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Janeiro/Março 2020
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Homem

COMEÇO, MEIO E FIM. - ed. 62 - junho/2010

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    O começo foi difícil. Tudo era novo e diferente. Pessoas desconhecidas, lugares e costumes estranhos.

    Eles sentiam que não se encaixavam ali. Eram um casal jovem, de hábitos simples, vindos de uma cidadezinha do interior e agora se viam rodeados por uma realidade totalmente diferente daquela que conheciam.

    Ele, um funcionário público e ela professora primária, de repente estavam ali, envolvidos em uma história de espionagem internacional, corrupção e atentados.

    – Duda, eu acho que a gente está na história errada. Disse ele enquanto eram conduzidos por um funcionário para uma sala de reuniões ultra-secreta da embaixada da Bélgica em Sófia na Bulgária.

    Quando as pesadas portas, guardadas por homens fortemente armados se abriram, toda a opulência e opressão daquela sala se impuseram. Um homem vestindo terno preto de talhe perfeito se levantou, fez uma mesura e disse alguma coisa em belga. Alguma coisa ininteligível para ambos.

    Eles se entreolharam perplexos e a Duda, quase chorando, disse:

    – Me leva embora daqui!

    Mas o fim foi muito pior. Traição, tragédia e separação. Escuridão e becos sombrios. Fuga, Perseguições, julgamentos e prisões. Sofrimento e dor. E o pior de tudo era a certeza inexorável que o Marcelo e a Duda carregavam de que eles não pertenciam àquele mundo.

    Na cela fria e úmida em que foram encerrados, separados um do outro, enquanto aguardam a loucura, eles gritam desesperados sua inocência e clamam pelas suas vidinhas pacatas.

    Então só restou-lhes o meio dessa história. Esse espaço entre o começo e o fim onde, depois do impacto inicial e antes do desfecho ignorado, os personagens das histórias podem viver suas vidas.

    Coincidentemente era verão nesse período no leste europeu e nos intervalos entre uma missão e outra, a Duda e o Marcelo puderam desfrutar as delícias e as belezas naturais que os Bálcãs proporcionam e, esquecidos de tudo e de todos, bebiam vinhos franceses e refestelavam-se na gastronomia da costa do Mar Negro e do Mediterrâneo, ali pertinho, especialmente para quem tem helicópteros e pilotos do serviço secreto à disposição.

    E o pôr do sol, contemplado da margem direita do Danúbio em Silistra, quando visto através de uma taça de cristal produzida na antiga Tchecoslováquia, depois de beber todo o vinho e aquela película avermelhada ainda permanece na superfície interna, é uma experiência, como definiu a Duda, sublime.

    Com tantos prazeres, eles não se lembravam do difícil começo nem se importavam com o imprevisível final. Queriam apenas viver aquele meio da história intensamente.

    Não necessariamente nessa mesma ordem.

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