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Em Foco

O mundo e a moda de Elisa Brito - ed. 61 - maio/2010

  • Elisa nasceu praticamente dentro da People’s, mas rompeu os limites de Passos. Cursou Moda na faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, e criou o seu estilo de pesquisar moda em New York.

    Especializou-se em Moda e Indumentária e, atualmente, cursa Artes Visuais, no SENAC do Rio de Janeiro.

    Mestranda em Comunicação Social – Jornalismo de Moda na PUC – SP. Na “Como Manda o Figurino – Centro de Indumentária e Figurino” no Rio de Janeiro se especializou na criação de figurinos. Teve suas peças exibidas na novela “Um Anjo Caiu do Céu” e participou da equipe de figurino do filme “Cidade de Deus”.

    Elisa Brito em Nova York, com vista da Praça da União sem Fundo. Foto de março de 2010 Durante pesquisa Parágrafo Coleção Popular da `s.
    Elisa Brito em Nova York, com vista da Praça da União sem Fundo. Foto de março de 2010 Durante pesquisa Parágrafo Coleção Popular da `s.

    Em Passos, na Faculdade de Moda, foi coordenadora e, atualmente, é diretora do curso. Além dessas atividades faz parte da equipe de estilo da People’s e assina a coluna de Moda, da Foco Magazine. Em seus projetos está a criação de figurinos para produções nacionais e internacionais, projeto que mantém na manga para tempos oportunos. Conheça a seguir a trajetória profissional dessa passense que respira, produz e ensina moda.

    Foco – Como foi a sua “entrada” no mundo da moda?

    Elisa Brito - Eu nasci praticamente junto com a People’s. Meus pais casaram jovens e criaram a confecção logo após o casamento. Minha mãe tinha experiência, pois costurava suas roupas desde os 9 anos. Eu sempre observei muito e adorava participar de tudo que os meus pais faziam na cidade. No carnaval, meu pai parava a confecção por um mês para produzir fantasias para a escola de samba Malandro é o Gato. Fazia a minha fantasia e a da comissão de frente. Eu observava muito o processo de criação do Gustavo José Lemos e Cesar Tadeu Elias e aprendia com tudo aquilo. Quando chegou a época do vestibular, fazer o que? As faculdades de moda estavam iniciando o processo de formação no Brasil, existiam apenas duas, e os meus pais me incentivaram. Hoje, afirmo que se não fosse formada em moda, não sei o que seria. Eu não sei fazer mais nada.

    Foco – Como foi o processo da sua formação acadêmica?

    Elisa Brito - Prestei vestibular em São Paulo e fui aprovada nas duas faculdades – Santa Marcelina e Anhembi Morumbi. Optei pela primeira, pelo seu processo de criação e por ser a primeira escola de moda do país. Cheguei à faculdade com certa experiência prática, mas uma experiência do interior. O que sabia era muito diferente do que encontrei lá. Não tinha a vivência, o conhecimento, a facilidade de acesso à informação como a maioria dos meus colegas. Foi preciso “correr atrás”, mas isso foi até bom. Se eles sabiam sobre história da arte, eu também precisava saber. Busquei conhecer e aprender o que não sabia, não esperei as coisas acontecerem.

    Foco – Minas é diferente de São Paulo, como foi lidar com essa diferença.

    Elisa Brito - Esse era o meu diferencial. Eu tinha que levar a minha cultura pra lá e levei o artesanato. Fiz um trabalho diferente. Usava materiais tecnológicos com o artesanato que já conhecia, crochê com fio de borracha, por exemplo. Temos que valorizar o que é nosso e trazer a técnica para os dias de hoje. Dentro da Faculdade eu tive certo destaque, por conta disso.

    H&M - uma das fast fashion visitadas pela estilista. A loja traz as tendências de uma forma mais rápida e os preços são acessíveis. “Mas entre as fast fashions”, as minhas preferidas são: a inglesa TOP SHOP que tem roupas bem descoladas e acessórios incríveis; a japonesa UNIQLO, que tem tudo de todas as cores e a antenada URBAN OUTFITTERS. Todas no Soho.”
    H&M - uma das fast fashion visitadas pela estilista. A loja traz as tendências de uma forma mais rápida e os preços são acessíveis. “Mas entre as fast fashions”, as minhas preferidas são: a inglesa TOP SHOP que tem roupas bem descoladas e acessórios incríveis; a japonesa UNIQLO, que tem tudo de todas as cores e a antenada URBAN OUTFITTERS. Todas no Soho.”

    Foco – Como foi o seu processo de especialização, após a faculdade?

    Elisa Brito - Terminei a faculdade muito nova, aos 21 anos, e comecei a fazer uma pós sobre gerenciamento, mas não gostei. Nessa época desisti da moda. Fui para os Estados Unidos estudar e definir o que queria. E lá acabei não escapando da moda.
    Adorava observar os costumes e comecei a sentir falta da produção. Comecei observando, depois passava as tendências para a minha mãe e, também, produzi bijuterias.

