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Nov/Dez 2019
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Mulher

Vida a dois

  • Este mês estou completando 30 anos de casada e aproveito a data para refletir sobre o tema. Sou imensamente feliz e realizada com minha vida afetiva, conheci meu marido com 15 anos e desde então, gradativamente, fomos alicerçando e edificando nossa relação, pois vejo a mesma como um projeto que exige amor, confiança, respeito, dedicação, compreensão, solidariedade... E devo confessar que hoje o amor e a união é tanta que, como Clarice Lispector posso afirmar: “Nós já não somos, nós é.” Lembrando que: quando amamos de fato, respeitamos a alteridade do outro. Sentimo-nos um só com ele, mas ele como ele é, e não na medida que ele seja como eu quero.

    Os contos de fadas e comédias românticas sempre terminam quando finalmente, o casal se acerta, se casa e... “viveram felizes para sempre”... Como se “contrato jurídico - religioso” pudesse assegurar a felicidade eterna e a supressão de todos os problemas naturais advindos da convivência diária.

    A meu ver é justamente a partir daí que vão surgindo as dificuldades. A vida real se impõe, surgem os compromissos financeiros, as exigências do trabalho, a convivência com a família de ambos, as cobranças, a criação dos filhos... e é justamente neste contexto que o amor será desafiado, testado, confirmado, vivenciado... pois casar é fácil, difícil é se manterem envolvidos, cúmplices, amigos apaixonados... vida afora.

    A vivência a dois nos faz confrontar o outro, respeitá-lo e compreendê-lo em sua alteridade e ao mesmo tempo aprová- lo e aceitá-lo como ele é, e perceber que é justamente em função das diferenças que nos complementamos, pois a autenticidade de um sentimento não consiste em projetar a minha verdade sobre o outro, mas sim, em se deixar encantar, envolver, contaminar pela verdade do outro.

    Flávio Gikovate comenta: “Em vez de ser um fim em si mesmo o casamento deveria funcionar como um meio de aprimoramento pessoal”. E é assim que vejo a vida a dois, pessoas que estão juntas porque se amam e estão empenhadas em se tornarem melhores para si, para o outro e pelo outro, buscando superar as dificuldades, os medos, os padrões, as diferenças para juntos construírem uma família de fato e terem equilíbrio e maturidade para educarem e orientarem bem os frutos desta relação.

    O amor genuíno dispensa contratos, pois é uma celebração da vida e como tal deve ser vivenciado e construído dia a dia. O respeito mútuo que assegura um bom relacionamento, não surge em função de um ritual, mas sim da admiração, do afeto, da compreensão e do desejo pelo outro que nos eleva. Alguns, no namoro, são atraídos pela aparência do outro, porém aos poucos, temos que encontrar motivos para apaixonar por sua essência, seu ser...

    E para terminar faço das palavras de Otávio Paz as minhas. “O casamento é uma tentativa de penetrar em outro ser, mas só pode ser realizado sob a condição de que a entrega seja mútua. É difícil esse abandono de si mesmo, poucos coincidem na entrega e menos ainda conseguem transcender essa etapa possessiva e gozar o amor como o que realmente é: um descobrimento perpétuo, uma imersão nas águas da realidade e uma recriação constante.

    por Gizele Rabelo

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