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Janeiro/Março 2020
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Homem

Telemarketing

  • O telefone tocou às duas horas e quarenta e sete minutos. DA MADRUGADA!

    O telefone tocou às duas horas e quarenta e sete minutos. DA MADRUGADA!

    Ele levantou estremunhado e tateando no escuro, com o coração saindo pela boca, atendeu prevendo que coisa boa não podia ser. Não àquela hora.

    – Alouah! Disse com uma voz subterrânea.

    – Com quem falo? Perguntou uma voz suave e jovial, com uma naturalidade desconcertante.

    – Como assim, com quem fala? Irritouse ele. E continuou: Então você liga a esta hora na minha casa, me tira da cama e nem sabe para quem você ligou?

    A voz, mais suavemente ainda, informou que para que aquela pesquisa tivesse maior fidelidade os entrevistados precisavam, necessariamente, ser escolhidos aleatoriamente.

    – É só um detalhe técnico, sabe?

    – Normalmente ele teria explodido num sonoro impropério, batido o telefone na cara de quem quer que fosse, mas aquela voz... aquela voz... De alguma forma o cativara e ele até julgava haver distinguido o som de uma orquestra de pífaros ao fundo e ao invés de irritado ele estava surpreendentemente calmo.

    – Ah, então é uma pesquisa? Perguntou, surpreso com a própria reação.

    – É sim, e suas respostas são muito importantes para nós, disse a voz angelical.

    A cada palavra, a cada sílaba que ela pronunciava ele se encantava mais. Sentia-se enlevado e experimentava uma sensação de profunda tranquilidade, uma paz absoluta. E agora, ao fundo, parecia ouvir o coro dos meninos castrados de Viena.

    – E é uma pesquisa sobre o quê? Ele quase disse meu bem, mas se segurou julgando ser um pouco prematuro.

    – É sobre a criação.

    – Heim? O quê? Ahhh, Uuhh...

    – A pesquisa é sobre a criação, disse ela acrescentando um sorrisinho no final.

    – Mas eu não sou fazendeiro, nem tenho criação nenhuma, nem um passarinho sequer!

    – Mas não é este tipo de criação, não, disse ela com sua voz celestial e dessa vez ele teve certeza que ouviu sinos repicando ao longe.

    – Uai, que criação então?

    – A Criação mesmo! Tudo. Lembra? Seis dias de trabalho e descanso no sétimo...

    – A CRIAÇÃO, aquela? Sério? Perguntou incrédulo.

    – Aham! Disse ela descontraidamente.

    – Nossa, mas já faz muito tempo!

    – Tempo aqui não é importante, importante mesmo para nós é a sua opinião.

    – Não sei se sou a pessoa adequada para responder essa pesquisa, viajei pouco e do estrangeiro só conheço a Argentina, disse ele se esquivando da responsabilidade, pensando, com razão, que não deve haver privacidade quando se conta com o poder da onipresença. E perguntou: Mas afinal, de onde está falando?

    – É do Centro de Estatística Universal, o C.E.U., respondeu ela com sua voz irresistível.

    Parecia ser uma instituição confi ável e ele pensou em dizer que no geral era um bom lugar para se viver, bem localizado, que entre outras coisas, a ideia do campo magnético e das mulheres fora muito bem bolada e também que talvez fosse uma boa ocasião para reclamar dos terremotos, das tsunamis, das guerras, dos impostos, do Sarney e outras calamidades que assolam este planeta. Nisso sua mulher gritou lá do quarto:

    – Ô Agenor, que demora é essa? Quem é a essa hora? Ele respondeu que achava que a criação era perfeita, desligou, voltou para a cama e como a mulher insistisse em saber quem era, respondeu:

    – Você não iria acreditar...

     

    Magela Oliveira
    Publicitário
    Agência Wikimídia
    e-mail: [email protected]

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