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Nov/Dez 2019
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Comunidade

Você sabe o que é MOBILIDADE URBANA?

  • Um dos cenários futurísticos abordados no livro ´O Mágico Desinventor`, do escritor passense Marco Túlio Costa, mostra pilhas e pilhas de carros abandonados em decorrência da falta de mobilidade urbana. O número de veículos havia crescido tanto que acabou travando, literalmente, o trânsito em estradas e ruas de todas as cidades. Era mais fácil - e mais rápido - ir a pé que de carro. Isso foi escrito em 1979 e publicado em 1982, portanto há mais de trinta anos.

    Em determinados horários, o trânsito na Avenida Comendador Francisco Avelino Maia é “estressante”.
    Em determinados horários, o trânsito na Avenida Comendador Francisco Avelino Maia é “estressante”.

    Hoje, o planeta caminha para a concretização daquele cenário descrito na obra de Marco Túlio. Os grandes centros urbanos registram diariamente gigantescos congestionamentos, causando não apenas prejuízos econômicos, mas também ambientais e de qualidade de vida das pessoas. Em Passos, a situação vem se agravando ano a ano.

    Traçado antigo

    Para o arquiteto Cesar Tadeu Elias, a cidade já vem apresentando problemas de mobilidade urbana há mais de quinze anos, principalmente na área central, cujo traçado foi feito há décadas, quando não se previa o surgimento e o crescimento do número de automóveis. O arquiteto fez as contas e chegou à conclusão que se todos os veículos de Passos fossem colocados em fila, cobririam uma extensão de 160 quilômetros para uma malha viária de 210 quilômetros. “Isso mostra que falta pouco para o trânsito travar por completo”, alerta.

    Um dos problemas mais graves, na opinião de Cesar, é o das calçadas. “Não podemos nos esquecer de que toda viagem começa pela calçada”, observa ele, enfatizando que além de acanhadas (bem estreitas em algumas vias), muitas delas apresentam desníveis construídos pelos proprietários dos imóveis com o objetivo de “adequar” o passeio às suas necessidades particulares, como rampas que dão acesso a garagens, por exemplo.
     

    O arquiteto Mauro Ferreira propõe que as calçadas sejam construídas pela Prefeitura.
    O arquiteto Mauro Ferreira propõe que as calçadas sejam construídas pela Prefeitura.

    O arquiteto e professor, Mauro Ferreira – atualmente cursando pós-doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) como bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) -, diz que os problemas registrados em Passos “decorrem do fato de o sistema de mobilidade basear-se exclusivamente no automóvel individual em detrimento de outras modalidades de locomoção”. Segundo ele, os problemas mais comuns são congestionamentos e falta de estacionamento nas regiões centrais e em polos de atração, como escolas e hospitais, por exemplo.

    Remédio amargo

    A solução para os problemas de mobilidade urbana não será amistosa. É o que diz o arquiteto Cesar Tadeu Elias. Conforme ele, a Prefeitura Municipal de Passos terá de realizar uma fiscalização rigorosa, notificando e exigindo o cumprimento do que prevê a lei. “Tem que doer no bolso para que a cidade volte a funcionar bem para todos e não só para alguns”, ressalta o arquiteto.

    Como primeira medida, ele sugere que o poder público municipal cobre dos proprietários de imóveis o nivelamento de todas as calçadas, tomando por base o meio-fio. Já o arquiteto Mauro Ferreira sugere que a Prefeitura construa as calçadas e cobre do proprietário, “como faz com a pavimentação de rua, estabelecendo um padrão de qualidade nas calçadas”.
     

    O arquiteto Cesar Tadeu Elias defende o fim dos estacionamentos na área central.
    O arquiteto Cesar Tadeu Elias defende o fim dos estacionamentos na área central.

    Cesar critica o estacionamento em 45 graus, por entender que ele não funciona. “Só caipira acha que aquilo funciona”, diz o arquiteto. Mas, a proposta dele é mais revolucionária ainda: é acabar com os estacionamentos em todas as ruas da área central. “Deveriam fazer como fazem algumas cidades da Europa, ou mesmo Parati, no Rio de Janeiro, permitindo apenas veículos de serviços. As pessoas deveriam andar mais a pé. Faz bem para a saúde. Rua é para trânsito, não para estacionamento de veículos”, afirma.

    Por sua vez, o arquiteto Mauro Ferreira frisa que o município terá de planejar para solucionar os problemas de mobilidade urbana. “A lei exige um Plano de Mobilidade para Passos até 2015; depois, o cumprimento deste plano, com ações e projetos específicos, envolvendo educação, sinalização, travessias e calçadas seguras e acessíveis, ciclovias. E, especialmente, investimentos e reorganização do transporte coletivo, como prioridade”, frisa Mauro.

