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Janeiro/Março 2020
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Comunidade

Homem desaparecido reencontra família com apoio de casal passense

  • A história é comovente. Carlos Alberto Alves Borges, de 35 anos, estava desaparecido há 18 anos e se encontrava em Passos. Graças ao trabalho realizado pelo casal Fabiano Frederic Carvalho Baggio e Giovanna Giannelli Righetto Baggio, Carlos reencontra sua família de Goiânia e volta para sua cidade natal. Mas esse desfecho não foi nada fácil, muito pelo contrário, foi complexo e delicado.

    Frederic e Fabiano Baggio, Dona Maria (mãe), Carlos, Jéssica, Giovanna Baggio e Rubens.
    Frederic e Fabiano Baggio, Dona Maria (mãe), Carlos, Jéssica, Giovanna Baggio e Rubens.

    Carlos Alberto Alves Borges é do dia 24 de dezembro. Do tipo calado, passava despercebido por muitas pessoas. Carlos fugiu da capital Goiânia ainda na adolescência, no ano de 1993. O motivo da fuga: incompatibilidade com os pais. De 1993 pra cá ele passou por diversas cidades como:

    Presidente Prudente, Uberlândia, São José do Rio Pardo, Casa Branca, entre outras e então chegou a Passos.

    Carlos apresenta um transtorno mental e por isso é aposentado pelo Governo.

    Em Passos,  ele ficou por cerca de quatro meses. Passenses mais atentos devem se lembrar dele durante o dia na Rua Presidente Antônio Carlos e à noite na antiga sede da Rodoviária da cidade, onde Carlos dormia.

    No início, conta o casal de comerciantes, Fabiano e Giovanna Baggio, o homem entrava na Lancheteria do casal timidamente, mas seu nível intelectual, modo e gestos, fizeram Giovanna, Fabiano e até os funcionários ficarem intrigados. “Ao perguntar sobre um salgado, ele perguntava se a carne era bovina.

    Ele sempre contava o dinheiro na frente do caixa. Para atravessar a rua, tinha que olhar duas vezes, pra baixo e pra cima, então percebi que ele tinha algum transtorno mental”, diz Giovanna.

    Carlos seguia seus rituais repetidamente na Lancheteria do casal, mas, por causa do seu jeito estranho e do seu odor, foi chamando cada vez mais a atenção dos funcionários. “No começo ele pedia só refrigerante, mas com o tempo passou a pedir salgados também. Ele entrava mudo e saía calado e era impressionante como deixava a mesa limpa, sem nenhum farelo”, detalha o funcionário Anderson Aparecido Tozzi.

    A também funcionária Keila de Castro Ferreira, sensibilizada com o jeito de Carlos, foi, aos poucos, descobrindo quem ele era e o seu passado. “Ele não pedia nada, as pessoas é que davam. Ele também estava muito sujo e eu fiquei com dó dele”, diz Keila, que então teve a ideia de levá-lo à sua Igreja para que pudesse tomar banho.

    Fabiano Baggio, também comovido com o jeito sóbrio de Carlos, dava a ele lanches e chegou a pagar para ele tomar banho. “Um dia, a Igreja estava fechada e nesse dia ele ficou sem o banho, então dei a ele dinheiro para tomar banho na rodoviária”, lembra Fabiano. Giovanna, sensibilizada também, foi aos poucos conversando com ele e descobrindo o seu passado. “Carlos é extremamente sistemático, foi custoso no início ele confiar na gente. Via que ele tinha um transtorno mental e queria ajudá-lo. No primeiro dia que o levamos pra tomar banho, o Fabiano voltou depois de uma meia hora pra ver como tinha sido o banho. Quando ele chegou, levou um susto. Ele ainda não tinha começado o banho”, conta Giovanna, que assim como seu marido, tiveram dó do rapaz e propuseram a ele dormir de noite na Lancheteria. Deram a ele roupas, calçados e cobertor, já que no final de outubro ventou e fez um pouco de frio na cidade.

    O casal Giovanna Giannelli Righetto Baggio e Fabiano Frederic Carvalho Baggio: “Nada aconteceu por acaso e isso é Providência Divina.”
    O casal Giovanna Giannelli Righetto Baggio e Fabiano Frederic Carvalho Baggio: “Nada aconteceu por acaso e isso é Providência Divina.”

    Numa altura dessas o casal já tinha descoberto que Carlos era filho único, tinha 35 anos, estudou até o 1º Colegial e saiu de casa há 18 anos. E também que seu pai se chamava Braz e a mãe, Maria Andrade Borges. “Já estava totalmente envolvida com a história dele e ficava pensando – ‘Meu Deus, ele é uma pessoa educada, consciente, não bebe, não fuma, não é justo que fique assim’, fiquei com dó.

    Ele só precisava se tratar, se incluir socialmente e quem sabe, voltar para sua casa”, lembra Giovanna.

    Foi aí que ela teve a ideia de procurar os pais de Carlos pela internet. Procurou em ONG’s de Desaparecidos, na Polícia Civil, Militar e em sites do Governo de Pessoas Desaparecidas e nada.

