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Nov/Dez 2019
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Mulher

Escolhas

  • Sempre me questiono: se a trajetória de nossas vidas está prescrita ou se aquilo que de repente cruza o nosso caminho e muda radicalmente nossa existência é vontade de Deus, mero acaso, destino, fatalidade...

    Para a psicanalista H. de Mello: “Crer ou não, em um destino pré-existente, numa força que comanda nossa vida é algo pessoal, relacionado à religiosidade”. Na verdade, temos necessidade de explicações para tudo e quando não as temos vamos buscá-las no sobrenatural. E as religiões, de acordo com nossas buscas sempre têm uma resposta para as nossas inquietudes. Na visão religiosa tradicional (determinismo teológico) o homem não influi nos fenômenos que vivencia, uma vez que os mesmos são determinados por Deus. Segundo o teólogo Fábio Peres, “Nosso caminho é tão bem engendrado por Deus que não há espaço para coincidências. Todos os encontros, todas as vivências têm suas razões de ser”. Já para os budistas segundo Swani: “Nosso caráter é resultante de nosso passado, e o nosso futuro será determinado por nossas escolhas presentes”. Ou seja, não há fatalismo. Ou como diz minha sábia amiga Marisa: “Fazemos nossas escolhas e depois as chamamos de destino”.

    Meus filósofos preferidos não entram em consenso sobre o tema. Para Epicteto o cosmo é perfeito e é ele que rege nossas vidas e assim sendo temos que ser sábios e nos adaptar às leis da vida. Já Epicuro acreditava que o cosmo era caótico e nossas vidas seriam frutos do acaso. Essa mesma ideia foi retomada por Sartre, 2.000 anos depois, que também não acreditava em um futuro com cartas marcadas pelo destino ou por Deus. Para eles, acreditar em uma força maior que rege as nossas vidas é simplesmente uma forma de se acomodar e deixar de assumir as nossas responsabilidades.

    Beethoven também acreditava que Deus “regia” tudo e sempre afirmava em suas músicas “Es muss sein” (Tem de ser). Para ele o que fazia a grandeza de um homem era ele carregar seu destino sobre as costas como Atlas carregava as abóbodas celestes. Kundera que acreditava no acaso absoluto ironiza Beethoven afirmando que “O herói de Beethoven é um alterofilista que levanta pesos metafísicos”.

    Adoro essa imagem, porém discordo deles, não acredito nem em um destino implacável, como na casualidade absoluta. Acredito na lei da casualidade defendida por Aristóteles. Para ele: “Todo evento (causa) ocasiona um segundo efeito (reação)”, ou seja, nós através das nossas ações fazemos escolhas e nos responsabilizamos por suas consequências. Ou ainda, como diz a sabedoria popular: Colhemos (efeito) o que plantamos (causa). Ou ainda como diz os budistas: nosso Karma (ações) é como um cheque, se o saldo for positivo, recebemos, se for negativo, pagamos. Ou seja, o nosso céu e inferno nascem das nossas escolhas, pois são elas que determinam nosso lugar no mundo.

    Assim sendo, temos que estar atentos às “encruzilhadas” de nossa vida, algumas podem nos conduzir à nossa paz, porém outras podem ser bem acidentadas. Temos que estar atentos, refletir, analisar, rever padrões, aprender com nossos erros, ter bom senso... mesmo porque se vamos acertar ou errar só o tempo dirá.

    Então... a questão passa a ser: Como fazer a escolha certa? Nessas horas seria bem melhor contar apenas com a vontade divina, porém a responsabilidade é toda nossa. Assim sendo temos que ser autênticos, lúcidos, nos auto conhecer, ser coerentes e pensar no que, de fato, queremos (a curto e a longo prazo).

    por Gizele Rabelo

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