Última Edição
Janeiro/Março 2020
Janeiro/Março 2020

Saúde

Após morte da filha, pais criam projeto para conscientizar pessoas a doarem sangue.

  • Depois que a filha de seis anos morreu, vítima de um tipo de câncer renal que acomete principalmente crianças, a furnense, Gabriela Oliveira e o marido, Alberto Félix de Oliveira Neto, criaram um projeto que vem ganhando força dia-a-dia. Trata-se do "Sô-Lidariedade"; campanha nacional que tem o objetivo de incentivar a doação de sangue, em qualquer hemocentro do país. Qualquer pessoa pode doar, o importante é abastecer os estoques para atender a demanda que, desde sempre, é grande.

    Sofia

    Em agosto de 2013, no quarto 1.284, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, a pequena Sofia, de apenas 6 anos, encerrou sua luta contra o câncer. Diagnosticado em 2010, o Tumor de Wilms – câncer renal que acomete principalmente crianças – mudou a rotina de Sofia e de sua família. 

    Foram três anos dedicados ao tratamento, sob o comando do Dr. Odone Filho e sua equipe. Durante este tempo, Sofia passou por várias cirurgias, inúmeras sessões de quimioterapia e radioterapia, além do transplante autólogo de medula óssea. Apesar da morte de Sofia, ano passado, o sentimento que a garotinha deixou foi de vitória. Sua garra e bom humor espantavam os pais e a própria equipe médica.

    Sofia

    “Durante o tratamento ela fazia balé e ia para a escola. Tentávamos fazer com que ela tivesse o máximo de conforto e felicidade para enfrentar aquele processo. Quem conviveu com ela podia perceber que nem a falta dos cabelos tirou sua vaidade, sua autoestima e principalmente, sua alegria de viver. Ela sempre foi feliz. Fazia com que o tratamento parecesse uma coisa fácil e tentava de todo modo levar uma vida normal”, narra a mãe, Gabriela Oliveira, que também é mãe de João Eduardo, de 9 anos.

    Todo este otimismo e disposição de viver redobravam quando Sofia recebia transfusão de sangue, diz Gabriela. “As bochechas dela ficavam rosadas e o apetite, esse nem se fala!”, completa a mãe, acrescentando, “os números são espantosos: para atravessar o tratamento, Sofia precisou de 106 bolsas de plaquetas e 43 de hemácias. Foi vivendo essa necessidade e experimentando seus benefícios imediatos que surgiu a nossa ideia: uma campanha de conscientização nacional da necessidade da doação de sangue para pacientes em tratamento contra o câncer, com foco em crianças como Sofia”, diz.

    O projeto em homenagem a Sofia se chama Sô-lidariedade. A finalidade é exclusivamente: doar sangue. O projeto tem parceria com o Instituto Stella Demarco (tem esse nome em homenagem a menina Stella Demarco que faleceu vítima de neuroblastoma, com 1 ano de idade). Essa entidade apoia o Instituto de Tratamento do Câncer Infantil – Itaci – hospital público ligado ao Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Usp. Nessa clínica não há fila de espera, todas as crianças são atendidas.

    Sofia.

    Conforme Gabriela e Alberto, ao inaugurar o Sô-Lidariedade foi lançado o #desafiodasô# onde a pessoa que doa sangue, grava um vídeo durante a doação (ou tira uma foto) e desafia dois amigos a fazerem o mesmo. Isso é compartilhado nas redes sociais com as hashtags #desafiodasô e #desafiodasolidariedade. Quem não pode doar, pode também gravar um vídeo ou foto e incentivar amigos a doarem.

    “O desafio e a campanha são nacionais, ou seja, qualquer pessoa, de qualquer parte do país, pode doar sangue em bancos de estoque mais próximos. Não importa para quem vá esse sangue. O fundamental é termos sempre um banco de sangue com estoque suficiente para atender a demanda!”, explica Gabriela, afirmando que na primeira quinzena de dezembro, o projeto também foi ao ar no Facebook com muitas curtidas, inclusive. A iniciativa do casal foi a forma que eles encontraram para lidar com a dor imensurável de se perder um filho. O projeto não só mantém a memória de Sofia viva, como faz com que sua luta se junte a de outras crianças e famílias em situação semelhante, beneficiando-as.

    “Ela será inesquecível. Tinha um jeito único de ser. Uma personalidade forte, sempre ciente de suas limitações sobre o tratamento, o que podia ou não podia fazer. Por isso, por ela e por nós, transformaremos a dor de sua ausência em amor ao próximo”, revela a mãe de Sofia, finalizando. “A mensagem que queremos deixar às pessoas que lutam contra essa doença é que, apesar de tudo, nós acreditamos, sim, na cura do câncer. Precisamos sempre encontrar e unir forças para continuar a luta”.

    Os interessados em conhecer e ajudar a propagar o projeto podem acessar o link do Sô-lidariedade: https:// www.facebook.com/projetosolidariedadeisd?fref=ts

    Doe.

    DOAR SANGUE É FÁCIL, RÁPIDO E PODE SALVAR MUITAS VIDAS. 

