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Nov/Dez 2019
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Homem

Paralelas - ed. 65 - setembro/2010

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    Ele estacou em frente ao prédio enorme. Era uma construção altíssima que justificava o epíteto de arranha céu. Nenhum nome, nenhuma placa, apenas o número em metal dourado reluzia na fachada.

    Tirou do bolso interno do paletó o cartão com o endereço onde deveria fazer sua entrevista de emprego e confirmou ser ali mesmo o lugar.
    Não sabia porquê, mas aquele prédio causou-lhe certo receio. Relutou em entrar, mas precisava do emprego e não podia se deixar levar por maus pressentimentos. Rumou para a porta e esta se abriu automaticamente e ele entrou, passos claudicantes, rumo ao desconhecido.

    Era um homem de meia-idade, experimentado, e não podia admitir ser mais uma entrevista o motivo do seu pavor. Precisava vencer mais esta batalha e mesmo oprimido pela suntuosidade daquele hall, encontrou os elevadores. Conferindo mais uma vez o cartão, confirmou: 8º andar. Quando as portas finalmente se abriram diante dele, quase não acreditou. O elevador era maior que sua sala no antigo trabalho. Uma caixa recoberta de aço inoxidável e espelhos, piso e teto de madeira clara e imaculadamente limpo. Entrou e apertou a tecla 8, que se acendeu, e sua jornada  iniciou.

    Ascendendo naquela nave ele fez o que todo mundo faz… Nada! Olhou em volta, nada. Apenas o aço frio e seu reflexo no espelho. Enquanto aguardava o seu destino, notou que o número oito estava inclinado, na horizontal. Aproximou-se e tentou endireitá-lo girando a tecla. Porém, não conseguiu segurá-la com os dedos. Pegou as chaves do carro no bolso e segurando uma de cada lado, como uma pinça tentou mais uma vez, sem êxito. Tentava com a tampa da caneta quando questionou mentalmente há quanto tempo estaria naquele elevador.

    Parecia muito mais tempo que o necessário para se chegar a qualquer oitavo andar, mas como mensurar o tempo enclausurado numa caixa de aço? Não podia dizer sequer se ainda estava em movimento. Lembrou-se de Einstein e suas analogias para explicar a relatividade e lembrou, num sobressalto, ser aquele oito deitado o símbolo do infinito… Julgou ter compreendido tudo. Seu temor e seu mau pressentimento. Será que viajava rumo ao infinito? Atônito, começou a apertar freneticamente os botões do painel e a forçar a porta numa tentativa desesperada de interromper aquela viajem impossível. Tudo em vão. Seu destino parecia inexorável. Subir para sempre, para alto e além, até o infinito.

    Um turbilhão de possibilidades invadia seu cérebro. Onde estaria agora? Quem seria aquela mulher que indicara a oportunidade de emprego e lhe entregara o cartão? Morreria abandonado naquele elevador ou alcançaria o infinito?

    Mas como alcançar algo que não tem fim? E afinal, o fim é um conceito imanente ou uma verdade universal? No vendaval de pensamentos que fustigava sua mente surgiu a imagem do professor de matemática falando do conjunto dos números reais, das paralelas e da resposta que tendia ao infinito e ele divagando, boiando sem entender nada, tão perdido quanto se sentia agora…
    Tão subitamente quanto inesperado, um pálido sorriso brotou no seu rosto. Pena que não haveria ninguém pra contar, mas se chegasse lá, ao infinito, pelo menos veria onde as paralelas de encontram.

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