    Mas eu queria experimentar outras coisas e fui buscar novos horizontes no Rio de Janeiro. Sempre gostei da criação de figurinos, desde a faculdade estudava os filmes, as técnicas cinematográficas e o cinema nacional (que na época ainda estava em baixa). Chegando ao Rio procurei as melhores figurinistas e bati na porta sem conhecer ninguém. Cheguei ao “Como Manda o Figurino” – empresa das irmãs Bia e Inês Salgado. Elas viram meu portfólio e por lá fiquei. Procurei uma segunda figurinista, Emília Duncan, que trabalha para a Rede Globo, mas não podia me dedicar o tempo todo aos seus projetos. Ela usou algumas de minhas peças na novela “Um anjo caiu do céu”. Desse trabalho fui parar na produção do filme “Cidade de Deus”. No início, na mesma hora em que estava feliz eu morria de medo, pois trabalhávamos na favela. Corríamos risco o tempo todo. Mas, foi uma experiência incrível de muito aprendizado profissional e de vida.

    Na Herald Square antes de seguir para a exposição do Tim Burton no MOMA (Museu de Arte Moderna).
    Na Herald Square antes de seguir para a exposição do Tim Burton no MOMA (Museu de Arte Moderna).

    Foco – E como foi o seu retorno para Passos?

    Elisa Brito - Eu estava me especializando em Moda e Indumentária quando surgiu a oportunidade de trabalhar na faculdade. A FESP entrou em contato com a minha mãe, pois precisava de uma pessoa da área para ser responsável pelo projeto. Comecei a pesquisar e enviar o material para a formatação do curso e a sua aprovação. Fui convidada para ser coordenadora e ficava 15 dias em Passos e 15 dias no Rio, até terminar a pós.

    Foco – Como é para você formar profissionais da moda?

    Elisa Brito - Eu tenho uma responsabilidade muito grande e sou muito séria naquilo que faço. A educação está diretamente relacionada à formação do profissional. Gostaria que alguns educadores fossem mais envolvidos, pois é o futuro que está saindo de nossas mãos. Se a pessoa não aprender, querendo ou não, o que ela fizer de errado lá fora, boa parte da culpa será nossa. Eu não tenho problema em dar informações, passar conhecimento. Ninguém é igual a ninguém, ninguém vai tomar o lugar do outro. Sobre a Faculdade de Moda de Passos, muitas pessoas não a valorizam, mas acredito que não sabem o que é um profissional de moda. A faculdade tem sete anos, agora as pessoas começaram a observar mais. Em 2003 era difícil conseguir estágios e, hoje, temos várias empresas que abrem as suas portas para os nossos alunos.

    MOMA (Museu de Arte Moderna)
    MOMA (Museu de Arte Moderna)

    Foco – De 2003 até os dias atuais, o que mudou após a criação da FAMOPA?

    Elisa Brito - O que eu percebo é que as pessoas estão usando mais o processo criativo. Percebemos isso pelas coleções com tema. Tendência nós temos diversas, mas temos que adequar ao nosso público, a nossa região. Agora as pessoas passaram a observar esse diferencial.

    Foco – Como está a moda, hoje, em Passos e o que precisa melhorar?

    Elisa Brito - Eu acho que a Avenida da Moda tem possibilidade de crescer cada vez mais, mas é preciso se organizar em torno de um ideal. Temos muitas propostas, mas ainda é pouco. É preciso um órgão para gerir as ações. Tem várias empresas que eu admiro a organização, o método, desde a criação até a produção. Crescemos muito profissionalmente e temos ótimos exemplos em Passos

    Foco – Quais são os seus estilistas preferidos?

    Elisa Brito - Atualmente são quatro: os americanos Alexander Wang e Marc Jacobs, a inglesa Luella Bartley e a francesa Isabel Marant. Acho que todos possuem particularidades que a cultura contemporânea pede, adoro o glamour despretensioso do Alexander Wang, a capacidade singular do Marc Jacobs mixar referências e temas, as produções femininas e divertidas da Luella Bartley, o estilo parisien chic da Isabel Marant, que ao mesmo tempo que é super casual é também megadescolado.

    Foco – Você vai todo ano a New York fazer pesquisa de moda. Por que prefere os meses de fevereiro ou março?

    Elisa Brito - Porque consigo aproveitar o final de uma estação com o início da próxima. No final do inverno encontro uma boa liquidação e já vejo os lançamentos do verão que estão nas lojas.

    Tim Burton MOMA
    Tim Burton MOMA

    Foco – Como você faz a sua pesquisa de moda em New York?

    Elisa Brito - A primeira observação é a modelagem. Muitas peças que são aceitas pelas americanas e inglesas não serão aceitas pelas brasileiras. Os nossos costumes e a nossa cultura são diferentes. Para realizar a pesquisa tenho que focar no meu público, porque vou criar para ele. Hoje, as pessoas mudam muito e rápido. É preciso acompanhar as tendências o tempo todo.Em New York tenho as minhas lojas preferidas que estão na famosa 5th Avenue, na Madison Avenue e no Downtown. Cada uma tem suas particularidades e encantos. Depois da maratona das Departments Stores visito algumas lojas de “grandes nomes” nas imediações da Madison Avenue. Geralmente caminho no pedaço que vai da 57th Street até a 82nd Street que é a parte conhecida como “Gold Coast”. São umas 25 quadras de boutiques chiquérrimas e lojas de designers famosos. O Soho é um outro ponto que eu adoro: Abriga lojas, restaurantes, livrarias e bares mais descolados. E claro, não deixo de visitar papelarias em NY, sendo a LEE’S ART SHOP e a PEARL PAINT as minhas favoritas. Adoro também a livraria TASHEN, as peças da Broadway e os diversos museus: FIT MUSEUM, METROPOLITAN MUSEUM. Dessa última vez fui na American Beauty – exposição de 80 looks com os quais examina-se a relação da beleza x tecnologia (construção e costura) na confecção das roupas nos EUA.

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