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Nov/Dez 2019
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Mulher

Perdas

  • Todos nós estamos teoricamente conscientes que as perdas fazem parte da vida, desde as mínimas (as chaves, o ônibus, o celular...) às máximas (um ente querido, um amor, o trabalho, a saúde...). E mesmo assim... toda vez que a vida insiste em dizer não e nos encontramos diante da dor inexorável de quem perdeu, sofremos muito e demoramos para nos recuperar.

    Na verdade somos muito presunçosos e acreditamos que tudo que somos e temos é para sempre, porém a vida não funciona assim. A primeira lição a assimilar é que tudo é impermanência, nada é definitivo, não temos garantia de nada, não temos controle sobre nada, não possuímos nada. Certezas? Apenas que perderemos (muitas vezes) e que morreremos. Mórbido? Não, apenas realista.

    Muita das vezes a dor provocada pela perda pode parecer desproporcional (para quem está de fora). Porém, toda vez que perdemos algo é como se fôssemos soterrados pela soma de todos os sofrimentos e perdas acumulados e choramos, não apenas pela perda do momento, mas sim pelas várias perdas que fomos acumulando durante a nossa jornada, que foram se somando e de repente transbordam.

    Outro fator que influencia na dimensão e na reação da perda é o apoio que recebemos (ou não recebemos) dos outros e o quanto fomos (ou não fomos) amados pelos familiares e amigos. Pessoas muito amadas costumam reagir melhor às perdas e traumas, pois elas não parecem totais e absolutas quando temos outras referências internas de conquistas e afetos para nos apoiar.

    Daí... jamais devemos julgar a dor dos outros. E como diz Liane Alves: “cada um vem com uma mochila diferente nesta vida, e dela fazem parte vivências anteriores que influenciam na personalidade. Há pessoas que podem sentir profundamente uma perda sem se expressar e outras que podem sentir pouco e fazer um escândalo”. Ou seja “o coração alheio é território desconhecido”. Lembrando: a minha dor, a minha perda (independente do que seja), sempre é maior do que a dos outros, pois afinal é o meu sofrimento e está doendo exclusivamente em mim.

    As perdas mais profundas precisam de tempo para serem elaboradas, temos que vivenciá-las e superar o luto no nosso ritmo. Lembrando que luto não se restringe exclusivamente a perda por morte, mas também por uma relação amorosa que infelizmente chegou ao fim, ou um emprego (que era nossa vida), pela perda da auto-estima (e a reelaboração da nossa auto-imagem), ou por perdas monetárias.

    Enfim, como dizia o ditado popular:“só perde quem tem” e como felizmente durante a nossa vida vamos acumulando conquistas, é inevitável que em alguns momentos o sentimento da perda vá nos incomodar. O psiquiatra B. Cyrulnik nos alerta que “as pessoas que reagem bem a pequenas perdas vão desenvolvendo sua resiliência (capacidade de retornar ao estado normal) e flexibilidade, e são as que melhor se recuperam das perdas graves”. Ou seja, temos que procurar elaborar, aceitar e trabalhar as perdas menores do cotidiano e relativizar seu impacto para nos prepararmos para os acontecimentos mais difíceis e aceitá-los com a humildade necessária.

    por Gizele Rabelo

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