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Homem

Empilhar ideias - ed. 64 - agosto/2010

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    Escrever é empilhar ideias de cima para baixo, já dizia o titular da cátedra de literatura da Real Universidade de Pirimpela, o Sr. Professor Doutor Vintuino Lombargo.

    – É o equilibrista sem o arame, é a flor que brota antes do caule, dizia ele com um olhar perdido num ponto que ficava muito além das paredes daquela sala de aulas.

    – Não há, portanto, gravidade na folha branca de papel, Professor? Inquire uma aluna de brancura fantasmagórica, quebrando o silêncio respeitoso que reina nas aulas do Dr. Lombargo.

    – Gravidade? Gravidade? Responde com outra pergunta o professor, mirando a aluna enquanto ajeita com um sestro seus óculos na ponta do longo nariz. E continua:

    – Nada é mais grave que uma folha de papel em branco, com seus cantos muito retos e sua empáfia desafiadora! As palavras, elas sim, quando tratadas com o devido respeito, vencem a gravidade, flutuam e teimam em significar apoiadas umas nas outras.

    O anfiteatro fica em silêncio ante as palavras do professor. Suas frases também flutuam no ar e ali permanecem rondando o pensamento dos alunos, todos eles fascinados pelos mistérios da literatura, corroborando sua tese de flutuabilidade das palavras.

    O ambiente se mostra propício às conjeturas. O mestre então volta a falar inspirado pelo olhar de admiração da classe.

    – Quando as palavras se acumulam em frases, e estas em parágrafos com seus recuos, suas vírgulas e pontos finais ganham densidade significativa. Mas essa densidade, ao invés de peso, traz mais leveza e o texto, como um todo, se eleva inflado pelos princípios de clareza, concisão e coerência que, como todos sabem, são gases mais leves que o ar!

    – Mas há também aqueles que ruem fragorosamente! Objetou um rapaz por trás de seus grandes óculos de grau.

    O professor apreciava sobremaneira as provocações de seus jovens pupilos. Sentia-se revigorado debatendo com seus alunos.

    – Sim, disse o mestre. Algumas construções caem pesadamente e se espatifam contra o chão! As palavras se quebram e espalham letras para todo o lado! E o leitor, coitado, tem que se ajoelhar e catar as letras para compreender o conteúdo!

    E com gestos amplos andava pela sala repetindo num tom um pouco mais alto que o usual:

    – Clareza, concisão e coerência! Clareza, concisão e coerência!

    Enquanto as palavras do mestre ricocheteavam nas paredes, lá no fundo, na última fila de carteiras da sala, o jovem poeta amarrava com fios imaginários seus sonetos, receoso que eles se desprendessem do papel e se perdessem no éter para sempre!

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