    Tentou procurar pelo nome do pai e da mãe no Google e nada. E finalmente, através da telelistas.net (lista telefônica da internet) conseguiu achar o telefone de Dona Maria. “Quem atendeu foi uma menina de 15 anos, que depois descobri, era a irmã que ele nem chegou a conhecer. Eu expliquei tudo para a mãe, que chorava de tanta emoção e dizia que há 18 anos procurava pelo seu filho. Expus tudo de uma forma clara e não menti a respeito do motivo pelo qual ele fugiu de casa e da sua atual situação.

    No mesmo dia, um vizinho de Dona Maria ligou dizendo que viria para Passos com ela e que sairiam de Goiânia no dia seguinte. Giovanna então procurou uma assistente social e uma psicóloga para saber como agir diante da situação que estava ficando cada vez mais delicada. As profissionais disseram que o casal não contasse a Carlos que localizaram sua mãe, já que o rapaz tinha adquirido confiança neles, mas que deixassem as coisas acontecerem naturalmente.

    Rubens, o vizinho da família seguiu viagem com a mãe de Carlos e sua irmã Jéssica, de 15 anos, até então desconhecida para ele. Quase no fim do trajeto, mais uma situação embaraçosa. Às 6h 20 da manhã, Giovanna, ansiosa pela chegada da família, recebe um telefonema. Eles tinham chegado à cidade, porém as descrições do local em que estavam não eram conhecidas. “Neste momento soube que eles estavam em Patos de Minas!”, ri Giovanna.

    Carlos no momento em que tentava compreender o que a senhora, sua mãe, dizia. Ao lado, sua irmã de 15 anos, Jéssica.
    Carlos no momento em que tentava compreender o que a senhora, sua mãe, dizia. Ao lado, sua irmã de 15 anos, Jéssica.

    Depois de algumas horas a mais de viagem a família chega finalmente a Passos e encontra-se com Giovanna. A essa altura, Fabiano já tinha combinado de levar Carlos para tomar o seu banho na Igreja, mas antes, ele ia comer na Lancheteria. Carlos fez tudo direitinho, estava na Lancheteria, calmo, sereno e grato pelo carinho e confiança que tinha em Fabiano.

    Tremendo muito, a mãe de Carlos entra na Lancheteria e pede um refrigerante. Carlos estava sentado em uma mesinha de dentro. Em seguida Maria senta-se à sua frente e fica em silêncio por alguns segundos. Os dois se olham, ela pergunta se poderia assentar-se na sua mesa. Nisso, conta Giovanna, os funcionários, os amigos e seus parentes já estavam chorando, emocionados e tensos com o encontro que poderia ter um final feliz ou não.

    Dona Maria aborda Carlos dizendo que estava em Passos procurando um filho desaparecido, e que segundo as características que ela apresentou à Polícia, naquela rua poderia estar seu filho. Ele, calmamente pergunta o nome dela e ela diz. ‘Maria Andrade’. Carlos diz em seguida. “Maria Andrade Borges?” Ela diz ‘É’. E ele com um lindo sorriso no rosto disse: “A senhora é a minha mãe”, narra Giovanna. A tensão dela e de todo o auditório que se transformou a Lancheteria foi aliviada quando mãe e filho se abraçaram e sorriram de alegria.

    “Nossa, foi o momento mais lindo, não tinha quem não chorasse aqui dentro. Mas a sensação de missão cumprida mesmo só aconteceu quando a mãe perguntou ao filho se ele voltaria para casa com ela e ele disse que sim, que voltaria. Nossa, aí sim todo mundo desabou em lágrimas. Após o encontro eles foram pra minha casa, o Carlos tomou banho, eles almoçaram conosco e em seguida partiram para Goiânia, não sem antes trocarmos msn, celulares, etc. Isso aconteceu no dia 6 de novembro, após essa data já nos falamos pelo telefone e o Carlos está muito feliz. Seu pai não veio porque tem problemas cardíacos, mas segundo o relato deles, o encontro dos dois também foi emocionante. Ele tem ajudado o pai no bar da família e já está se tratando com um psiquiatra. No último dia 18, a família foi até São José do Rio Pardo tratar de ajustar a aposentadoria de Carlos, que tinha quebrado o seu cartão e não recebia o benefício há quatro meses”, conta Giovanna.

    Conforme o casal afirmou, “a maior alegria desta história com certeza é a dos pais que reencontraram o filho que algumas vezes acreditavam até estar morto. Depois, o grande agraciado é o Carlos que quis voltar por livre e espontânea vontade e que agora tem a sua cama, o seu quarto, o seu lar e a sua família. E então nós, que estamos repletos de felicidade, por esta dádiva de Deus ao colocar o Carlos em nosso caminho e conduzir essa história da maneira como foi conduzida. Costumamos dizer para quem nos ouve que ganhamos o dia, o mês, o ano, a vida proporcionando essa alegria a essa família e a nós mesmos. Nada aconteceu por acaso e isso é providência divina”, admite o casal

    Carlos no momento em que tentava compreender o que a senhora, sua me, dizia. Ao lado, sua irm de 15 anos, Jssica.
    O casal Giovanna Giannelli Righetto Baggio e Fabiano Frederic Carvalho Baggio: Nada aconteceu por acaso e isso Providncia Divina.
    Frederic e Fabiano Baggio, Dona Maria (me), Carlos, Jssica, Giovanna Baggio e Rubens.

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