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O DRAMA DAS CHUVAS NO NORDESTE - ed. 64 - agosto/2010

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    Mais do que números de quanto choveu no mês de junho no litoral e na Zona da Mata de Alagoas e Pernambuco, o desespero em Barreiros (PE) dá o tom da situação. Os moradores brigavam por pacotes de biscoitos, enquanto dezenas de pessoas reviravam o lodo em busca de comida. Para entender por que isso acontece, é preciso antes definir alguns conceitos. Enchente acontece quando as águas da chuva, ao alcançarem um curso d´água, causam o aumento na vazão por certo período de tempo, ou seja, a quantidade de água é maior do que o espaço onde ela ficaria. Quando a água extravasa e toma as ruas, marginais e casas, ocorre a inundação. Ela é a verdadeira responsável pelas grandes desgraças e mortes urbanas.

    Catástrofes naturais ocorrem em toda parte, e não há como prever de modo totalmente confiável o seu grau de violência. Mas nem tudo era imprevisível na tragédia nordestina. Trinta por cento das cidades agora afetadas já enfrentaram o mesmo problema nos últimos sete anos. Mesmo assim, pelo menos 15 das cidades alagoanas atingidas pelas chuvas não contavam com órgãos de defesa civil. O Estado de Pernambuco não dispõe de radar meteorológico, tornando-se impossível identificar com antecedência o local preciso de uma tempestade. Foi, em todo caso, pelo aviso dos sinos de uma igreja, que os habitantes de Barreiros (PE) puderam refugiar-se, horas antes do desastre. Os meteorologistas conseguem explicar porque choveu tanto naquela área desde 15 de junho. Segundo o Laboratório de Meteorologia de Pernambuco, as chuvas foram excepcionais porque se concentraram em cinco dias. Há um consenso de que dois fatores principais ajudaram. Antes de mais nada, é sabido que o inverno no Nordeste é chuvoso. Este ano choveu mais, porque o oceano Atlântico, naquela região, está até 1,5°C mais quente. A água evapora. Os ventos fortes que sopram do alto mar empurram as nuvens para o continente. São as chamadas ondas de leste. Em junho, havia ainda uma forte frente fria que subia para o norte, trazendo mais umidade.

    Enchente não mata. Não existem rios assassinos. O que mata é a imprevidência, a irresponsabilidade, a omissão. Tragédia é sempre humana, decorre da ação humana, nunca é natural. O que mata não são as águas transbordadas dos rios. O que mata é a ocupação irregular de suas margens e até do seu leito. O assoreamento, que reduz a calha natural, o lixo, a falta de drenagem, a falta de prevenção. O que mata é o despreparo, a pobreza, a falta de planejamento urbano, a omissão das autoridades públicas. Enfim, a tragédia nasce das más políticas de governo, em todas as esferas, municipal, estadual e federal. As águas passam e rolam. As ações humanas e políticas, é que matam.

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