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Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Homem

Atitude

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    Bum bum, bum bum. O som distante do bumbo chegava até seus ouvidos nessas noites de carnaval trazendo as lembranças das alegrias vividas nos salões dos clubes tempos atrás.

    Há muito havia abandonado o hábito de brincar o carnaval. Antes mesmo de se casar concordara com a namorada que aquilo não era mais para eles.

    E agora aquele bumbo, como uma mensagem indígena parecia lhe chamar para participar da festa na avenida. Agora era assim, as pessoas se dirigiam para uma avenida no centro, já que os clubes não promoviam mais os bailes de carnaval.

    É uma festa popular, não é? Então tem que ser na rua, justificavam. Só que na rua não tem cobertura, não tem sequer banheiro, não tem nenhuma estrutura! Mas todo ano as arquibancadas, o palco, e as barraquinhas estavam lá a espera dos foliões.

    Não tinha o mesmo “glamour” dos bailes de seu tempo, mas ouvira dizer que era animadíssimo.

    Bum bum, bum bum. O bumbo chamando. Agora parecia mais claro e ele já olhava em volta procurando identificar na expressão da mulher ou da filha se elas também reconheciam o chamado. Mas elas continuavam impassíveis, olhando a televisão.

    Só ele ouvia. Era um chamado codificado para a sua percepção. Uma espécie de código individual, o qual só ele parecia compreender.

    O ribombar do bumbo agora trazia informações detalhadas:  – Venha, não fique aí parado enquanto a vida passa. O carnaval é só uma vez por ano. Venha, está “assim ó! Venha, venha, bum bum.

    Ninguém entendeu nada quando o filho de doze anos perguntou para o pai quem ele achava que iria sair da casa, referindo-se ao Big Brother, claro, e ele subitamente deu um pulo da poltrona e decretou:

    – Eu! Já perdi tempo demais.

    Dirigiu-se para o quarto, acompanhado pelo olhar assustado da família, fechou a porta e procurou no fundo da gaveta uma antiga fantasia de pirata esquecida junto com uma camisa da Ponte Preta, uma bandeira do partidão e outras coisas que já não usava mais.

    Ficou um pouco apertada claro, mas ainda servia e mais uma remexida no fundo da gaveta e lá estava o imprescindível tapa olho para completar a caracterização.

    Foi um choque quando ele, de pirata, já com a mão na maçaneta da porta anunciou que estava de saída e que ia pular o carnaval. E que não o esperassem, não tinha hora para voltar.

    Dona Teresa começou a chorar, a Lucinha não conseguia identificar se o que sentia era medo ou vergonha –já pensou se suas amigas vissem seu pai  assim? Mas o Duda até que achou legal e disse:

    – Mãe, será que ano que vem eu posso sair de pirata também?

    Resolveu ir a pé mesmo, pois assim poderia respirar a liberdade das ruas em dias de carnaval.

    Sentia-se tão bem, tão livre, tão jovem. Porque não fizera isso antes?

    No caminho comprou uma latinha de cerveja em uma das barraquinhas e continuou a caminhar bebericando.  E em cada barraca era uma cerveja e até chegar onde a turma se concentrava havia passado por muitas barracas e encontrava-se em um estado em que dizer que já estava no clima, era o mínimo.

    Ele agora era um jovem de cabelos grisalhos e estava pronto para o prazer, aberto a novos relacionamentos, enfim, descolado, não era assim que diziam?

    Foi quando uma moreninha, vinte e poucos anos, dessas que gostam de um relacionamento com homens maduros chegou perto dele e disse:

    – E aí tio, vai ficar aí parado?

    Tomado de surpresa ele disse que não, claro que não! Hoje eu quero tudo, tudo o que uma noite de carnaval e uma mulher jovem podem me dar.

    Ela não ouviu nada, dado o volume do som, mas disse assim mesmo:

    – Demorô!!! E pulou, com a desenvoltura de seus vinte e poucos anos, a grade que separava as barraquinhas da multidão que pulava ao som da banda.

    Como o jovem que era agora, ele tentou fazer a mesma coisa e aconteceu exatamente o que deveria acontecer quando um homem de cinquenta e poucos anos, bêbado, faz uma coisa assim; enganchou o pé nas barras da grade e caiu espalhafatosamente no chão, batendo com a cabeça, já que o braço usado para se apoiar quebrou na hora e a dor só foi menor que a vergonha de encarar a família quando foram buscá-lo no pronto socorro.

    Mas podia ser pior. Quando Dona Teresa, com os braços cruzados e batendo com um pé no chão, disse:

    – Bonito hein, Deoclides!

    Ele levantou lentamente o rosto preparando-se para olhá-la nos olhos e só então sentiu uma ponta de alívio em seu martírio. Resistindo a tudo, bravamente, ainda estava lá o tapa olho a cobrir-lhe o olho direito e assim ele teria, felizmente, que encará-la com um olho apenas.

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