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Homem

Se eu fosse você 3 - ed. 63 - julho/2010

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    Nuvens carregadas caíram sobre o planalto central acinzentando aquela tarde fatídica e despejaram ruidosamente uma chuva pesada, lavando Brasília e alimentando o lago Paranoá.

    Raios, gerados no ventre poderoso da tempestade, despencavam iluminando o palácio da alvorada enquanto trovões sacudiam suas muitas janelas de vidro.

    Lá dentro, protegidos dos elementos, Lula e Dilma confabulavam, indiferentes à tempestade que rugia lá fora. Afinal discutiam ali o futuro do país estabelecendo estratégias de campanha que poderiam definir quem seria o próximo presidente do Brasil e a fúria da natureza era um problema menor com o qual não podiam e nem deviam se importar.

    Mas a natureza é cheia de mistérios e às vezes surpreende os mais céticos com seu repertório de eventos inusitados. Eis senão que grandes nuvens se reuniram sobre aquela grande caixa de vidro e concreto e quando sua carga de energia estática venceu a resistência do ar, lançou uma descarga elétrica descomunal sobre o palácio no exato momento em que Lula, aconselhando sua protegida a agir da maneira que julgava ser mais indicada, dizia:

    – Se eu fosse você…

    Como Hollywood já provou cabal e inequivocamente, quando um evento dessa magnitude acontece, é comum o Frankenstein ganhar vida, um sujeito comum virar super herói e pessoas que estão próximas trocarem as personalidades. Acontece muito, mesmo quando o para-raio absorve a energia e a atenua sem sua rede de aterramento.

    Agora a Dilma tinha barba e vestia terno e gravata e o Lula, de tailleur e peruca, disse com voz feminina, impressionado com a situação:

    – Olha, companheira, eu consigo mexer o mindinho!

    – Pensei que essas coisas só aconteciam na ficção… Disse a Dilma com a língua presa, cofiando a barba grisalha.

    Mas os olhinhos da Dilma brilharam sob as lentes de contato quando o Lula, tentando se equilibrar no saltinho vislumbrou a conveniência daquele acontecimento sobrenatural às vésperas da disputa pela presidência da república. Disse decidido então:

    – Agora essa eleição tá no papo. É só a gente não deixar ninguém perceber o que aconteceu.

    E a Dilma, dentro do Lula:

    – E a Marisa?

    – Tudo pelo poder, tudo pelo poder… Disse o Lula travestido de Dilma. Você não percebe que agora temos nas mãos uma oportunidade que nem o mais sonhador dos marqueteiros poderia imaginar?

    Agora eu posso usar o meu carisma para transferir a minha popularidade para você falando através de você mesma. Posso torná-la uma candidata com mais apelo popular falando a língua do povo.

    A Dilma sabia muito bem o que aquilo significava, mas tinha que aceitar. Tudo pelo poder…

    Subitamente os discursos da Dilma começaram a perder os “esses” dos plurais e apresentar analogias estapafúrdias, algo como comparar o governo com um time de futebol bem entrosado, ou a equipe econômica com a dona de casa que cuida do orçamento e cada vez mais ela tem usado o jargão “Nunca antes na história desse país” para se gabar dos méritos do governo atual.

    A campanha parece que vai muito bem e o povo tem aprovado as mudanças no humor da candidata e sua linguagem coloquial tem mais penetração popular. As pesquisas mostram que os eleitores têm até notado que a Dilma tem se apresentado mais alegre, sorridente e descontraída nos comícios, embora algumas pessoas desconfiem que ela ande bebendo. Mas isso é só intriga da oposição.

    E quando ele, que agora é ela, preocupado com o desenrolar dessa história, pergunta a ela, que agora é ele, como farão para destrocar as personalidades, ela, que agora é ele e que jurou de pés juntos não desejar um terceiro mandato, diz vagamente:

    – Pode ser por medida provisória…

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