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Nov/Dez 2019
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Homem

Memória

  • .Três amigos se encontraram...

    – Quanto tempo! Disse, entusiasmado, o primeiro.

    – Mais de vinte anos, respondeu o segundo.

    – Vinte e dois anos e sete meses, afirmou o terceiro.

    – Como? Perguntaram os outros dois ao mesmo tempo.

    – Faz vinte e dois anos, sete meses e dezessete dias que nos vimos pela última vez, disse ele com uma convicção assustadora.

    – Mas que memória, heim? Brincou um deles.

    – Você deve estar brincando, quem se lembraria com tanta precisão do último encontro de três jovens?

    – Foi no bar do Parreira, num sábado à tarde, disse ele acrescentando mais detalhes.

    Incrédulos os outros dois amigos se entreolharam assustados. Existira mesmo um bar do Parreira que ocupava um antigo casarão com fama de mal assombrado e que eles frequentavam
    eventualmente.

    Vocês se lembram do bar do Parreira? Insistiu ele mais sério do que era de se esperar para aquela situação.

    – Sim, responderam os outros dois.

    – E vocês também se lembram das lendas que envolviam aquele bar, não lembram?

    Há vinte e dois anos, sete meses e dezessete dias aqueles três, ainda jovens, se reuniram para tomar umas e outras naquele fatídico bar para marcar a separação dos amigos, pois cada um deles, egressos do ensino médio, iria para uma cidade diferente para continuar os estudos. E beberam pelas suas despedidas, se foram e quis o destino que eles nunca mais se encontrassem. Até hoje.

    Mas algo muito grave acontecera naquele bar aquele dia. Naquele casarão mal-assombrado, na penumbrosa tarde de um sábado, sob o olhar etéreo dos fantasmas que flutuavam por ali, eles fizeram um pacto. Um pacto de sangue, na mesa sagrada que ficava sob o umbral de madeira muito antiga, que levava aos fundos do bar, onde só o proprietário entrava e desaparecia por entre engradados e caixas empoeiradas e ninguém sabia muito bem o que ele fazia ali. Muito se especulava entre os frequentadores sobre o que haveria lá dentro e a hipótese mais plausível defendia que era lá que os fantasmas continuavam bebendo cerveja e jogando cartas e o dono do bar tinha que fazer incursões regulares até lá para servi-los.

    Aquela mesa era considerada especial porque era a que ficava mais perto daquele mistério que intrigava a todos e só era ocupada quando havia uma situação especialíssima, como a despedida daqueles três amigos. Mas parece que agora só um deles se lembrava do compromisso firmado sob a ébria e evanescente observação dos fantasmas.

    – Vocês se esqueceram do nosso pacto?

    Questionou ele visivelmente irritado.

    – Pacto, que pacto?

    Subitamente uma avalanche de recordações pareceu soterrá-los sob os escombros de vinte e dois anos, sete meses e dezessete dias de esquecimento.

    Eles eram jovens, estavam embriagados e se comprometeram com algo que não poderiam cumprir jamais. Dois deles haviam esquecido e vivido em paz até agora, mas diante do olhar de desaprovação do amigo, sentiam-se culpados e irresponsáveis.

    Envergonhados, perguntaram o que poderiam fazer para se redimir por o terem abandonado, para carregar sozinho, durante todos aqueles anos o fardo de um pacto irresponsável.

    Ele respondeu, iracundo, olhando fixamente nos olhos dos dois, que poderiam começar por pagar a conta da esbornea daquele sábado há vinte e dois anos, sete meses etc, pois, como parecia que tinham a memória fraca, não deveriam se lembrar também que o deixaram sozinho no bar, sem dinheiro e com uma conta imensa para pagar.

    – Sozinho não, redarguiu o outro! Os fantasmas estavam lá. E compreenderam finalmente porque ele guardou tão vivamente na memória a data daquele, agora, penúltimo encontro.

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    Magela Oliveira - Publicitário - Agência Wikimídia
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