    Abaixo, os requisitos para doar sangue:

    • Estar em boas condições de saúde
    • Ter entre 16 e 69 anos
    • Pesar no mínimo 50 kg
    • Estar descansado (ter dormido pelo menos 6h nas últimas 24 hs)
    • Estar alimentado (evitar alimentação gordurosa nas 4h que antecedem a doação)
    • Apresentar documento original com foto emitido por órgão oficial (carteira de identidade)

    IMPEDIMENTOS TEMPORÁRIOS:

    • Resfriado: aguardar 7 dias após desaparecimento dos sintomas
    • Gravidez
    • 90 dias após parto normal e 180 dias após cesariana
    • Amamentação (se o parto ocorreu há menos de 12 meses)
    • Ingestão de bebida alcoólica nas 12 horas que antecedem a doação
    • Tatuagem nos últimos 12 meses
    • Situações nas quais há maior risco de adquirir doenças sexualmente transmissíveis: aguardar 12 meses
    • Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Tocantins são estados onde há alta prevalência de malária. Quem esteve nesses estados deve aguardar 12 meses.

    IMPEDIMENTOS DEFINITIVOS:

    • Hepatite após os 11 anos de idade
    • Evidência clínica ou laboratorial das seguintes doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue: Hepatites B e C, Aids, doenças associadas aos vírus HTL VI e II, Doença de Chagas.
    • Uso de drogas injetáveis
    • Malária

    RESPEITAR OS INTERVALOS PARA DOAÇÃO:

    Homens: 60 dias (máximo de 4 doações nos últimos 12 meses)
    Mulheres: 90 dias (máximo de 3 doações nos últimos 12 meses)

    Graciela Nasr

    A personalidade forte, o jeito encantador e a meiguice de Sofia, inspiraram a crítica literária, Marina Miranda Fiuza, a escrever sobre o projeto Sô-Lidariedade.

    Abaixo, as lindas palavras da autora:

    SÔ-LIDARIEDADE

    Há quase um ano venho ensaiando um texto e, apesar dos meus esforços, das palavras que procuro encontro apenas alguns rumores. Geralmente tudo o que me toca, de uma forma ou de outra, vira texto. Seja uma postagem apaixonada no blog, uma carta saudosista ou um email de desabafo, toda emoção quase sempre fica registrada.

    Dia 23 de dezembro de 2010 passei por uma dessas emoções avassaladoras, daquelas que são grandes demais e necessitam desesperadamente de serem diluídas em versos. A filha da minha grande amiga era diagnosticada com câncer. Sei que, para quem apenas lê estas linhas, a frase já é impactante o suficiente. Nenhuma criança no mundo deveria sofrer, nem por um joelho ralado, que dirá por uma doença tão terrível. Ainda assim, gostaria de insistir que não é qualquer criança, nem qualquer amiga.

    Nossa amizade nasceu espontaneamente, num cruzar de ruas e de vidas. Nossos laços não parecem ter sido construídos ao longo do tempo, mas, sim, instantaneamente reconhecidos. A semelhança de nossas trajetórias garantiu-nos um bem querer gratuito, como se uma visse na outra um pouco de si.

    Obviamente todo o carinho foi transferido aos nossos filhos. Compartilhamos problemas familiares, escolares, brinquedos, comida, festas, febres e conquistas. Como poderia eu, ficar imune àquela notícia horrível? Não era apenas uma criança, era a criança tão querida e tão próxima de mim.

    Desde então venho acompanhando a luta da pequena grande guerreira, que sequer desconfia da coragem que tem. Pude quebrar muitos mitos com relação ao câncer, apesar de acreditar que ele continua sendo um bicho de sete cabeças. Sofia vem tirando de letra, com seu amigo do peito e uma mãe-muralha ao lado. Se naquele primeiro momento o texto que arranhava minha garganta era cheio de amargura, depois foi aparecendo outro cheio de orgulho. Orgulho da pequena e da grande.

    Volta e meia aparece de novo a vontade de chorar as mágoas, mas que direito eu tenho? Que direito tenho de revelar o meu sofrimento quando ele é inútil e tão pequeno perto do sofrimento da minha amiga? Que direito tenho de dizer que compartilho a dor se não sou eu quem beija aquele rostinho todos os dias? E ainda, de que adiantaria drenar minhas tristezas para um texto quando o que se necessita é de conforto e otimismo?

    Alberto Neto (Pai), Sofia e sua mãe Gabriela.
    Alberto Neto (Pai), Sofia e sua mãe Gabriela.

    Resolvi, por tempo indeterminado, que não escreveria nada e que se dane se tanta emoção guardada me seja insuportável. Mas hoje achei um motivo para vir aqui e contar, mesmo que não contando, a história da minha amiguinha bailarina. 

    Durante o longo tratamento muitas e muitas transfusões foram necessárias. A cada uma delas sempre vem o afago de um hemograma cheio de números e de duas bochechas rosadas. Mais do que para quem acompanha, é o corpinho dela que, a cada ml de sangue, se sente otimista na luta pela cura.

    Contudo, apesar dos maravilhosos recursos do hospital Albert Einstein, em São Paulo, falta sangue. E falta sangue porque faltam doadores.

    A consciência dessa falta é que me permitiu escrever essa emoção, a tanto tempo engasgada, porque agora, pela primeira vez, sinto que posso ser útil – pelo menos um pouco. Mesmo que não seja no Einstein, mesmo que não seja em São Paulo... existe alguém que precisa do seu sangue agora, neste instante.

    Doar sangue é fácil, é seguro, é rápido e, mais importante que tudo isso, é necessário.

    Marina Miranda Fiuza

    © 2019 Foco Magazine. Todos os direitos resevados.