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Nov/Dez 2019
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Mulher

O livro da minha vida

  • Tive um professor de literatura que avaliava o valor de livros e filmes pelo conceito de verossimilhança. Sempre discordei dele, primeiro porque adoro realismo fantástico e segundo porque conheço histórias reais completamente inverossímeis. A meu ver, ficção e realidade não se opõem. A ficção é inspirada na realidade e a realidade por sua vez não deixa de ser uma ficção.

    Acreditamos que só os outros livros e filmes possuem estórias interessantes, porém se olharmos com um olhar mais atento e generoso, perceberemos o quão nossa história é extraordinária. Se fôssemos escrevê-la em todos os seus detalhes perceberíamos quantas coisas já passamos, quantas lutas, superações, vitórias...

    Perceberíamos nossos pontos fortes / fracos, nossas limitações / potencialidades, nossos acertos / erros... Perceberíamos o trágico e o cômico de nossos dramas. Aliás, o livro da nossa vida não teria gênero, seria uma obra de vanguarda em que os gêneros se mesclam em um único dia.

    Perceberíamos que nossa vida é regida pela impermanência e que dá guinadas de 180° sem pausas ou avisos prévios, nos cobra o tempo todo que sejamos humildes, flexíveis e que renunciemos à ilusão de controle. Perceberíamos que nada é fixo, definitivo, concreto e sim, que tudo é relativo, subjetivo. E que até mesmo as nossas lembranças não são confiáveis, pois as mesmas são contaminadas pelos nossos traumas, dramas, defesas, fantasias...

    J. Campbell defende a tese de que a nossa história é muito semelhante à história do herói mítico, pois ambos empreendem uma longa jornada em busca de verdades e significados para suas existências e retornam ao seu local de origem completamente diferentes, pois durante a jornada passam por um processo simbólico de morte e renascimento.

    Segundo a filósofa Rosa Dias: “A vida deve ser pensada, querida e desejada como um artista deseja e cria a sua obra, ao empregar toda a sua energia para produzir um objeto único.” Ou seja, temos que assumir a autoria de nossa vida e não deixar que os outros (pais, companheiro, filhos...)  definam quem nós somos, o que queremos, o que podemos, o que não podemos, o que merecemos...

    Se formos meros objetos passivos nossa existência será comandada por forças externas (destino, sorte, fatalidade, carma...), porém se lutarmos para sermos sujeitos e protagonistas da nossa história poderemos escrevê-la e reescrevê-la como quisermos. Somos livres, temos livre arbítrio, podemos fazer escolhas, porém alguns ficam paralisados diante dessa liberdade e não fazem nada (lembrando que até mesmo se omitir já é uma escolha).

    Temos uma só vida “e o que se leva dessa vida é a vida que se leva”, ou seja, o roteiro que escolhemos, e se tivermos que ficar “crucificado na eternidade” como dizia Kundera, que tornemos nossa vida suficientemente interessante, significativa... para que tenhamos prazer em repeti-la infinitas vezes. Então mãos a obra, a luta pela autoria de nossa vida é árdua, vamos escrever um roteiro que valha a pena, mesmo porque viver não é para amadores, pois o rascunho da vida já é a própria vida. Não podemos reescrevê-la ou passá-la a limpo, não temos como reeditar o passado, mas podemos viver intensamente o presente e construir, aos poucos, um futuro maravilhoso. Boa sorte!

    por Gizele Rabelo

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