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Nov/Dez 2019
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Mulher

Ser e ter eis a questão

  • Os filósofos acreditam que a nossa capacidade de raciocinar é capaz de nos garantir uma vida boa, pois a razão (teoricamente) nos permite rever e corrigir conceitos equivocados e controlar nossas más tendências. Partindo desse princípio vou fazer uma reflexão sobre o ter e o ser.

    A meu ver o ser é a nossa essência, os nossos valores e princípios. Já o ter é tudo que queremos possuir, porém, quando adquirido muda e molda o ser. Para Aristóteles “o ser humano necessita de possuir bens do espírito (virtudes) e bens do corpo (saúde) e ter o suficiente para garantir a sua segurança, mais que isso retiraria o ser de si mesmo”. Ou seja, o acúmulo de bens faz com que ao invés de possuidores nos tornemos possuídos. Quem não conhece um pobre homem rico?

    Epicuro depois de avaliar racionalmente a questão constatou que: “se temos dinheiro e não temos amigos, se temos bens e não temos liberdade, jamais seremos felizes. Porém se temos tudo, com exceção do dinheiro, jamais seremos infelizes”. E alertava que o que de fato nos faz feliz não é dispendioso, pois na verdade toda real riqueza é imaterial, os verdadeiros “bens” são os que tornam a nossa vida significativa: a educação, o crescimento emocional, o amadurecimento, nossos professores, pais, amigos, livros, talentos, potencialidades...

    Taniguchi define riqueza como: “tudo aquilo que benefi cia o ser. É tudo aquilo que pode (de fato) ser incorporado ao ser”. Percebemos que alguém está de bem consigo mesmo pelo brilho do seu olhar, pelo seu sorriso, pela sua paz de espírito e não pelo carro que ela tem, ou pela roupa que ela veste. Não seremos mais felizes se tivermos mais, seremos mais felizes se formos mais, pois é o que somos que nos beneficia de fato e nos impulsiona para tornar os nossos sonhos realidade. Só possuímos aquilo que somos, pois o ser antecede o ter.

    Há pessoas que correm contra o tempo, passam por cima dos outros, de si mesma e de seus valores para terem mais do mesmo. Pois acreditam que quanto mais possuem mais são, e consequentemente serão mais amados, respeitados, admirados. Porém nada disso pode ser comprado tem que ser conquistado. O que verdadeiramente importa não está à venda (amigos, companheiro, caráter, autoconhecimento, opiniões próprias, capacidade de apreciar as artes e a natureza, valor, reconhecimento...). Na verdade quanto menos somos, menos significativa nossa vida é, daí alguns se contentarem em comprar máscaras de personalidade por o “ter” ter alienado o “ser”, em uma tentativa desesperada para compensar o enorme vazio de ser que têm dentro delas.

    Valemos pelo que somos e não pelo que temos, e quem nos avalia pelo que temos não merece o que somos, e principalmente, não merece o nosso reconhecimento. Com a maturidade tendemos mais a valorizar o que somos do que o que temos. Buscamos mais prazer, autorrealização e significado do que status. Vi uma definição ótima sobre status que é mais ou menos assim: “Status é comprar o que você não precisa, com o dinheiro que você não tem, a fim de mostrar para pessoas que você nem gosta, que você tem mais do que tem e é uma pessoa que você não é”. Poético, não?

    Não podemos esquecer que a vida é uma passagem, e que o que se leva dessa vida é a vida que se leva. Tudo que temos pertence à matéria e permanecerá na terra, o que levamos conosco para o outro plano é o nosso “patrimônio espiritual”, o que verdadeiramente fomos, a intensidade que amamos, o bem que fizemos, o crescimento pessoal, as flores que semeamos. Jamais seremos lembrados pelo que tivemos, mas exclusivamente pelo que fomos. “Tudo o mais é ilusão...”

    por Gizele Rabelo

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