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Janeiro/Março 2020
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Homem

Espetáculo - ed. 61 - maio/2010

  • Ela morava sozinha naquele casarão. Era uma construção antiga, com paredes muito altas, porões misteriosos, longos e escuros corredores, assoalhos gretados, muitas portas e pouca luz.

    Da grande família que um dia enchera de vida e filhos aqueles cômodos enormes, só ela continuava ali. Foram-se todos, alguns para longe, outros para sempre. Apenas ela permanecia na casa em que nascera e enfrentava bravamente os desafios que aquele lugar manifestava no escuro das noites.

    Sempre sozinha, ela se deitava, fazia suas orações e aguardava o sono chegar enquanto aquele prédio parecia ganhar vida. Os assoalhos rangiam, as janelas batiam e o madeirame do telhado estalava. Eram todos ruídos há muito conhecidos e estes, ao invés de assustá-la, como acontecia em sua infância, agora embalavam seu sono e ela dormia em paz.

    Mas naquela noite foi diferente. Entre tantos barulhos conhecidos ela julgou ouvir passos. Medo. Com o coração acelerado ela abriu os olhos na escuridão. Tentou controlar-se e escutou com mais atenção e tremeu sob as cobertas quando percebeu que além de serem mesmo passos, eram muitos e vinham do fim do longo corredor que dava no seu quarto.

    E estavam se aproximando. Tomada de coragem ou desespero, tateou no escuro procurando pelo interruptor do abajur e, trêmula, acendeu-o. Sua luz iluminou debilmente o corredor e ela notou, assombrada, que não havia ninguém ali.

    Mas os passos continuavam e agora estavam entrando no seu quarto e ela percebia pelo som que eles se posicionavam em frente à sua cama. Ela assistia a tudo paralisada, o peito arfante, incrédula e indefesa diante daquele espetáculo sobrenatural.

    Até que se fez silêncio. Um silêncio a um tempo sereno e apavorante.

    Ela olhava para todos os lados, olhos esbugalhados e não via nada dentro do seu quarto. Mas sabia que estavam ali, podia sentir suas presenças.

    Subitamente o som reiniciou, suavemente, batendo num compasso ritmado, todos de uma só vez. O assoalho antigo de largas tábuas ressoava e o som cadenciado encheu o ambiente.

    Piano-piano, ela pensou, lembrando-se das aulas de música da infância e percebeu impressionada que aquele ritmo ao invés de assombrá-la, cativava.

    Mezzo-piano. Seus fantasmas agora tocavam o chão com mais intensidade, acelerando o andamento.

    É um sapateado, reconheceu, soerguendo-se na cama, interessadíssima. E aqueles bailarinos do além tinham um sincronismo e uma musicalidade perfeitos.

    Forte. As assombrações batiam com energia no assoalho antigo. A cadência era vigorosa, crescente e contagiante. Ela não se conteve e gritou:

    – Fortíssimo.

    O ritmo agora era alucinante e o assoalho, a noite e a mulher vibravam ao som pujante e vertiginoso daquele evento fantástico. Era o Gran Finale!

    Extasiada ela aplaudiu efusivamente quando o silêncio voltou a reinar naquele quarto. Até gritou – Bravo! Bravo! Enquanto ouvia o som dos passos deixando o seu aposento e desaparecendo para sempre no escuro e longo corredor, apesar de seus pedidos insistentes de – Bis, bis!

    O silêncio trouxe de volta os ruídos vulgares e ela os ouviu com desprezo, afinal fora contemplada com o som do além, privilégio de poucos.

    Fechou novamente os olhos e aconchegou-se sob seus cobertores, aguardando que o sono a conduzisse pela noite afora até o raiar de um novo dia. Mas agora sempre deixa uma luz preventivamente acesa…

    Magela Oliveira Publicitário Agência Wikimídia e-mail: magela.oli @gmail.com
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