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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

Discriminação

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    Elas tinham entre 19 e 20 anos e se encontravam regularmente para conversar, entre gritinhos agudos e risinhos, sobre os homens, suas experiências, descobertas e namoros. E foi num desses encontros que ela confessou, constrangida, que nunca havia sido chamada de gostosa na rua.

    – Não é possível, espantou-se uma delas.

    – Tô boba, disse a outra, levando a mão espalmada ao peito.

    – Nem quando passa por uma construção? Questionou a terceira.

    – Só Fiu-Fiu!!!! Respondeu ela e cobrindo os olhos com as mãos, exclamou: – Que vergonha!

    Elas sabiam que um Fiu-Fiu não valia nada e solidariamente consolaram a amiga dizendo que ela não merecia ser tratada com essa indiferença, que todos os homens eram uns canalhas e, portanto, os únicos culpados pelo seu infortúnio. Mas suas palavras de apoio de pouco adiantavam, pois ela chorava convulsivamente sua desdita, praguejava contra suas formas e dizia que seria infeliz para sempre e nunca realizaria o seu sonho de ver um homem jovem e bonito olhar para ela e, fascinado, fazer um biquinho e com os dentes cerrados, puxar o ar fazendo aquele inconfundível “shhhhhhhhhh”, para só depois, descaradamente chamá-la de gostosa.

    As outras se sentiram úmidas e lamentaram a triste sorte da amiga dileta. Elas, que já haviam experimentado aquela sensação de prazer, perceberam, apenas pelo olhar que alguma coisa precisava ser feita urgentemente.

    – Isso não pode ficar assim, disse decididamente aquela que sempre tomava as decisões pelo grupo e com sua natural liderança declarou: – Vamos fazer um pacto. Nós vamos lhe ajudar e dentro de um ano você vai deixar de se sentir excluída. Mas você tem que aceitar nossa orientação e vigilância.

    Todas concordaram, inclusive a chorosa discriminada, que afinal, era a maior interessada e com um longo abraço coletivo selaram aquele compromisso.

    Nutricionista e dieta balanceada já no outro dia. Chocolates, quitandas e os refrigerantes tão admirados por ela foram sumariamente banidos. Sob a ostensiva vigilância das amigas foram imediatamente substituídos por alimentos funcionais, shakes, granola e muito farelo.

    Arrastaram-na para a academia, que ela sempre detestara. Com o incentivo das amigas ela suportava a tortura dos aparelhos e aos poucos notava seu suor se transformando em curvas, os músculos enrijecendo, a odiosa gordura desaparecendo e dando lugar às protuberâncias tão desejadas pelas mulheres e admiradas pelos homens. Era muito glúteo e muito leg-press de 180, infindáveis séries de abdominais, esteira e mais shakes e farelos até que um dia as amigas chegaram à conclusão que era hora de renovar o seu guarda roupa. Já haviam cuidado do corpo, agora precisavam vesti-la adequadamente. Quanto mais apertado e mais curto melhor e quando ela se viu no espelho grande da loja, depois de um instante de paralisia contemplativa, disse com decisão:

    – Tenho que ficar loira!

    Todas concordaram e se foram, em ruidosa procissão, para o salão de beleza. Dentro de pouco tempo, seus longos cabelos adquiriram o brilho do ouro e a leveza da seda e esvoaçantes, reluziram quando o sol os tocou, já na rua.

    Quis o destino, este fanfarrão, que seu sonho a tanto acalentado se realizasse logo ali, na frente de suas protetoras, justamente no instante que elas davam por terminada sua tarefa.

    Eis que um jovem, bem apanhado, se aproxima com seu carro e passando bem devagar perto dela, perscruta cada centímetro de seu corpo e fazendo um biquinho, cerra os dentes e suga o ar fazendo Shhhhhhhhh e dispara:

    – Oi gostosa! Coroando todo o seu empenho e determinação.

    Ela, extasiada, vendo o carro se afastar lentamente, memoriza a placa e depois, com a ajuda da internet, identifica o rapaz.

    E o processa por assédio sexual.

    Ninguém entende a cabeça das mulheres!

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