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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

O alérgico é antes de tudo um forte! Atchim!

  • Só outro alérgico pode avaliar a coragem necessária para encarar as velhas páginas amarelecidas de um livro antigo, guardado há tempos numa estante empoeirada. Ele, o leitor alérgico, sabe o que vai enfrentar para percorrer aquelas folhas e seus agentes alergênicos escondidos sob letras e frases. Se por um lado é uma provação e até uma estupidez, por outro é uma forma de solidarizar-se com as agruras enfrentadas pelo protagonista da história de guerra que se desenrola sob seus olhos. E pior ainda: seu nariz.

    No trecho que está lendo agora, o soldado, em território hostil, se protege de um ataque aéreo; as bombas despencam dos aviões para cumprir suas sinas assassinas. Se o valente soldado encara a barbárie humana, o leitor aqui enfrenta a fúria invisível dos ácaros, sorrateiros inimigos que invadem suas vias aéreas enquanto ele cumpre a inevitável tarefa de respirar, inalando verdadeiras armas químicas – proibidas pela convenção de Genebra de 1955, portanto, ilegais. Mas é preciso perseverar e ambos, personagem e leitor, seguem na sua luta como bons soldados. E o melhor dos soldados, como assevera o general, é aquele que entra na guerra morto!

    Rajadas furiosas das metralhadoras inimigas matando tudo que se move força o nosso protagonista para os escombros do que fora, outrora, um rico casarão. Ele pode sentir o cheiro da morte, da pólvora queimada e dos seus inimigos que estão cada vez mais próximos. Do bolso da sua farda rota, ele tira a fotografia da mulher amada e a olha como se fosse pela última vez.

    Do lado de cá é a corisa a inimiga a ser vencida. Enquanto o nosso herói corre para escapar da sede de morte do exército rival, o leitor vai fungando pelas páginas como quem caminha por um campo minado e também pode sentir o cheiro de mofo que o tempo acumulou naquelas páginas cada vez mais instigantes. Lagrimejantes eles prosseguem.

    O corajoso soldado quer vencer a sua guerra e o outro, numa provação tão desafiadora quanto à primeira, quer terminar de ler o livro; ele vai resistir até o fim, como o soldado resiste sozinho para proteger a sua posição estratégica, tão importante para a ofensiva do seu exército, até chegarem os reforços. Lutando bravamente, ele acaba atingido, mas a bala maldita não é suficiente para derrubá-lo e mesmo ferido não esmorece em sua determinação de resistir. O fechamento de glote é uma realidade por aqui e assim como a esquadrilha aliada que surge, despejando suas tropas de pára-quedas, um corticóide chega como reforço imprescindível para o bom êxito dessa campanha.

    O livro e a guerra finalmente acabam. Aclamado como herói de guerra, nosso intrépido combatente é homenageado pela sua bravura e patriotismo no último parágrafo. Como não poderia deixar de ser, envergando seu melhor uniforme de gala, ao lado de sua amada, ele recebe orgulhoso a medalha de honra ao mérito no peito.

    E o leitor, chiando, vick vaporub.

    por Magela Oliveira

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