    Cesar e Mauro divergem quanto à implantação de ciclovias. Para o primeiro, a geografia urbana de Passos não possibilita o uso de bicicletas. “Isso ocorre em cidades planas e aqui são poucas as vias que oferecem essa condição”, diz. Já Mauro Ferreira entende que é possível implantar ciclovias em determinadas regiões. Em 2011, ele conduziu pela Fundação de Ensino Superior de Passos (FESP) um projeto cicloviário que previa o aproveitamento do antigo leito da ferrovia da Fepasa, ligando a cidade à região da Casemg.
     

    Para Waldemar Junior, a Prefeitura deveria aprovar apenas loteamentos que tenham avenidas.
    Para Waldemar Junior, a Prefeitura deveria aprovar apenas loteamentos que tenham avenidas.

    Os dois arquitetos têm opiniões semelhantes quando o foco é o acesso à MG-050. Para Mauro, “há necessidade de uma grande obra, de melhorar o acesso urbano pela MG-050 e Avenida Arlindo Figueiredo; no espaço intraurbano, não há necessidade de grandes obras, ao menos no futuro próximo”. Para Cesar, na época em que foi construída, “a Arlindo Figueiredo era uma alternativa de acesso à MG 050; hoje, é apenas mais uma avenida da cidade”. Ele afirma que é preciso pensar a cidade para os próximos 155 anos, “já que tivemos, até agora, 155 anos de improvisos”.

    Fórum de Gerenciadores

    O professor Waldemar Ribeiro de Oliveira Junior, especialista em Transporte e Trânsito pela Universidade Fumec-BH, esteve à frente do Departamento de Transporte e Trânsito da Prefeitura de Passos por oito anos. Conforme ele, durante esse período, o trabalho de sua equipe teve como foco melhorar a mobilidade urbana.

    Na época em que esteve à frente do Departamento, Waldemar Junior trouxe, em duas oportunidades, o Fórum Mineiro de Gerenciadores em Transporte e Trânsito para Passos, fórum este que suscitou o debate dos problemas e de soluções para o setor.

    Como obras futuras para melhorar a mobilidade, Waldemar Junior sugere a construção de um anel viário e mais atenção às avenidas. “Deveria ser proibido aprovar um loteamento sem avenida”, afirma. Além de melhorias no transporte coletivo urbano, ele é defensor de se desenvolver estudos no sentido de estimular o uso de bicicletas, na cidade.

    Jeremias Alves anuncia contratação de engenheiro de trânsito para formular projeto básico de trânsito.
    Jeremias Alves anuncia contratação de engenheiro de trânsito para formular projeto básico de trânsito.

    Plano de Mobilidade Urbana

    O atual diretor do Departamento de Transporte e Trânsito, Jeremias Cristo Alves, disse que a cidade terá em breve o seu Plano Municipal de Mobilidade Urbana, conforme prevê a legislação. Enquanto isso não se concretiza, a cidade terá de enfrentar a falta de recursos para administrar um trânsito que se torna cada vez mais problemático. “Temos pleiteado recursos do Estado, mas não temos conseguido”, diz.

    Quanto ao plano de mobilidade, Jeremias informa que a administração municipal já planeja contratar, ainda este ano, um engenheiro de trânsito para fazer estudos na cidade, visando à melhoria no trânsito. Além de melhorias físicas, ele destaca a importância de uma mudança de comportamento de motoristas.

    Para o diretor do Departamento de Trânsito, o projeto básico que será elaborado pelo engenheiro de trânsito em 2014 servirá para nortear o Plano de Mobilidade Urbana do município. “Depois de pronto o plano, vamos enviá-lo ao Ministério das Cidades, em busca de recursos. É bom deixar claro que nosso plano entrará na fila de espera; não é apenas enviar e conseguir os recursos”, observa.

    Ele adiantou também que a administração já estuda a implantação de agentes de trânsito na cidade, que fiscalizarão e disciplinarão o trânsito. “Nossa intenção é disciplinar o trânsito na cidade”, finalizou Jeremias Alves.

    Conforme levantamento do Departamento de Transporte e Trânsito no Detran-MG, o município possuía, em julho deste ano, 61.352 veículos, dos quais 31.650 eram automóveis. Os demais veículos estão assim distribuídos: caminhão (2.000), caminhão-trator (286), caminhonete (4.478), camioneta (1.301), ciclomotor (225), micro-ônibus (169), motocicleta (17.956), motoneta (1.211), ônibus (381), reboque (958), semi-reboque (460), side-car (14), trator de rodas (7), triciclo (11), utilitários (243) e outros (2).

    José dos Reis Santos

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