momento queremos descobrir fatos culturais, curiosidades, histórias, tudo que envolva os nomes de cursos d’água daquela região. A partir dessas entrevistas descobrimos que muitos cursos d’água possuem dois nomes, outros mudaram de nome, não existem mais, entre outras coisas”, salienta.

    Sobre a contribuição que o trabalho dará para a preservação da história na região, Gisele acredita que examinar a técnica da nomeação de tudo que existe é viajar através do tempo e do espaço.

    “Assim é possível entender que, no processo de nomear, inserem-se a sabedoria e o conhecimento das gerações que ficaram cristalizados e eternizados. Preserva-se então o momento mágico em que os cursos d’água passaram a ser conhecidos por tal nome. Dentro da nomeação acontece um ‘nascimento’, uma identificação, uma singularização. É pela Palavra que esse fato se consolida. O que não era, passa então a ser”, observa.

     

    Gisele Ribeiro, coordenadora do curso de Letras da Fesp e professora do Colégio São Francisco - COC.
    Gisele Ribeiro, coordenadora do curso de Letras da Fesp e professora do Colégio São Francisco - COC.

    Curiosidades e lendas

    Entre os muitos nomes cuja origem será abordada e detalhada no trabalho, Gisele Ribeiro conta a história de um dos que mais lhe chamou atenção até o momento. “O nome Zagaia, por exemplo, tem uma história muito interessante. Os moradores do local contam que havia na região uma fazenda que era pousada para os caixeiros-viajantes. Eles passavam por ela quando iam vender seus objetos e depois voltavam com o dinheiro conseguido durante as vendas. É aí que a história fica interessante. Na ida não acontecia nada com eles, mas na volta eles eram assassinados durante o sono. Os bandidos da fazenda colocavam uma espécie de lança no teto cujo nome era Zagaia. Quando os viajantes deitavam, depois de um tempo, as lanças caíam sobre eles que morriam naquele momento. Os bandidos faziam isso para ficar com o dinheiro dos tropeiros. Isso durou até o dia em que uma escrava apaixonou-se por um deles e contou tudo pra ele. Ele seguiu viagem. Na volta, como ele já sabia do plano dos bandidos da fazenda, ele fingiu que ia dormir, fez o barulho no colchão de palha. A lança despencou, mas não o acertou. Ele então matou os bandidos da fazenda e denunciou o caso às autoridades. Assim contam os moradores da região, lendas circulam pelos quatro cantos da canastra sobre esta narrativa, cada qual com sua interpretação. O nome Zagaia aparece em córregos, cachoeiras e ribeirões”, finaliza.

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