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Nov/Dez 2019
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Homem

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  • A culpa foi daquele menino alado que vive voando por aí, atirando setas imprecisas. Certa vez, aboletado no alto de um umbral, depois de ter voado o dia todo, quando já deveria dar-se por satisfeito, resolveu ainda flechar mais um coração. Puxou de sua aljava uma última seta, tensionou o arco e fechando um olho, mirou e disparou. A seta, sibilando, riscou o ar e ao invés do coração transitou o estômago do jovem incauto que passava por ali. Ao perceber seu erro, o Cupido, esse irresponsável, soltou um impropério e dando de asas, escafedeu-se como se nada de errado tivesse acontecido. Entretanto, o jovem, vítima daquela flecha perdida, sem saber por que, passou a sentir uma atração incontrolável por alimentos que até então só o interessavam pela necessidade de manter-se vivo. Até então, comia para se sustentar e não por prazer. Mas agora tudo parecia diferente e estranho. Não era mais a fome, mas o paladar que parecia guiá-lo. Queria experimentar tudo, combinar sabores, texturas, sensações.

    Sensações! Era isso.

    Descobrira algo mais que o valor nutricional nos alimentos. Apaixonara-se pela culinária e pelos prazeres da boa mesa.

    Tornou-se um gourmand. Quanto mais estudava, pesquisava e experimentava, mais se apaixonava. Estava perdido, sabia que nunca saciaria seu apetite. Era um impulso mais forte que ele e salivava apenas ao ouvir falar de um bolinho de bacalhau de um determinado barzinho que abrira recentemente  ali perto e logo estava lá provando e se regalando com mais este e outros acepipes.

    Aos poucos foi se sofisticando e suas papilas gustativas, cada vez mais exigentes, pediam sabores mais refinados. Por um Boeuf Bourguignon, cometia loucuras, Bouillabaisse então... E os queijos? Tinha um caso de amor com a cozinha francesa, algo como aquela primeira namorada, que permitiu que pela primeira vez você experimentasse sensações até então desconhecidas. Deliciava-se também com as outras, em relações fugidias, porém intensas como foi com a portuguesa e seus bacalhaus e pataniscas. Havia as asiáticas também, que o cativaram pelo exotismo e profusão de sabores. Mas eram aventuras gastronômicas passageiras, paixões efêmeras, como são todas as paixões.

    Até que conheceu a russa. Foi paixão à primeira mordida, um arrebatamento, um escândalo! Vatruskkas, Okroshka, Svekolnik e a deliciosa e libidinosa Kulebjaka.

    Como as matrioshkas, que se revelam em sucessivas camadas, assim também era a culinária russa, sempre surpreendente, deliciosa e estimulante.

    E ele queria – com o perdão da palavra – comer todas.

    Vivendo nessa orgia gastronômica, acabou engordando e como não demonstrava a menor intenção de mudar sua rotina, os amigos se preocuparam.

    – Cuidado, diziam eles. Você não pode continuar comendo tanto assim! Temendo pela sua saúde, sugeriam que ele procurasse uma nutricionista, o vigilantes do peso, um endocrinologista, uma psicóloga, qualquer coisa que pudesse ajudá-lo a vencer essa obsessão em que a comida se transformara para ele.

    Ele se justificava, cada vez mais gordo:

    – Mas é um caso de amor, dizia entre uma garfada e outra.

    Os amigos retrucavam que o amor também pode matar e citavam como exemplo Shakespeare e a tragédia Romeu e Julieta.

    Romeu e Julieta, pensava ele, salivando.

    Goiabada com queijo.

    Queijo da Canastra e goiabada cascão!

    Hummmmmm!

    por Magela Oliveira

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