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Esperar pra que?

  • Esperar pra que?

     

    O senso comum afirma que “quem espera sempre alcança”, porém os filósofos, ao contrário do que diz o senso comum, não veem a esperança como uma bênção, mas sim como a maior de nossas adversárias, pois nos impede de apreciar, valorizar e vivenciar o que temos no momento e faz com que vivamos e estejamos sempre, na expectativa, na dimensão dos projetos, correndo atrás de sonhos e objetivos postos em um futuro distante.

    Demócrito em 450 a.c. já nos prevenia: “A esperança dos fatos é desprovida de razão e o sábio não necessita mais esperar, basta-lhe o presente.” Sua frase ecoou por séculos e Marx mais ou menos 2.500 depois retoma o tema e afirma que a esperança também é o ópio do povo, pois nos impede de sermos sujeitos da nossa história e nos torna objeto passivo à espera que as mudanças ocorram independente da nossa ação. Para ele o verdadeiro sábio não espera, faz.

    Epicteto também refletiu sobre o tema e nos alerta que: “A vida boa é vida sem esperanças e sem temores, e pois, a vida reconciliada com o que é, ser feliz é aceitar o mundo tal como ele é.” E nos aconselha a expulsar de nós “o espírito sombrio, que nos faz procurar fora de nós a felicidade, pois esta felicidade jamais poderá ser encontrada, uma vez que a procurando onde ela não está, deixamos de procurá-la onde a encontraríamos.”

    Lucrécio é enfático ao afirmar que: “As noites serenas são as noites sem esperança. A esperança é loucura. Nada a esperar de nada, mas também nada a temer.” Com esta afirmativa ele mostra que nós esperamos não só pelo bem, mas também tememos o mal, e ainda completa: “Esperar é temer, sentir-se frustrado... o caminho do inferno está calçado de esperanças frustradas e temores infundados” e conclui usando uma expressão proverbial na época: “A vida é tempestade de nossos sonhos. O porto seguro é não esperar.”

    Seguindo raciocínio parecido séculos depois, Spnosa conclui que: “Não há esperança sem temor, nem temor sem esperança.” Quem espera, no fundo, sempre teme que seus sonhos não se realizem e que ocorra o pior. O temor se torna para muitos uma prisão, e nossa imaginação que é prodigiosa corre solta, tanto fantasiando o paraíso como temendo o inferno. “Viciamos” em esperar o bem e temer o mal. Para ele a esperança é responsável por uma “tristeza extrema, falsos prazeres e verdadeiros tormentos.”

    Para Nietzsche, viver na dimensão da esperança é nos tornar “animais de carga”, temos que desenvolver o “amor fati”, o amor do real, tal como ele é. Segundo ele ao vivermos esperando por uma felicidade fugidia...”despachamos para o nada o nosso presente, embora ele seja a única dimensão real.“

    E para concluir uma frase de André Gide que sintetiza tudo: “O homem feliz é aquele que não tem mais nada a esperar.” Concordo completamente com ele, pois quem não espera nada é porque não sente falta de nada, ou seja, a esperança é a expectativa da felicidade e se eu espero pela felicidade significa que eu não a possuo, ou pelo menos não considero o que tenho hoje como motivo para ser feliz. Ou como argumentava Pascal: “Nós nunca vivemos, esperando viver e, dispondo-nos sempre a sermos felizes no futuro é inevitável que nunca o sejamos.” Ou ainda como dizia Camus: “Os tristes tem duas razões para serem infelizes, eles ignoram ou eles esperam.” Então... basta de esperar, pois como cantava Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

    por Gizele Rabelo

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