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Nov/Dez 2019
 Nov/Dez 2019

Homem

Arrepios

  • Dois fantasmas se materializaram subitamente naquele recinto cheio de gente. Gente viva.

    – Buuu! Fez o primeiro.

    – Buuuuuuuuuuu! Fez o segundo, mais expansivo.

    Mas as pessoas dali, homens, mulheres e crianças, todos absortos com seus afazeres e seus smartfones e seus tablets e seus fones de ouvido, não se espantaram, pois sequer notaram suas presenças sobrenaturais. Surpresos, os fantasmas se entreolharam e suas feições brumosas se transformaram. Espantados agora estavam eles.

    Desolados, flutuando em sua forma esfumaçada, o primeiro questionava: De que adianta ser um fantasma se não puder assombrar os vivos? Que outro prazer nos resta no além, além de ver a cara de espanto dos mortais ante a aparição de um ser do outro mundo? Sem isso estamos condenados ao tédio eterno. Fiapos de fumaça flamando pelo infinito sem as saborosas sensações de um corpo material. Que saudade dos arrepios, dos pelos eriçados, dos gritos de horror, dos desmaios das jovenzinhas...

    O outro, que não era dado a devaneios, especialmente os metafísicos, propôs atitude, ao invés da digressão filosófica:

    – Vamos atravessar paredes, isto sempre impressionou os mortais! E antes que o outro concordasse, já se lançou, ziguezagueando entre os presentes, contra a parede do lado oposto da sala como se sólida não fosse. Um menino que estava por ali observou, com vivo interesse, sua performance e quando o fantasma enviou de volta sua cara para dentro da sala para apreciar o assombro das pessoas, viu apenas o menino puxando a mãe pelo braço e pedindo repetidas vezes:

    – Compra um pra mim, mamãe, é super legal. Compra, compra! Mas a mãe estava ocupada demais para olhar a cabeça de olhar triste na parede para onde o menino apontava.

    A indiferença já é difícil de suportar, mas ser comparado com um holograma, um avatar, um personagem virtual de um game é humilhação demais até para uma alma penada, um espectro. Arrastando sua nebulosa figura rente ao chão, ele voltou para perto de seu companheiro de infortúnio, que ficara refletindo sobre sua condição de assombração e sua conclusão era aterradora:

    – A eternidade é longa demais! Diante desta constatação, um frêmito fez a fumaça que os compõem se esvanecer momentaneamente.

    O pior da vida (vida?) desses fantasmas é que nada mais lhes é definitivo; por mais tempo que lhes demore, qualquer coisa, tudo é efêmero, passageiro. O tempo, que sufoca os vivos, foi-lhes tirado, e isso é a sua maior danação.

    Divagando sobre o conceito escolástico do ser e sua dimensão apriorística, numa visão, assim, transcendental, tão distraídos estavam que nem perceberam a aproximação de um menino, que com as mãos em forma de concha em torno da boca fez:

    – Buuuu! E saiu correndo.

    Suas formas ectoplasmáticas se arrepiaram de susto e se dissolveram no ar. Ainda disformes de humilhação eles se olharam, e a feição enevoada de cada um deles demonstrava inequivocamente que era melhor saírem dali o mais rápido possível.

    Talvez, melhor fosse se imiscuírem nas nuvens, camuflados na fumaça, brincando de tempestade, disparando raios e trovões.

    Que também é um jeito de assustar os vivos.

    por Magela Oliveira

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