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Confira o artigo escrito pelo professor Helou Doca que nos leva a refletir: Onde estaria a esperança?

  • Não verás país nenhum

    Não verás país nenhum

    Este é o título do romance do escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão, de 1981.

    Trata-se de uma história de ficção, ambientada em S. Paulo, onde o personagem central – um ex-professor – vaga por cenários castigados e degradados.

    Em suma, a apocalíptica obra, propõe uma história do fim dos tempos. A narrativa se desenrola em um futuro não determinado, mas cada vez mais presente na realidade dos brasileiros. Uma época terrível, na qual a Amazônia se transforma em deserto sem nenhuma árvore; onde "O lixo forma setenta e sete colinas que ondulam, habitadas; todas. E o sol, violento demais, corrói e apodrece a carne em poucas horas"; onde a seca extrema e a carência de água impõe a reciclagem da urina, bebida pelas pessoas. (...) A administração do país chega ao caos, com governantes medíocres – o Esquema –, cada vez mais afastados do povo, interessados apenas em vantagens pessoais. A corrupção desandada rola solta e impune, corroendo valores nacionais e as instituições...

    Mas, Loyola deixa ao leitor um alento: na trama, fica uma chama de esperança; uma saída; talvez um herói que vencerá no fim.

    Da imaginação à dura realidade, veremos país algum?

    Haveria um lugar bonito no futuro para esta nossa – de todos os brasileiros – pátria amada, Brasil

    Onde estaria a esperança?

    A resposta passa por educação.

    Só veremos país algum com educação de qualidade proporcionada em todos os níveis e em todos os rincões desta nação.

    Utopia? Creio que não!

    Devemos começar destinando – realmente – os percentuais constitucionais do PIB à construção e equipagem de escolas – de creches às universidades. É preciso melhor formar, estimular e mais bem remunerar os professores para que mais e mais pessoas se interessem pela carreira do magistério. É imperativo reconhecer e premiar o mérito, sem o que se nivela tudo e todos por baixo. Sem a medalha de honra e o reconhecimento da virtude,todos tendem ao esmorecimento e à acomodação, o que – há que se dizer – é próprio do ser humano. Deve-se reformular os currículos, dotando-se todos os cursos, sobretudo o ensino médio, de alguma real destinação. E isso deve ter caráter regional, já que cada pedaço do Brasil tem suas especificidades e idiossincrasias. E, ainda, é fundamental que exista boa gestão em cada núcleo educacional, preferindo-se em cargos diretivos e de coordenação líderes aglutinadores, idealistas e obstinados no lugar de meros burocratas, em geral, ungidos por nomeações políticas.

    Cada escola deve ter mais autonomia para adaptar as linhas mestras das políticas públicas à sua realidade; ao seu alunado e pretensões.

    Só pela educação, veremos país algum.

    Basta sairmos de nossas fronteiras e olharmos o exemplo de outros países, como a Coréia, a China, a Finlândia e a Alemanha, dentre outros, que deixaram situações de subserviência no cenário mundial, para assumirem o topo nos principais rankings de desempenho.

    Não verás país nenhum é um livro um tanto profético na medida em que, já em 1981, antevia crises de água, aquecimento global, exagerada – e epidêmica – corrupção e a corrosão – além da inversão – de valores.

    Mas, assim como o personagem principal do livro busca com sofreguidão uma saída, nosso Brasil haverá de encontrar seu grande destino.

    Basta que eduquemos nossos filhos sem o germe do querer levar vantagem em tudo, sem o vírus da indelicadeza geral, seja para com os mais velhos, professores e mesmo para com amigos e colegas. Vamos todos – brasileiros e brasileiras – exorcizar de uma vez por todas das entranhas desse país essa contagiosa bactéria de benesses subterrâneas e gratuitas – a corrupção.

    E é preciso educar bem – com competência –, premiando-se o mérito e cerceando-se a indolência, as más atitudes e a espera passiva por dádivas oficiais. E que isso esteja presente, como um santo mantra, nos âmbitos familiar e escolar.

    Prof. Ricardo Helou Doca

    Professor Helou Doca

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